Pesquisa aponta que famílias ainda naturalizam palmadas como educação

Levantamento divulgado por fundo internacional revela que pais frequentemente distinguem tapas leves de espancamentos, enquanto especialistas alertam sobre os impactos na primeira infância.

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Pesquisa aponta que famílias ainda naturalizam palmadas como educação
© Wilson Dias/Agência Brasil

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Enquanto espera o ônibus em uma avenida no centro de Brasília, uma trabalhadora autônoma de 32 anos segura firme a mão do filho de 6 anos, que está com os olhos vermelhos de chorar. O garoto queria ter ficado mais tempo brincando com os amigos e a mãe recusou, lembrando que ainda precisavam retornar para Samambaia, bairro situado a 30 minutos de distância na periferia do Distrito Federal. Mãe solo, ela afirma que precisa contar até mil para manter a paciência diante das birras cotidianas da criança, mas reforça que a palmada nunca será uma opção e que o respeito deve vir por meio do diálogo.

A trabalhadora recorda que, durante sua própria infância e adolescência, chegou a sofrer agressões físicas em casa, principalmente por parte do pai, mas garante que não repetirá o mesmo comportamento com os descendentes. Contudo, a visão sobre o uso de castigos físicos não é unânime entre os responsáveis, conforme aponta um levantamento divulgado pelo Unicef. A pesquisa ouviu relatos de pais que justificam a prática, com falas como a de um homem no Rio de Janeiro que argumenta existir uma forma de bater para educar, diferenciando o ato de um espancamento severo.

O diagnóstico teve como principal propósito identificar os fatores que levam pais, mães e cuidadores a agredirem os filhos, com foco especial na primeira infância, que abrange crianças de até 6 anos de idade. A justificativa mais comum apresentada pelos responsáveis é a de que a palmada serviria estritamente para disciplinar os pequenos em momentos de conflito. Segundo a pesquisadora Luiza Teixeira, especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil, as famílias sequer consideram o tapa ou a chinelada como uma forma de violência, separando mentalmente a palmada de atos mais graves.

A especialista ressalta que o país dispõe de um arcabouço legal avançado, citando a legislação conhecida como Lei da Palmada, em vigor há 12 anos, além do ECA, estabelecido em 1990. No entanto, o estudo demonstra que essas normas ainda são pouco conhecidas pelas famílias e acabam soterradas por normas sociais enraizadas que legitimam a violência como método educativo. O levantamento qualitativo ouviu 214 pessoas em áreas de vulnerabilidade social, abrangendo 123 participantes no Rio de Janeiro, 37 em Recife e 54 em Manaus.

De acordo com a instituição internacional, a criação no Brasil ainda é tratada como um assunto estritamente privado, o que gera o silenciamento das comunidades ao redor. Os pesquisadores também identificaram uma carência de capacitação adequada para os profissionais da rede de proteção orientarem as famílias, além de barreiras para que os serviços públicos essenciais alcancem os lares mais necessitados de apoio preventivo. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que mais de 60.000 casos de maus-tratos ou lesão corporal em contexto de violência doméstica contra menores foram registrados no país no ano anterior.

Entre as recomendações do estudo, o Unicef destaca a urgência de os governantes fortalecerem as políticas de prevenção, capacitando os profissionais para atuarem antes que a violência ocorra e promovendo campanhas que dialoguem diretamente com a realidade das comunidades vulneráveis. Especialistas em psicologia e neurociência reforçam que crianças pequenas ainda estão desenvolvendo a autorregulação emocional e o controle de impulsos, necessitando de acolhimento e limites firmes estabelecidos sem o uso de agressões físicas ou constrangimentos.

Perguntas Frequentes

Qual organização divulgou o levantamento sobre violência contra crianças?
O estudo foi divulgado pelo Unicef.

Qual é a faixa etária principal analisada pela pesquisa do Unicef?
O foco principal da investigação foi a primeira infância, abrangendo crianças de até 6 anos de idade.

Quantas pessoas participaram das entrevistas nas comunidades vulneráveis?
O levantamento ouviu um total de 214 pessoas em regiões específicas do Rio de Janeiro, Recife e Manaus.

 

Com informações de Luiz Claudio Ferreira – Repórter da Agência Brasil

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