Victória Bacon se despede da vida deixando um legado de luta, coragem e resistência

Primeira professora trans da rede pública de Rondônia, primeira servidora trans da Unir e primeira sindicalista trans do estado, Victória construiu uma trajetória de luta, coragem e resistência, marcada pela afirmação de sua identidade, pela educação e pela defesa dos direitos da população LGBTQIAP+.

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Victória Bacon se despede da vida deixando um legado de luta, coragem e resistência

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O velório da professora, jornalista e ativista LGBTQIAP+ Victória Ângelo Bacon, conhecida como Victória Bacon, acontece a partir das 22h desta terça-feira, na Funerária São Mateus, em Porto Velho. Na quarta-feira, o corpo seguirá para Curitiba (PR), onde será realizado o sepultamento.

Aos 45 anos, Victória deixa uma trajetória marcada pela educação, pelo jornalismo, pela pesquisa, pelo movimento sindical e, sobretudo, pela coragem de ocupar espaços em uma sociedade que ainda impõe barreiras às pessoas trans. Professora, secretária executiva, tradutora e doutoranda, construiu uma história profissional que ultrapassou os limites de sua carreira e se transformou em referência para outras pessoas.

Segundo informações ainda não confirmadas oficialmente, Victória morreu durante uma cirurgia na vesícula. Ela estava internada desde o dia 24 de setembro. A informação sobre as circunstâncias da morte ainda aguarda confirmação oficial.

De acordo com informações disponíveis em sua página na internet, Victória era graduada e pós-graduada nas áreas de Letras e Comunicação, com formação vinculada a instituições de ensino superior do Paraná. Ela residia em Rondônia desde 2004, estado onde construiu parte significativa de sua trajetória profissional, acadêmica e de militância.

Victória foi reconhecida como a primeira professora trans da rede pública de Rondônia, a primeira servidora trans da Universidade Federal de Rondônia (Unir) e a primeira sindicalista trans do estado. Em cada uma dessas posições, sua presença representou também a conquista de espaços historicamente pouco acessíveis à população trans.

Sua história começou muito antes dos títulos e das funções que ocuparia na vida adulta. Nascida em uma família de origem italiana e tradicionalmente católica, que viveu no norte do Paraná, Victória recebeu o nome de Victor ao nascer. Ainda criança, porém, já percebia em si uma identificação com o universo feminino.

Enquanto se esperava que um menino demonstrasse interesse pelo futebol, pelas brincadeiras com outros garotos e por comportamentos considerados masculinos, sua atenção se voltava para as bonecas. Por volta dos 15 anos, decidiu assumir de maneira mais evidente a feminilidade que já fazia parte de sua trajetória.

A escolha de viver de acordo com a própria identidade aconteceu em uma época em que o preconceito contra pessoas trans era ainda mais evidente e os espaços de acolhimento e representação eram escassos. Em entrevista concedida a um site local, Victória relembrou as dificuldades enfrentadas quando decidiu assumir-se como mulher, ainda nos anos 1990.

Segundo ela, naquele período, assumir uma identidade trans significava enfrentar uma sociedade muito menos preparada para compreender e aceitar essa realidade. Victória relatou que se assumir naquela época era muito mais difícil e que o preconceito era “muito pior, muito maior”.

Por trás da mulher que conquistou espaços históricos, também existia o desejo por uma vida afetiva e familiar. Em meio às lutas e aos desafios que marcaram sua trajetória, Victória falava sobre a vontade de encontrar um grande amor, construir uma relação verdadeira e dedicar-se à família.

O desejo revelava uma dimensão menos conhecida de sua história. Para além da professora, jornalista, pesquisadora e ativista que enfrentou barreiras, havia uma mulher que também queria amar, ser amada e encontrar felicidade ao lado de quem escolhesse para dividir a vida.

Sua trajetória, entretanto, foi marcada pela necessidade de abrir caminhos. A sala de aula tornou-se um deles. Como professora trans, Victória passou a representar uma presença ainda pouco comum na educação pública. Na Unir, ao tornar-se a primeira servidora trans da instituição, sua trajetória passou a integrar também a história da universidade.

No movimento sindical, voltou a ocupar um lugar pioneiro ao tornar-se a primeira sindicalista trans de Rondônia. Em diferentes ambientes, sua presença não significava apenas uma conquista individual. Era também a demonstração de que pessoas trans poderiam estar na universidade, na escola, no serviço público, no sindicalismo, na pesquisa e em outros espaços da sociedade.

Ao longo dos 45 anos, Victória reuniu diferentes dimensões de uma mesma existência: professora, jornalista, secretária executiva, tradutora, pesquisadora, doutoranda, mulher e ativista. Cada uma delas ajudou a construir uma trajetória que não pode ser separada da luta pelo direito de existir, amar, trabalhar e ser reconhecida por aquilo que era.

Victória se despede deixando uma história marcada por desafios, mas também por conquistas. Sua caminhada abriu portas e ajudou a ampliar a presença de pessoas trans em espaços onde, durante muito tempo, elas foram invisibilizadas.

O velório em Porto Velho deverá reunir, amigos, estudantes, colegas de profissão, companheiros de militância e integrantes dos movimentos sociais para as últimas homenagens. Na quarta-feira, o corpo será encaminhado para Curitiba, onde ocorrerá o sepultamento.

A despedida encerra uma trajetória, mas não apaga o caminho percorrido. Victória Bacon deixa como legado a coragem de enfrentar barreiras, ocupar espaços e transformar a própria existência em uma história de luta, resistência e afirmação.

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