DCE da UNIR se cala diante da eleição e revolta estudantes no campus José Ribeiro Filho: “Neutralidade também é uma escolha”

Acadêmicos criticam decisão do DCE da Unir de não apoiar candidatos no segundo turno e cobram atuação em defesa da educação pública e da permanência estudantil.

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DCE da UNIR se cala diante da eleição e revolta estudantes no campus José Ribeiro Filho: “Neutralidade também é uma escolha”

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Postura do Diretório Central dos Estudantes ao não declarar apoio no segundo turno provoca reação entre acadêmicos, que questionam o posicionamento da entidade diante de propostas que podem afetar a educação pública e o futuro das universidades federais. “Lula ou fascismo: uma escolha muito difícil”, afirmou Vinicius Pietro Jesus Laronga, representante do curso de Medicina da Unir, ao comentar a publicação.

Uma postagem feita pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Rondônia (Unir), em sua página oficial no Instagram, provocou repercussão e uma série de críticas entre acadêmicos da instituição. A entidade, sediada no campus José Ribeiro Filho, em Porto Velho, publicou um posicionamento no qual afirma que não apoiará nenhum dos dois candidatos à Presidência da República no segundo turno.

Na publicação, o DCE afirma:

“O DCE-Unir se recusa a endossar esta ilusão. Não apoiamos, e sim condenamos ambos os candidatos presidenciais no segundo turno.” A entidade sustenta ainda que a defesa dos direitos do povo deve continuar sendo feita “nas ruas, nas escolas, nas universidades, no campo e na cidade”.

A posição provocou reação entre estudantes, que passaram a questionar a postura adotada pela atual gestão do diretório. Para parte dos acadêmicos, a declaração de neutralidade ocorre justamente em um momento considerado decisivo para o futuro das universidades federais, dos Institutos Federais e das políticas de permanência estudantil.

O acadêmico e representante do curso de Medicina, Vinicius Pietro Jesus Laronga, foi um dos primeiros a criticar o posicionamento adotado pela atual gestão do DCE. Em comentário na publicação, resumiu sua posição: “Lula ou fascismo: uma escolha muito difícil.”

Segundo as críticas publicadas pelos próprios estudantes nos comentários, a decisão do DCE de não assumir posição diante dos projetos apresentados pelos candidatos pode afastar a entidade de uma atuação mais direta em defesa da educação pública. “Gatinhos nas lutas locais, leões pela Palestina”, criticou a estudante Esther Lima.

Outro estudante classificou a postura como “neutralidade de fachada” e afirmou que “quem fica em cima do muro também acaba caindo para a direita”. Outro comentário foi ainda mais direto: “Vergonhoso! Este DCE não nos representa!”

Em outra manifestação, um acadêmico questionou a coerência da entidade ao lembrar que o diretório costuma se mobilizar sobre questões políticas e internacionais, mas, segundo ele, deveria demonstrar a mesma disposição quando estão em jogo “a universidade pública, os estudantes, a pesquisa, a assistência estudantil e o futuro da própria Unir”.

Propostas para a educação entram no centro da discussão

A controvérsia ocorre em meio ao debate sobre as propostas apresentadas pelos candidatos para a educação pública. No programa de governo de Flávio Bolsonaro (PL), há previsão de transferir a gestão das universidades federais do Ministério da Educação para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O documento também propõe mudanças no financiamento estudantil, além de medidas como financiamento baseado em metas e resultados.

Na área econômica, o programa de Flávio Bolsonaro apresenta a proposta chamada de “tesouraço”, com redução de despesas, corte de ministérios e criação de um novo teto de gastos. Reportagens recentes também apontam preocupação de reitores e pesquisadores com possíveis cortes e mudanças na estrutura do ensino superior, embora o programa não estabeleça uma meta orçamentária específica para as universidades federais.

É nesse contexto que os estudantes questionam a decisão do DCE-Unir de não apoiar nenhum dos candidatos. Para os críticos, o debate sobre orçamento universitário, assistência estudantil, bolsas, pesquisa e extensão deveria ocupar espaço central na atuação da principal entidade de representação estudantil da universidade.

A acadêmica Maria Rita também criticou duramente a postura adotada pelo diretório: “Sinceramente, sinto NOJO dessa falsa superioridade política. São nove páginas tentando vender como ‘independência’ uma posição política extremamente clara. Não existe neutralidade quando vocês escolhem atacar os dois lados, selecionar argumentos para sustentar uma narrativa e ainda falar como se fossem os únicos representantes legítimos dos estudantes. O mais absurdo é a tentativa de transformar a própria escolha política em verdade absoluta: quem discorda aparentemente está sendo enganado, enquanto vocês seriam os únicos capazes de enxergar ‘a realidade’. Isso não é independência; é arrogância política. Se querem defender uma posição, defendam. Mas tenham honestidade para assumir que ela é de vocês e não falar em nome de todos os estudantes.”

Críticas vão além da eleição

As críticas, porém, não se limitam à posição adotada pelo DCE no segundo turno. Para o acadêmico Victo Nunes, o problema é mais antigo e envolve a própria atuação da entidade na representação estudantil. “Há anos, o DCE abandonou a luta estudantil e se acomodou na passividade. Nem faz revolução, nem faz movimento estudantil. Vive de palavras de ordem, enquanto os interesses dos estudantes ficam em segundo plano. A universidade não pode ser tratada como um parquinho de discursos: quem foi eleito para representar os estudantes precisa, de fato, lutar por eles”, afirmou.

Na avaliação do estudante, o diretório deixou de assumir a frente de pautas consideradas relevantes para a comunidade acadêmica e perdeu, segundo ele, a capacidade de aproximar os estudantes das lutas sociais que ultrapassam os limites da universidade.

Victo também questiona a repetição de discursos contra o processo eleitoral sem que, segundo ele, isso resulte em ações efetivas. “Nada mudou com todos os gritos de ordem”, resume.

A crítica é dirigida também à própria identidade política assumida pelo diretório. Segundo os estudantes que contestam a atual gestão, o discurso de transformação e de ruptura com o sistema não seria acompanhado por mobilizações permanentes em defesa das demandas concretas dos acadêmicos.

Questionamento sobre o papel do DCE

A comparação também é feita com outros diretórios estudantis do país, que vêm se manifestando publicamente sobre o processo eleitoral e sobre propostas relacionadas à educação. Para os críticos, o DCE da Unir deveria participar mais ativamente do debate sobre políticas que podem afetar diretamente a universidade e seus estudantes.

Para os acadêmicos que reagiram à publicação, a neutralidade adotada pelo DCE-Unir pode contribuir para uma postura distante daquilo que eles consideram ser a tradição de luta do movimento estudantil, especialmente em um momento em que estão em discussão orçamento, bolsas, assistência estudantil, pesquisa, extensão e o próprio modelo de financiamento e gestão das universidades federais.

A discussão, portanto, ultrapassa a escolha entre candidatos. O questionamento central feito pelos estudantes é sobre o papel de uma entidade que representa milhares de acadêmicos: até que ponto uma entidade estudantil pode permanecer neutra quando estão em disputa projetos políticos com consequências diretas sobre o futuro da universidade pública?

 

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