Cuidado e dependência econômica aumentam vulnerabilidade de mulheres à violência de gênero

Especialistas apontam que sobrecarga com o trabalho doméstico e falta de autonomia financeira dificultam rompimento de ciclos abusivos, em cenário que marca os 20 anos da Lei Maria da Penha.

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Cuidado e dependência econômica aumentam vulnerabilidade de mulheres à violência de gênero
© Tomaz Silva/Agência Brasil

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A responsabilidade excessiva pelo cuidado de filhos, familiares e do lar, que historicamente recai sobre as mulheres, figura como um dos principais fatores que intensificam a vulnerabilidade feminina à violência de gênero. A avaliação foi destacada por especialistas ouvidas pela Agência Brasil no contexto em que a Lei Maria da Penha completa 20 anos de vigência nesta sexta-feira (7).

A sobrecarga com a gestão do lar e o bem-estar familiar, associada às dependências de ordem financeira, psicológica e emocional, cria o ambiente propício para o surgimento e a manutenção de agressões. Professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e especialista em políticas de cuidado, Thamires da Silva Ribeiro aponta uma conexão direta entre a divisão desigual dessas tarefas e a dificuldade de escapar de relacionamentos abusivos.

Impacto social e dados sobre o cuidado

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, enquanto as mulheres dedicam uma média de 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e de cuidado, os homens despendem 11,7 horas com as mesmas atividades. Para Thamires Ribeiro, a aprovação da Política Nacional de Cuidados em dezembro de 2024 representa um avanço para promover a corresponsabilização social.

A situação é avaliada como ainda mais grave para mulheres negras. A professora destaca que, devido à formação sociohistórica do país, a mulher negra muitas vezes assume o papel central de suporte comunitário e familiar, tornando-se mais suscetível às desigualdades sociais. Christine Silveira Abdalla, fundadora da ONG Associação Cuidadosa, reforça que a própria sobrecarga com essas funções já configura uma forma de violência, uma vez que afasta as mulheres do mercado de trabalho, dos estudos e da vida social.

Estatísticas de violência e o peso do patriarcado

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que o Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, o que representa uma alta de 4% em relação ao ano anterior e uma média superior a 4 casos diários, sendo 8 em cada 10 cometidos por parceiros ou ex-parceiros. O levantamento também contabilizou 286,3 mil registros de agressão doméstica, 788,6 mil ameaças e 132 mil descumprimentos de medida protetiva de urgência.

Para a advogada e presidente da Comissão de Combate à Violência contra a Mulher da OAB-RJ, Marilha Boldt, a dependência financeira muitas vezes se manifesta como uma ilusão alimentada pelo controle exercido pelo agressor, somada a fortes traços de dependência emocional. No mesmo sentido, a superintendente de Enfrentamento à Violência contra a Mulher do Rio de Janeiro, Claudia Araujo, aponta que o sistema patriarcal perpetua a cobrança para que a mulher acumule tarefas domésticas e profissionais, gerando ainda preconceito social caso ela decida romper com essa estrutura.

Canais de denúncia e apoio

As autoridades reforçam a importância da denúncia e do uso de redes de apoio por meio de canais oficiais:

Ligue 180: Central de atendimento do Ministério das Mulheres, gratuita e disponível 24 horas por dia.

WhatsApp (61) 9610-0180: Atendimento por mensagem via chat.

Polícia Militar (190): Canal exclusivo para situações de emergência que exijam ação imediata.

Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher: O Conselho Nacional de Justiça disponibiliza diretórios de delegacias e defensorias públicas em todo o país.

Perguntas Frequentes

Qual é a relação entre o trabalho de cuidado e a violência contra a mulher?

Especialistas apontam que a sobrecarga com tarefas domésticas e familiares, somada à falta de autonomia financeira e emocional, isola a mulher e dificulta o rompimento de ciclos abusivos.

Quais foram os principais dados de violência registrados em 2025?

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou 1.571 vítimas de feminicídio, além de centenas de milhares de casos de agressão doméstica, ameaças e descumprimentos de medidas protetivas.

Quais canais estão disponíveis para denúncias de violência doméstica?

As vítimas e a sociedade podem acionar o Ligue 180, o canal de WhatsApp (61) 9610-0180 ou a Polícia Militar pelo telefone 190 em casos de urgência.

 

Com informações de Bruno de Freitas Moura – Repórter da Agência Brasil

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