Em Porto Velho, Hercílio Santana une viola caipira e rock no projeto Naviola

Músico, compositor e educador pernambucano radicado em Rondônia transformou influências do rock e da música brasileira em uma sonoridade própria com a viola caipira.

Fonte: Fabiano Coutinho

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Em Porto Velho, Hercílio Santana une viola caipira e rock no projeto Naviola

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A viola caipira, instrumento tradicionalmente associado à música de raiz brasileira, encontrou as distorções e a energia do rock na trajetória do músico Hercílio Santana. Pernambucano radicado há mais de 20 anos em Porto Velho, o instrumentista, compositor e educador musical construiu uma carreira marcada pela experimentação e pela busca de uma identidade própria.

Em entrevista ao programa Frequência Criativa, Hercílio relembrou o início da relação com a música, a mudança para Rondônia, a descoberta da viola caipira e a criação do projeto Naviola, banda que nasceu em 2017 com a proposta de aproximar universos musicais aparentemente distintos.

Licenciado em Música pela Universidade Federal de Rondônia (Unir), Hercílio também atua na educação musical e integra a Orquestra Villa-Lobos de Porto Velho como contrabaixista acústico.

Sua trajetória passa por diferentes instrumentos e linguagens. Antes de assumir a viola como elemento central de seu trabalho autoral, atuou como baixista, violonista e guitarrista, acumulando experiências que ajudaram a formar sua identidade artística.

Música começou ainda na adolescência

O interesse pela arte surgiu antes mesmo de Hercílio aprender a tocar um instrumento.

Na infância, ele gostava de desenhar e produzir histórias em quadrinhos. Na adolescência, o contato com o rock despertou outro interesse: escrever letras.

Foi nesse período que começou a transformar pensamentos e sentimentos em composições.

“Eu percebi que já estava cantarolando aquilo, já estava criando uma melodia. Eu precisava de um instrumento para acompanhar”, relembrou.

Por volta dos 14 ou 15 anos, ele e o irmão, André, ganharam um violão da mãe. O aprendizado começou de maneira informal, buscando ajuda de amigos que já sabiam tocar.

Mesmo conhecendo poucos acordes, os irmãos já tentavam transformar as letras que escreviam em músicas.

A ideia inicial, segundo Hercílio, não era necessariamente tornar-se instrumentista, mas ser compositor. A necessidade de executar as próprias criações acabou abrindo caminho para uma formação musical mais ampla.

Mudança para Porto Velho marcou formação musical

Hercílio nasceu em Pernambuco e viveu parte da juventude em Recife, onde acompanhou a efervescência cultural dos anos 1990 e a força do movimento manguebeat.

A experiência pernambucana influenciou sua percepção sobre identidade cultural.

Ao se mudar com a família para Porto Velho, encontrou uma realidade diferente: uma cidade formada por pessoas vindas de várias regiões do país e que, em sua percepção naquele período, ainda construía um sentimento mais amplo de pertencimento cultural.

Foi em Rondônia que a vontade de trabalhar profissionalmente com música ganhou novas possibilidades.

Com o incentivo do pai, Hercílio e o irmão buscaram formação em um centro municipal de artes. Ele relembrou, inclusive, uma época em que interessados precisavam enfrentar longas filas para conseguir uma vaga nos cursos.

A experiência contribuiu para consolidar sua formação como músico.

Ao longo dos anos, Hercílio acompanhou também mudanças na cena cultural de Porto Velho e afirma perceber hoje uma valorização maior da identidade e dos artistas locais.

Viola caipira entrou na carreira por acaso

Apesar de ter construído sua formação inicial principalmente sob influência do rock e da música popular brasileira, foi um encontro inesperado com a viola caipira que mudou os rumos de sua trajetória.

Hercílio contou que assistia a um programa de televisão quando viu uma apresentação conduzida pelo violeiro Roberto Corrêa.

A sonoridade chamou sua atenção porque fugia da imagem que ele associava até então à viola.

Em vez de ouvir apenas uma linguagem ligada à música sertaneja ou caipira tradicional, encontrou possibilidades que remetiam à música instrumental e erudita.

Foi quando surgiu uma pergunta que acabaria orientando parte importante de sua carreira:

“E se eu fizesse rock com viola?”

A ideia permaneceu.

Antes de simplesmente transportar o instrumento para o universo do rock, Hercílio decidiu estudar sua história, técnicas, afinações e diferentes tradições musicais.

Mergulhou nas referências da música de raiz das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste e também buscou conexões com manifestações nordestinas, como o repente.

Esse processo permitiu que desenvolvesse uma abordagem própria para o instrumento.

Rock e viola caipira se encontram

Durante as pesquisas, Hercílio percebeu que a aproximação entre viola e rock já possuía outros representantes.

Ele encontrou referências do instrumento em trabalhos de artistas e bandas do rock brasileiro e passou a conhecer projetos dedicados a explorar novas possibilidades para a viola.

Entre suas principais influências está o violeiro Ricardo Vignini, conhecido por trabalhos que aproximam a viola caipira de clássicos do rock.

A descoberta reforçou o caminho que Hercílio pretendia seguir.

O objetivo, porém, não era abandonar a tradição do instrumento.

A proposta passou a ser justamente criar um diálogo entre raízes brasileiras e elementos contemporâneos, utilizando distorções, efeitos e características normalmente associadas à guitarra elétrica.

Viola-guitarra amplia possibilidades sonoras

Essa experimentação levou Hercílio a utilizar um instrumento híbrido: uma viola com características estruturais da viola caipira, mas construída em formato semelhante ao de uma guitarra elétrica.

