RESENHA POLÍTICA – Análise política da disputa pelo governo de Rondônia aponta cenário de empate técnico e indefinição eleitoral

Pesquisa Quaest revela liderança numérica de Marcos Rogério, empate com Adailton Fúria no primeiro turno e expressivo contingente de eleitores indecisos.

Fonte: Robson Oliveira

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RESENHA POLÍTICA – Análise política da disputa pelo governo de Rondônia aponta cenário de empate técnico e indefinição eleitoral

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PESQUISA
A primeira Quaest da eleição para o governo de Rondônia, publicada pela TV RO anteontem, chega com uma mensagem que não deve ser lida apenas pela aritmética dos percentuais. Marcos Rogério aparece com 24%, Adailton Fúria com 21%. Pela margem de erro de três pontos, os dois estão tecnicamente empatados. Hildon Chaves e Expedito Netto aparecem com 10% cada. Samuel Costa tem 2% e Pedro Abib, 1%. Há ainda 22% de indecisos e 10% que dizem votar branco, nulo ou em ninguém.

TAMANHO
Para Marcos Rogério, a fotografia não é exatamente para ser emoldurada. O senador disputou o governo em 2022 e chegou ao segundo turno com impressionantes 37,05%, ou 315.035 votos. Terminou aquela eleição com 47,53% no segundo turno, derrotado por Marcos Rocha. Agora, quatro anos depois, retorna ao ponto de partida com 24%. O problema, portanto, não é estar numericamente em primeiro. É o tamanho do recall – a capacidade de transformar notoriedade acumulada em intenção de voto – diante de uma eleição na qual ele já foi protagonista.

DIFERENÇAS
Quem já chegou a 37% no primeiro turno não deveria comemorar muito ao aparecer com 24%. Há uma diferença de 13 pontos percentuais. A liderança existe, mas o patrimônio eleitoral de 2022 não reapareceu inteiro. E eleição não é concurso de fotografia: importa menos estar à frente hoje do que saber quem tem capacidade de crescer amanhã. Fúria, por outro lado, tem motivo mais razoável para respirar.

RESILIÊNCIA
O candidato do PSD aparece com 21%, apenas três pontos atrás de Marcos Rogério, empatado dentro da margem de erro. Mais importante que o número absoluto é a trajetória. Fúria tem sido o alvo preferencial de boa parte da cobertura política, justamente por ter assumido a condição de candidato apoiado pelo governo. Ainda assim, não desidratou. Ao contrário: mostrou resiliência. E resiliência, em eleição, é uma qualidade menos vistosa que uma liderança folgada, mas frequentemente mais importante.

VAIDADE
Quem sobrevive ao fogo cruzado sem perder terreno demonstra que possui uma estrutura eleitoral que não depende exclusivamente da simpatia do ambiente político ou da benevolência das manchetes. A pesquisa também produz uma pequena crueldade estatística com Hildon Chaves. O ex-prefeito de Porto Velho aparece empatado com Expedito Netto, do PT, ambos com 10%. Vaidoso como é, está no mesmo patamar do filho do criador deve estar sendo uma experiência dolorida. Mesmo que o retrato de agora não seja o de amanhã.

PERDIDO
Seria improvável imaginar esse cenário há algum tempo. Não porque Expedito Neto não tenha condições de chegar a esse patamar, mas porque Hildon carregava uma vantagem natural de exposição, dois mandatos à frente da capital e uma imagem política construída justamente sobre a capacidade de comunicação. O problema é que campanha também é comunicação. E a campanha de Hildon, até aqui, parece ter perdido a própria voz.

CARÊNCIA
No primeiro debate, foi uma tragédia eleitoral. O Hildon de 2026 passou longe daquele debatedor de 2018 que produzia frases, provocava adversários e parecia sempre encontrar uma janela para desmontar o argumento alheio. O candidato que antes parecia escrever as próprias cenas agora parece, algumas vezes, estar apenas lendo o roteiro. O empate com Expedito não é apenas um número. É um sintoma. E talvez seja exatamente isso que a pesquisa esteja dizendo sobre Hildon: não falta necessariamente capital eleitoral; falta transformar esse capital em campanha.

DEGOLA
No rodapé da tabela está Samuel Costa. E aí a situação é ainda mais delicada. Com 2%, o candidato do PSB precisa enfrentar não apenas os adversários, mas a própria instabilidade de sua candidatura, contestada pela direção nacional do partido. A campanha, neste momento, parece lutar em duas arenas: uma contra os adversários e outra dentro de casa. É difícil construir uma candidatura competitiva quando o partido que deveria sustentá-la discute a sua existência. Sua saída da cena eleitoral é questão de tempo. A degola aconteceu e ele sabe.

