Dia de Finados: fé, memória e saudade em Porto Velho

Tradição reúne homenagens e lembranças de quem partiu, enquanto Porto Velho recebe famílias após a limpeza das áreas comuns do Cemitério Santo Antônio.

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Dia de Finados: fé, memória e saudade em Porto Velho

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Nesta segunda-feira, 2 de novembro, o Dia de Finados mobiliza famílias em homenagens a parentes e amigos que morreram. Visitas a cemitérios, flores, velas, orações e missas marcam a data, que também abre espaço para lembranças e diferentes maneiras de viver a saudade.

Em Porto Velho, a preparação para receber os visitantes ganhou atenção após denúncias sobre túmulos de vítimas da Covid-19 cobertos por mato no Cemitério Santo Antônio. Um mutirão de limpeza foi realizado antes do feriado, com roçagem, rastelamento e retirada de entulhos.

A movimentação nos cemitérios aproxima duas dimensões da data: a memória de quem partiu e o cuidado com os lugares onde essas pessoas foram sepultadas.

O que significa o Dia de Finados

De origem católica, o Dia de Finados é oficialmente chamado de Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. A celebração é dedicada às orações pelos mortos e, para os católicos, está associada à esperança na ressurreição e na vida eterna.

A palavra “finado” vem do latim finātus, com o sentido de algo que chegou ao fim. Na tradição religiosa, porém, a homenagem não se limita ao encerramento da vida: envolve a preservação da memória e a continuidade dos vínculos por meio da fé.

Embora tenha se consolidado no catolicismo, a data ultrapassou o contexto religioso. Pessoas de diferentes crenças, assim como aquelas que não seguem uma religião, também reservam esse momento para recordar familiares e amigos.

Uma história de mais de mil anos

As homenagens aos mortos são anteriores à criação do Dia de Finados. Ritos funerários e práticas de lembrança já faziam parte de culturas pré-cristãs. Entre os cristãos, há registros de orações pelos falecidos desde os primeiros séculos.

A instituição de uma celebração em 2 de novembro é atribuída ao abade beneditino Odilo de Cluny, na França, em 998. Ele determinou que os mosteiros sob sua responsabilidade dedicassem aquele dia às orações pelos fiéis mortos.

A escolha estabeleceu uma ligação com o Dia de Todos os Santos, celebrado em 1º de novembro. Enquanto a primeira data homenageia os santos, a seguinte é voltada à memória dos fiéis falecidos.

A prática se espalhou pela Europa e se consolidou no calendário da Igreja Católica ao longo dos séculos. Em 1915, o papa Bento XV autorizou os sacerdotes a celebrar três missas no Dia de Finados, ampliando as possibilidades de celebração religiosa nessa ocasião.

No Brasil, a tradição chegou com os portugueses durante o período colonial. As visitas aos túmulos, as orações e as missas passaram a integrar os costumes de muitas famílias.

Fé, recolhimento e lembranças de família

O teólogo Fernando Altemeyer Júnior, professor de Ciências da Religião da PUC-SP, descreve a data como uma ocasião de celebração da vida dos fiéis falecidos. Ele lembra que, no Brasil e em Portugal, visitar os túmulos é uma das principais expressões dessa tradição.

Ao recordar a própria família, o professor relata que o dia era vivido com recolhimento, sem rádio ou televisão, e com momentos de oração. Para ele, os rituais funerários expressam uma relação humana antiga com a morte e com a expectativa de algo além da vida.

A psicóloga Maria Helena Pereira Franco, estudiosa do luto e professora da PUC-SP, destaca que a morte é uma experiência universal, mas as formas de lidar com ela variam conforme a cultura. Tradições transmitidas entre gerações ajudam a dar sentido à perda.

Essas diferenças aparecem tanto nas celebrações religiosas quanto nos gestos cotidianos: limpar uma sepultura, guardar uma fotografia, preparar uma comida que alguém apreciava ou contar uma história sobre essa pessoa.

Nos cemitérios, o cuidado também atravessa gerações

Os relatos de famílias que frequentam cemitérios mostram como a homenagem pode fazer parte de uma rotina que continua depois do feriado.

Em Fortaleza, a zeladora Francisca Pereira Lima, de 76 anos, conta que o cuidado com os túmulos se estende pelo ano. Depois do Dia de Finados, ela mantém visitas às segundas, quartas e sextas-feiras.

Tarcísio Moreira, de 66 anos, associa a data à preservação da memória afetiva:

“É questão de se manter vivo no coração de alguém.”

Nelsa Dantas, de 63 anos, chama atenção para a continuidade desse cuidado. Para ela, as famílias não devem abandonar as sepulturas depois do enterro e precisam reservar algum tempo para visitar o local, levar flores e homenagear seus parentes.

