Cortes em benefícios sociais podem afetar economias do interior

Estudo da USP estima que a falta de reajustes reais em aposentadorias, BPC e Bolsa Família pode reduzir a renda de municípios fora das regiões metropolitanas e ampliar a pobreza.

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Cortes em benefícios sociais podem afetar economias do interior
foto - Joédson Alves/Agência Brasil

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  • Estudo do Made-USP mostra que benefícios sociais e previdenciários têm peso proporcionalmente maior na renda e no comércio de municípios fora das regiões metropolitanas, chegando a 40% da renda agregada no interior do Ceará.
  • Simulações indicam que, em cenário sem ganhos reais dos benefícios entre 2022 e 2025, a renda agregada do interior ficaria entre 6,8% e 10,8% abaixo do projetado, com perdas chegando a 17% ou 18% em estados como Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí.
  • O levantamento estima que a ausência de valorização real dos benefícios poderia levar cerca de 2,7 milhões de pessoas à pobreza em municípios do interior, sendo 2,4 milhões à extrema pobreza, com maiores aumentos absolutos na Bahia, São Paulo e Minas Gerais.

Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação do News Rondônia

A estagnação ou a redução do valor real dos benefícios sociais e previdenciários pode provocar perdas significativas na atividade econômica de municípios do interior do Brasil. A conclusão é de um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), divulgado nesta semana.

O levantamento analisa o peso de aposentadorias, do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) na renda das famílias e no comércio local. Segundo os pesquisadores, em cidades fora das regiões metropolitanas, as transferências públicas têm participação proporcionalmente maior na economia e são importantes para o consumo de itens essenciais.

Benefícios sociais movimentam o comércio local

De acordo com o estudo, dos 5.569 municípios brasileiros considerados no levantamento, cerca de 4 mil estão fora das regiões metropolitanas. Nessas localidades, o peso das transferências públicas pode chegar ao dobro do observado nos grandes centros urbanos.

No Ceará, por exemplo, benefícios sociais e previdenciários representam 22% da renda agregada da capital e da região metropolitana. Nos municípios do interior do estado, a participação chega a 40%, conforme os dados apresentados pela pesquisa.

A co-diretora do Made-USP, a economista Luiza Nassif, explica que boa parte dos recursos recebidos é destinada à compra de produtos de primeira necessidade. Esse consumo movimenta estabelecimentos locais, sustenta empregos e contribui para a arrecadação dos municípios.

Estudo projeta perdas de renda no interior

A pesquisa simulou os efeitos econômicos de diferentes trajetórias para os benefícios sociais e previdenciários ao longo dos três anos seguintes à análise. Para isso, comparou a evolução real dos valores entre 2022 e 2025 com um cenário semelhante ao observado entre 2019 e 2022, período caracterizado, segundo o levantamento, pela ausência de ganhos reais do salário mínimo e pelo congelamento dos valores considerados na simulação.

Nesse cenário hipotético, a renda agregada dos municípios do interior ficaria entre 6,8% e 10,8% abaixo do nível projetado com a valorização real dos benefícios.

Os efeitos estimados variam conforme o estado. No interior do Rio Grande do Norte, do Amapá e do Piauí, a perda de renda poderia ficar entre 17% e 18%. No Amazonas, em Sergipe e Pernambuco, chegaria a aproximadamente 15%.

No Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia, a retração projetada seria de 10% a 13%. Já em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o estudo estima perdas de cerca de 6,5%.

Os números são resultados de simulações, e não registros de perdas já verificadas. Eles dependem dos cenários utilizados pelos pesquisadores.

Falta de reajustes também pode ampliar a pobreza

Além dos efeitos sobre o comércio e a renda municipal, o levantamento destaca a importância dos benefícios para famílias de baixa renda. Segundo Luiza Nassif, para quem vive com recursos limitados, reajustes inferiores à inflação podem comprometer o poder de compra e aumentar a vulnerabilidade econômica.

Para famílias com rendimento de até 1,5 salário mínimo por pessoa, os benefícios sociais e previdenciários podem representar até 50% da renda, de acordo com a economista.

As simulações indicam que a ausência de ganhos reais nos benefícios entre 2022 e 2025 teria levado aproximadamente 2,7 milhões de pessoas à pobreza em municípios fora das regiões metropolitanas. Desse total, cerca de 2,4 milhões estariam em situação de extrema pobreza.

Em números absolutos, as maiores elevações estimadas ocorreriam na Bahia, com até 336 mil pessoas a mais na pobreza; em São Paulo, com até 263 mil; e em Minas Gerais, com até 251 mil. Maranhão, Pará e Ceará também registrariam aumentos superiores a 200 mil pessoas cada.

O que os resultados indicam

O estudo aponta que a política de reajuste dos benefícios pode ter efeitos que vão além das famílias diretamente atendidas. Como parte dos recursos é gasta no próprio município, mudanças no poder de compra podem repercutir no comércio, no emprego e na atividade econômica local.

As projeções não significam que essas perdas ocorrerão necessariamente. Os resultados descrevem cenários construídos a partir das premissas adotadas pelo Made-USP e mostram como a evolução dos benefícios pode influenciar a renda e os indicadores de pobreza no interior do país.

Com informações de Bruno Bocchini – Repórter da Agência Brasil.

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