INDIFERENTE
Há, finalmente, um dado que talvez seja mais importante que a liderança de Marcos Rogério: 32% dos eleitores estão fora dos candidatos, somando 22% de indecisos e 10% de brancos, nulos ou ninguém. É um eleitorado maior que o percentual de qualquer candidato. Ou seja: a eleição ainda está longe de pertencer aos candidatos. Pertence ao eleitor que não decidiu.

SEQUESTRO
Na pesquisa espontânea, o quadro é ainda mais revelador: 65% não souberam apontar um nome. Fúria aparece com 12%, seguido por Marcos Rogério, com 11%. É aí que a política começa a ficar interessante. A Quaest não está dizendo quem será governador. Está dizendo que ninguém conseguiu, até agora, sequestrar a eleição. Marcos Rogério tem a vantagem numérica, mas não recuperou o desempenho de 2022.

PROTAGONISMO
Fúria demonstra resistência sob pressão. Hildon precisa reencontrar o personagem eleitoral que um dia dominou os debates. Expedito, mesmo no PT, chega a um empate que poucos colocariam na conta tão cedo. Samuel Costa permanece preso a uma crise partidária que talvez seja maior que seus próprios 2%. E o eleitor continua olhando de longe, como quem assiste a uma peça cujo primeiro ato terminou sem que ninguém tenha descoberto ainda quem será o protagonista.

CHORO
A eleição de Rondônia, portanto, não está decidida. Está apenas começando a revelar quem tem musculatura para chegar inteiro ao momento em que a propaganda eleitoral, os debates e as ruas transformarão números em votos. Por enquanto, a Quaest deixa uma certeza e várias dúvidas: Marcos Rogério lidera, mas não sobra; Fúria perde por pouco, mas não cede; Hildon empata onde deveria estar distante; Expedito avança onde muitos não esperavam; e o eleitor, soberano como sempre, continua sem pressa de escolher. E este cabeça chata tem avisado coluna a coluna que esta eleição está longe de uma definição. Cantar vitória agora é um passo largo para chorar amanhã.

DEBATES
É nesse terreno que os debates poderão adquirir importância decisiva. Não haverá espaço para candidatos que entrem no estúdio apenas para confirmar aquilo que sua militância já pensa. A eleição não será decidida pelos que já escolheram. Será disputada por aqueles que ainda observam, com alguma desconfiança, os candidatos tentando convencê-los de que são a melhor alternativa. E esse eleitor não precisa de maquiagem retórica. Precisa de respostas.

NU
O debate é o momento em que o candidato deixa de ser apenas uma imagem cuidadosamente construída pelo marketing e passa a ser confrontado em público. A propaganda oferece tempo para organizar a frase, escolher a fotografia e eliminar o tropeço. O debate retira essa proteção. A pergunta vem, o relógio corre e a resposta precisa existir.

MEDIDA
É por isso que os candidatos não poderão errar grosseiramente, mas também não poderão se comportar como quem teme o próprio adversário. Há uma medida delicada entre firmeza e arrogância. O candidato precisa saber atacar sem parecer desesperado, ironizar sem transformar a política em espetáculo e reagir sem perder o controle. A contundência pode demonstrar segurança. A agressividade gratuita costuma revelar o contrário. O eleitor percebe.E os comitês de campanha sabem disso melhor do que ninguém.

LACRAR
Terminada a transmissão, começa outro debate: o das edições. Cada campanha procurará encontrar nos minutos anteriores a frase que melhor sirva aos seus interesses. Um trecho será transformado em vídeo, outro em meme, outro em anúncio. A fala que o candidato imaginou ter encerrado no estúdio pode continuar circulando durante dias, agora sob a interpretação de seus adversários. É uma arma de dois gumes.

CORTE
Um bom corte pode condensar em quinze segundos a competência que uma hora inteira de debate não conseguiu demonstrar. Um mau corte pode fazer exatamente o contrário: transformar uma hesitação em incompetência, uma ironia em arrogância ou uma frase mal construída em definição de caráter. Por isso, a dose será fundamental.

LINGUAGEM
O candidato que tentar produzir uma frase histórica a cada resposta corre o risco de produzir apenas material para os adversários. A política tem dessas ironias: quem entra no debate procurando a frase que será lembrada pode acabar entregando justamente aquela que gostaria que fosse esquecida. Mas o principal desafio será outro: falar diretamente ao eleitor. Sem eufemismos, sem frases de conveniência, sem promessas embrulhadas em linguagem de campanha.