Já Francisca Lacerda, de 73 anos, relaciona o Dia de Finados à saudade, às recordações e aos sonhos compartilhados. A oração pelo descanso de quem morreu faz parte dessa maneira de lembrar.

A movimentação nos cemitérios pelo país

Os números reunidos para a data mostram a dimensão das visitas e das operações de atendimento. As estimativas se referem a períodos e estruturas diferentes:

  • Manaus: expectativa de mais de 700 mil pessoas nos dez cemitérios públicos entre 30 de outubro e 2 de novembro, com mais de mil trabalhadores mobilizados.
  • Distrito Federal: previsão de cerca de 400 mil visitantes nos seis cemitérios.
  • Curitiba: estimativa de mais de 200 mil visitantes nos 27 cemitérios da cidade. Os cinco municipais esperam aproximadamente 100 mil pessoas.
  • Campinas: expectativa de mais de 120 mil visitantes entre 1º e 2 de novembro.
  • Belo Horizonte: previsão de mais de 80 mil pessoas nos quatro cemitérios municipais.
  • Porto Velho: como referência do ano anterior, cerca de 16 mil pessoas visitaram os cemitérios Santo Antônio e dos Inocentes no Dia de Finados de 2025, segundo balanço municipal.

Ao mesmo tempo, mudanças nas práticas funerárias transformam os locais de homenagem. Em reflexão publicada pelo Estadão, o historiador Leandro Karnal menciona uma estimativa de que a cremação represente entre 8% e 9% das destinações dos mortos no Brasil.

Esse cenário amplia as formas de preservar a memória, já que a homenagem nem sempre fica vinculada a uma sepultura.

Porto Velho: limpeza após denúncias no Santo Antônio

Na capital de Rondônia, o Dia de Finados foi antecedido por cobranças sobre o estado de conservação do Cemitério Santo Antônio. As denúncias incluíam sepulturas de vítimas da Covid-19 tomadas pelo mato.

A operação reuniu equipes terceirizadas e da Secretaria Municipal de Infraestrutura. Os trabalhos começaram pelos fundos do cemitério e avançaram em direção à entrada, com roçagem, rastelamento e retirada de entulhos.

Conforme a reportagem do News Rondônia sobre a conclusão do mutirão, a limpeza geral levou cerca de 20 dias. Na área destinada às vítimas da Covid-19, as sepulturas voltaram a ficar visíveis.

A prefeitura informou que os serviços nas áreas comuns foram concluídos antes do feriado. A conservação das sepulturas particulares, segundo a administração municipal, continua sob responsabilidade das famílias.

A igreja no interior do cemitério também passou por manutenção para receber as missas da data.

Restrições a sepultamentos e projeto de novo cemitério

O gerente da Divisão de Cemitérios, Tassiano José, informou que responde por três cemitérios na capital e outros 11 nos distritos. Segundo ele, o Santo Antônio reúne aproximadamente 160 mil sepultados.

O local está embargado para novos enterros, com exceção do atendimento às famílias que já possuem gavetas. Tassiano também mencionou a existência de um projeto para um novo cemitério municipal, ainda sem detalhes sobre localização ou prazo.

Construído em 1975, o Santo Antônio é o maior cemitério público de Porto Velho. Informações divulgadas pelo Governo de Rondônia apontam uma área de aproximadamente 250 mil metros quadrados e cerca de 95 mil sepulturas.

O número de sepulturas não corresponde necessariamente ao total de pessoas sepultadas, já que uma mesma estrutura pode abrigar mais de um sepultamento ao longo do tempo.

Durante o período mais crítico da pandemia, o cemitério recebeu mais de 200 corpos de vítimas da Covid-19, conforme registro do governo estadual. Em 2022, a expectativa municipal era de aproximadamente 20 mil visitantes no local durante o Dia de Finados, um dado histórico que ajuda a dimensionar sua importância para as famílias da capital.

Não existe uma única maneira de viver o luto

Para quem enfrenta uma perda recente, a data pode trazer sentimentos intensos. Algumas pessoas encontram conforto na companhia de familiares; outras preferem recolhimento.

Em orientações publicadas pela CNN Brasil sobre o luto no Dia de Finados, a psiquiatra Elaine Bida destaca a importância de respeitar essas diferenças, sem transformar a recuperação em uma cobrança.

“Seguir em frente não significa esquecer.”

A homenagem pode acontecer diante de um túmulo, durante uma oração, ao olhar uma fotografia ou em uma conversa sobre o passado. O sentido desses gestos depende da história, das crenças e das necessidades de cada pessoa.

Em Porto Velho, as visitas ao Santo Antônio também mantêm em evidência a conservação dos cemitérios. Depois do mutirão para o feriado, a manutenção das áreas comuns e o cuidado com as sepulturas continuam necessários ao longo do ano.

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