Na ONU, Lula alerta contra interferências nas eleições e afirma: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”

Presidente brasileiro defendeu a soberania nacional, a democracia e o direito de cada país decidir seu próprio destino; eleições de 2026 e possíveis interferências externas estiveram entre os principais pontos do discurso.

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Na ONU, Lula alerta contra interferências nas eleições e afirma: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu nesta terça-feira (22) o Debate Geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, com um discurso centrado na defesa da soberania, da democracia e do multilateralismo. Ao abordar o cenário político da América Latina, Lula alertou contra interferências externas em processos eleitorais e afirmou que o Brasil não aceitará ingerências sobre suas decisões internas.

A defesa da soberania brasileira ganhou destaque na fala do presidente, especialmente ao tratar da relação com os Estados Unidos e das eleições brasileiras de 2026. Lula afirmou que o país deve manter sua autonomia política e que a vontade popular precisa ser respeitada. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”

A declaração foi feita durante um trecho em que Lula discutia a relação entre a América Latina e os Estados Unidos e criticava o que classificou como novas tentativas de influência sobre países da região. “Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo no contexto do recrudescimento de tentações hegemônicas: o Brasil não cabe no quintal de ninguém.”

Desde 1955, o Brasil é o primeiro país a discursar no Debate Geral da Assembleia Geral da ONU, seguido pelos Estados Unidos, país anfitrião. A 81ª sessão reúne representantes dos 193 Estados-membros entre 22 e 28 de setembro.

Eleições e democracia

Ao abordar diretamente as eleições brasileiras, Lula afirmou que milhões de brasileiros irão às urnas em 4 de outubro para escolher presidente, governadores e representantes do Legislativo. O presidente apresentou o pleito como um momento de decisão sobre os rumos políticos do país e alertou para os riscos de interferências externas e da desinformação.

“A todos que nos ouvem. No dia 4 de outubro, milhões de brasileiros e brasileiras vão às urnas para definir o seu destino. Não vão apenas eleger o presidente da República, governadores e representantes do Poder Legislativo. Vão decidir entre democracia e negacionismo.”

Na sequência, Lula afirmou que as eleições deverão ocorrer de forma transparente e competitiva, com liberdade de expressão para os candidatos, e citou os desafios relacionados às redes de desinformação.

“Teremos um pleito transparente, competitivo, que dê a todos os candidatos a mais ampla liberdade de expressão. Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país.”

O presidente também afirmou que o Brasil possui um sistema eleitoral que, segundo ele, é moderno e robusto e que a vontade popular não deve ser submetida a interesses externos. “Não subestimamos os desafios das redes de desinformação que pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha, mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto.”

Lula encerrou esse trecho reafirmando a soberania nacional e o papel das instituições na preservação da democracia. “Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém, ninguém nos afastará desse caminho.”

Críticas à ONU e aos conflitos internacionais

Um dos primeiros pontos abordados por Lula foi a atuação da própria ONU diante dos conflitos internacionais. O presidente afirmou que a organização atravessa uma crise de credibilidade e criticou a capacidade do Conselho de Segurança de responder às guerras e às disputas entre as grandes potências.

“A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas, a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa.”

Lula também criticou o poder de veto dos membros permanentes do Conselho de Segurança. “Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel.”

Ao defender uma resposta política aos conflitos, o presidente afirmou: “A guerra não é a continuação da política por outros meios, é a falência total da política.”

Soberania e multilateralismo

A defesa do multilateralismo foi outro eixo importante do discurso. Lula afirmou que a comunidade internacional precisa escolher entre modelos distintos de organização política e relações entre os países. “O mundo precisa optar entre multilateralismo e unilateralismo, democracia ou extremismo, soberania ou subordinação.”

O presidente também citou iniciativas diplomáticas envolvendo Brasil e China e defendeu a negociação como instrumento para enfrentar conflitos internacionais. “A diplomacia é a única opção.”

Lula mencionou ainda o Grupo de Amigos da Paz, iniciativa que reúne países em torno de propostas diplomáticas para conflitos internacionais.

América Latina

Ao tratar da situação política latino-americana, Lula afirmou que diferenças ideológicas não devem impedir a integração entre os países da região e defendeu o direito dos povos de escolher seus próprios governos.

“Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constitui gesto anacrônico.”

O presidente também mencionou Venezuela, Nicarágua, Haiti e Cuba. Segundo Lula, o povo venezuelano deve ter o direito de decidir seu próprio destino, enquanto a crise política da Nicarágua não seria solucionada com a exclusão da oposição das eleições. Sobre Haiti e Cuba, abordou a crise política e humanitária e os efeitos das sanções econômicas.

O combate ao crime organizado também ocupou parte significativa do discurso. Lula afirmou que o Brasil não subestima a atuação das organizações criminosas e defendeu maior cooperação internacional para combater o tráfico de armas, o financiamento das facções e a lavagem de dinheiro. “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado.”

O presidente afirmou ainda que apresentou pessoalmente ao governo dos Estados Unidos uma proposta de cooperação para combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior.

Lula também citou iniciativas de cooperação entre países amazônicos e a França, entre elas o Centro de Cooperação Internacional da Amazônia, com sede em Manaus, voltado à integração das autoridades de segurança dos nove países amazônicos.

Ao abordar as ações do governo brasileiro contra as organizações criminosas, afirmou: “Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime. Crime organizado e corrupção andam juntos.”

Brasil diante do mundo

Ao longo do discurso, Lula apresentou a soberania nacional, a democracia e o multilateralismo como princípios centrais da posição brasileira diante dos demais países.

A fala também colocou as eleições de 2026 no centro da mensagem destinada à comunidade internacional, com o presidente defendendo que o processo eleitoral brasileiro seja conduzido sem interferências externas e com respeito à vontade popular.

O discurso de Lula ocorreu no primeiro dia do Debate Geral da 81ª Assembleia Geral da ONU, que reúne chefes de Estado e de governo para discutir temas internacionais entre 22 e 28 de setembro.

Texto elaborado com base no discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas.

 

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