Crônicas da Terceira Margem – Recortes do rio

Às margens do Madeira, Renato Gomez entrelaça literatura, memória e filosofia em uma crônica sobre o tempo, as transformações humanas e as travessias da vida.

Fonte: Renato Gomez

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Crônicas da Terceira Margem –  Recortes do rio

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Hoje, em meio a uma correnteza de afazeres de uma rotina estressante, eu me sentei no mirante e me pus a olhar o rio. Não sei o porquê, talvez fosse só cansaço e vontade de me sentar. Quis o destino que fosse ali que eu estivesse passando e que ali encontrasse uma sombra e um banco. Não sei quanto tempo fiquei, mas as reflexões literárias, linguísticas e filosóficas que me tomaram naquele momento persistem em mim e talvez aqui habitem por algum tempo.

Pensei nos que o rio já habitaram e nos que ainda habitam. Dos indígenas aos ribeirinhos, sempre tivemos os que estão às margens da sociedade e nas margens do rio. Lembrei de um texto antigo meu: “Morava em um casebre à beira do rio de águas barrentas que via o sol acordar escaldante e a lua dormir amarela com a poeira que pairava no ar. Comia o que o rio lhe trazia à isca e passeava em seu leito com a voadeira que o pai havia feito e lhe deixou a herdar. Bebia a água barrenta fervida e nunca adoecia, pois os anticorpos eram de candiru matar.” E isso me inundou de referências de outros autores que também falaram sobre o rio. 

Se muitas são as margens da sociedade, o rio tem “apenas” duas, no máximo uma terceira, mas aí já é uma questão de “primeiras estórias”. Na história real, quem vive na margem aprende cedo que o rio é despensa e estrada, remédio e ameaça. Pascal, que nunca viu a Amazônia, definiu bem a parte de estrada: “os rios são caminhos que andam e que levam aonde se quer ir”. Dali do mirante, o Madeira não me parecia paisagem, mas causa: esta cidade existe porque o rio existe, porque a cachoeira interrompeu o caminho que andava e obrigou os homens a inventar trilhos, barracões, febres e cemitérios. O que chamamos de fundação quase sempre é um obstáculo de água que alguém teimou em atravessar. 

Depois me ocorreu que nem todo rio é de água. “Há um rio que nasce dentro de nós, corre por dentro da casa e desagua não no mar, mas na terra. Esse rio uns chamam de vida”, escreveu Mia Couto. É verdade que carregamos um leito por dentro, com suas cheias e suas secas, seus barrancos que desabam sem aviso. Há épocas em que baixamos tanto que aparecem no fundo as pedras que a gente jurava não ter. E há as cheias, quando tudo transborda e invade o que não era para invadir. E não falo aqui das correntezas sanguíneas, que nos mantém vivos, mas de ciclos muito mais profundos, que, creio eu, o leitor mais poético prevê com facilidade.

Pensar em foz, claro, é pensar em fim. Mia Couto de novo: “Nós chegamos à morte como um rio que deságua no mar: uma parte está a nascer e, simultaneamente, a outra já se assombra no sem-fim.” Entre a nascente e a foz, entre as margens direita e esquerda, há uma travessia. E é nesse ponto que residem os desafios, mas é na parte final que mora a estranheza, o susto. Khalil Gibran suavizou esse susto ao escrever que “diz-se que um rio treme de medo antes de entrar no mar… Contudo, não existe outra maneira, o rio não pode voltar… O rio perceberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas sim de se tornar oceano”. O fluxo é contínuo e definitivo, todos chegam lá, sejam rios, sejam pessoas. A quem seja mais religioso, o Eclesiastes, que é bem mais velho que nós dois, já tinha dado a notícia com outra economia de palavras: “Todos os rios vão para o mar, contudo, o mar nunca se enche; ainda que sempre corram para lá, para lá voltam a correr.” Nada se perde no caminho da foz. Muda de nome, apenas. E, se o fim é mesmo o fim, com sua condição inevitável, os rios e as pessoas são lembrados apenas por seu percurso.

Então, como já esboçado, talvez a foz seja a parte menos importante da história. Guimarães Rosa, que entendia de travessia como ninguém, avisou que “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. E completou em outro lugar: “o rio não quer chegar a lugar algum, só quer ser mais profundo”. Fiquei com essa frase atravessada durante toda a tarde. Nós, que vivemos fazendo planos de chegada, metas, prazos, defesas, relatórios, talvez devêssemos trocar a pressa do percurso pela ambição da profundidade. Há a necessidade, em tempos tão imediatistas, da pausa para compreender cada fase do percurso, para, como um rio, nos aprofundarmos em nós mesmos. Atravessar o rio da vida, como o rio me atravessa, sempre se modificando.

Rio que atravessa gente vira outra coisa. Langston Hughes, do outro lado do mesmo oceano para onde correm todos os rios, escreveu que conhecia rios, “rios antigos como o mundo e mais velhos que o fluir do sangue humano nas veias humanas”, e foi nomeando o Eufrates, o Congo, o Nilo, o Mississipi, como quem faz a chamada de uma história que não cabe nos compêndios de geografia. Todo rio grande carrega uma lista dessas. O Madeira tem a sua: os que desceram nos vapores, os que foram trazidos para abrir a estrada de ferro, os que morreram antes do primeiro trilho. Um rio assim já não é acidente geográfico, é testemunha. Ele atravessa gente. Atravessa a história.

E somos parecidos com ele. Tolstói escreveu que os homens se parecem com os rios: “todos são feitos dos mesmos elementos, mas ora são estreitos, ora rápidos, ora largos, ora plácidos, claros ou frios, turvos ou tépidos.” Então deveriam os homens atravessar os rios como atravessam o tempo? Para Leonardo da Vinci, sim: “a água que você toca dos rios é a última daquela que se foi e a primeira daquela que vem. Assim é o tempo presente.” Os rios mudam, os homens mudam. E Heráclito, o mais antigo e o mais exato de todos, fecha a questão com uma condição essencial: “nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio… pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tão pouco o homem!” O banco do mirante era o mesmo de outras tardes. Eu é que já era outro, e a água também.

Agora, aqui sentado em frente à tela para escrever, percebo que o conhecimento também é um rio. Talvez por isso a palavra fonte, entre suas polissemias, abranja contextos de significância na água e no conhecimento. Bebemos de quem passou antes, e o que escrevemos já vai turvo da terra por onde correu. “Os outros passam a escrita a limpo, eu passo a escrita a sujo. Como os rios que se lavam em encardidas águas. Os outros têm caligrafia, eu tenho sotaque. O sotaque da terra”, disse Mia Couto, e é isso que eu quis a tarde inteira: escrever com barro dentro, com a cor do Madeira, sem passar a limpo o que a vida entregou sujo. E eu? Eu, em paráfrase roseana, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro, o rio.

*Renato Gomez nascido em Santo André-SP, está radicado à beira do Rio Madeira desde 1997. É Graduado em Letras Português, Mestre em Estudos Literários e Doutorando em Letras, todos pela Universidade Federal de Rondônia, Especialista em Revisão de Textos pela Unyleya, Pós-Graduando em Tutoria EAD pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Além disso, é Servidor Público Estadual há 18 anos, tendo atuado pelo Ministério Público do Estado de Rondônia e atualmente no Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia, e Docente do Curso de Direito do Centro Universitário São Lucas – Afya Porto Velho. Autor dos livros Entre o Concreto e o Abstrato e Versos Naturais, ambos pela Editora Penalux, e dos e-books Aliterações e Crônicas do Velho Porto, publicações independentes. 

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