PROPOSTAS
Quem promete um hospital precisa explicar como vai pagar. Quem promete estradas precisa dizer de onde virão os recursos. Quem promete ampliar serviços públicos precisa conhecer o tamanho da máquina que terá de sustentar. Quem acusa o adversário precisa apresentar fatos, não apenas adjetivos. O eleitor já ouviu promessas suficientes. O que ainda não ouviu, na mesma proporção, são explicações.

BOLHA
E talvez seja exatamente isso que os debates possam oferecer. Numa eleição em que uma parcela expressiva ainda não escolheu candidato e outra parte declara não estar presa à velha divisão entre direita e esquerda, o discurso ideológico perde parte de sua utilidade como atalho eleitoral. O candidato pode continuar falando para sua bolha, naturalmente. Só não deve imaginar que a bolha é o Estado inteiro.

PREPARO
Os debates serão, portanto, uma prova de conteúdo e temperamento. Quem souber enfrentar perguntas difíceis sem fugir; atacar sem se perder; defender-se sem vitimização; e apresentar propostas sem vender ilusões terá uma vantagem importante. Porque, quando a propaganda termina e o cenário deixa de ser controlado, resta o candidato diante da câmera, do adversário e do eleitor. E ali não há marqueteiro que possa responder por ele.
O debate não exige perfeição. Exige preparo. E, sobretudo, exige verdade suficiente para sobreviver ao corte seguinte.

PRUDÊNCIA
A pesquisa trouxe Marcos Rogério como vencedor em um eventual segundo turno. É um dado importante, mas talvez seja justamente o tipo de dado que, em campanha eleitoral, exige mais prudência do que comemoração. No primeiro turno, os números são bem menos confortáveis e mostram Marcos Rogério empatado com Adailton Fúria. Ou seja, há uma eleição inteira pela frente antes de alguém encomendar os fogos.

DADO
O dado mais importante da pesquisa, aquele que os comitês eleitorais já conheciam pelo monitoramento cotidiano das ruas, talvez esteja justamente onde não há nome de candidato: o enorme contingente de eleitores que ainda não decidiu o voto. É um percentual superior ao obtido individualmente por qualquer dos candidatos. Traduzindo do estatístico para o português das ruas, existe muita eleição para acontecer.

ERRO
E é aí que entra o primeiro pecado estratégico da campanha do PL. Ao perceber que os números do primeiro turno não ficaram tão confortáveis quanto provavelmente imaginavam, a coordenação parece ter escolhido vender com entusiasmo quase litúrgico o resultado do segundo turno, como se a eleição já tivesse acabado e restasse apenas providenciar a faixa de campeão. É uma espécie de propaganda antecipada de uma vitória que ainda precisa passar pelo primeiro turno.

FLERTE
O problema é que campanha eleitoral tem memória. E a de 2022 deveria estar especialmente fresca na lembrança de quem comandava aquela candidatura. Naquele ano, o eleitor médio recebeu em determinados momentos uma imagem de arrogância que custou caro. Agora, ao transformar uma projeção de segundo turno em argumento de vitória praticamente consumada, a campanha flerta novamente com o mesmo vício.

PERIGO
Pesquisa não elege candidato. No máximo, avisa onde estão as pedras. E esta Quaest avisa que o eleitor ainda não entregou as chaves da casa a ninguém. Ele decidirá à medida que a campanha avançar, os candidatos forem expostos, os debates acontecerem, as propostas forem confrontadas e, principalmente, os erros aparecerem. Porque eles aparecerão. Em eleição, candidato que acredita estar obrigado a vencer costuma começar a tratar o eleitor como alguém que precisa apenas ser comunicado da decisão que já tomou por ele. É justamente aí que mora o perigo.

REGRA
Hildon Chaves, mesmo patinando ao lado do candidato do PT, não está necessariamente fora do jogo. Campanha é um processo de afunilamento. O eleitor que hoje parece disperso pode amanhã encontrar uma candidatura que traduza melhor aquilo que procura. O cenário de hoje não é escritura pública do resultado de outubro. Por isso, a regra é simples e antiga: vence quem errar menos.

IMAGEM
Até os bagres do Madeira sabem que pesquisa é fotografia. E fotografia não congela o tempo, apenas registra um instante. O problema começa quando o fotografado acredita que a imagem é o retrato definitivo da realidade. Marcos Rogério aparece forte no segundo turno, segundo a Quaest. Mas ainda precisa chegar a ele.

HÁBITO
E, para isso, talvez seja prudente que sua campanha pare de cantar vitória e comece a prestar atenção justamente naquilo que a pesquisa mais claramente revelou: a eleição ainda pertence aos eleitores que não decidiram. Eles não costumam gostar quando alguém tenta decidir por eles. E muito menos quando lhes anunciam, antes da hora, quem será o vencedor. A urna, como se sabe, tem péssimo hábito de ignorar comemorações antecipadas.

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