O instrumento mantém os cinco pares de cordas — dez cordas ao todo — e as medidas características da viola, mas permite explorar recursos típicos da guitarra.

Hercílio explicou que chegou à ideia sem saber que outros músicos já trabalhavam com instrumentos semelhantes.

Posteriormente, descobriu experiências anteriores e passou a aperfeiçoar sua própria configuração.

Um dos diferenciais está nos captadores desenvolvidos especificamente para o instrumento pelo músico e fabricante Samuel, da SL Custom Shop.

Segundo Hercílio, a adaptação buscou preservar melhor as características sonoras das dez cordas, permitindo ao mesmo tempo o uso de distorções e outros efeitos.

O resultado se tornou uma das marcas de sua produção musical.

Naviola nasceu em Porto Velho em 2017

A experimentação com a viola elétrica abriu caminho para a criação da banda Naviola.

O projeto surgiu oficialmente em 2017, quando Hercílio recebeu um convite para participar do evento Terça de Brasas, realizado durante o período carnavalesco com programação voltada ao rock.

Ele já vinha compondo e publicando materiais relacionados à nova proposta musical, mas ainda não havia estruturado uma banda.

Diante do convite, decidiu reunir músicos para levar o projeto ao palco.

O nome surgiu durante a preparação para a apresentação.

Depois de pesquisar diferentes possibilidades, Hercílio escolheu “Naviola”, inspirado em uma brincadeira entre as palavras “nave” e “viola” presente em uma composição de Ricardo Vignini.

A ideia também representava bem o conceito artístico: fazer a viola viajar por diferentes universos sonoros.

Banda mistura instrumentos acústicos e elétricos

A formação da Naviola passou por mudanças ao longo dos anos.

Na primeira fase, o projeto contou com músicos como Samy Oliveira na bateria e Fernando Avelino Johnson no baixo.

Posteriormente, novos integrantes passaram a compor a banda.

Na formação apresentada por Hercílio durante a entrevista, Lucas Mitoso assume a bateria, Gilberto Lobo toca baixo e Fernando Johnson utiliza a viola caipira acústica.

Hercílio fica responsável pela viola-guitarra e pelos vocais.

A combinação entre a viola acústica e a versão elétrica ajuda a construir a identidade híbrida do grupo.

Enquanto um instrumento preserva características mais tradicionais, o outro explora distorções e efeitos associados ao rock.

Embora inicialmente não pretendesse assumir os vocais, Hercílio acabou se tornando também intérprete das próprias composições.

Segundo ele, como as músicas eram autorais e o projeto tinha uma identidade muito particular, encontrar um vocalista que representasse exatamente a proposta não foi simples.

A solução foi estudar canto e assumir essa função.

Trabalho autoral ganhou singles, EP e documentário

A Naviola desenvolveu ao longo dos anos uma produção voltada principalmente para músicas autorais.

Entre os trabalhos mencionados por Hercílio estão singles, um EP e produções audiovisuais que apresentam a proposta artística da banda.

Uma das primeiras músicas lançadas foi “Sabe Que Não”, que também ganhou produção audiovisual.

Outro trabalho destacado é “Precursor”, composição que integra a trajetória autoral do projeto.

A banda também produziu um documentário sobre seu primeiro EP, mostrando parte do processo criativo e da construção musical do grupo.

Para Hercílio, lançar as próprias composições nas plataformas digitais tornou-se uma extensão natural do trabalho iniciado nos palcos.

Parcerias aproximaram Rondônia e Nordeste

A conexão de Hercílio com o Nordeste também permaneceu presente na trajetória da Naviola.

Segundo o músico, parte do apoio inicial ao projeto veio justamente de ouvintes e artistas nordestinos que conheceram o trabalho pelas redes sociais.

Essa aproximação resultou em parcerias musicais.

Uma delas ocorreu com a cantora baiana Euphrazia Neres, convidada para participar de um trabalho da banda. Posteriormente, Hercílio recebeu dela um convite para colaborar em uma releitura de “Festa”, composição de Gonzaguinha.

A produção ocorreu a distância, com gravações realizadas em estados diferentes.

Hercílio também participou de trabalho com a banda porto-velhense Prognose, ligada ao rock progressivo.

Durante a pandemia, músicos gravaram suas partes separadamente e utilizaram recursos digitais para reunir áudio e vídeo em uma única produção.

Orquestra Villa-Lobos abriu novo caminho

Outra experiência que ampliou a formação de Hercílio foi o ingresso na Orquestra Villa-Lobos de Porto Velho.

Até então, sua trajetória estava mais ligada à música popular e ao rock.

O convite surgiu quando a orquestra ainda estava em processo de formação.

Como Hercílio já tocava baixo elétrico, foi chamado para assumir o contrabaixo acústico, mesmo sem experiência anterior com o instrumento.

O desafio exigiu novos estudos.

Ele recebeu orientação específica e buscou aperfeiçoamento para adaptar a técnica ao universo orquestral.

A experiência acabou se tornando permanente.

Hercílio segue integrando a Orquestra Villa-Lobos e participa de concertos e atividades culturais desenvolvidas pelo grupo em Porto Velho.

Educação musical completa trajetória artística

Além dos palcos, estúdios e projetos autorais, Hercílio construiu parte importante da carreira dentro da educação.

Licenciado em Música pela Unir, atuou em instituições de ensino musical e atualmente trabalha como instrutor de arte no Centro Municipal de Arte e Cultura Francisco Lázaro dos Santos, conhecido como Laio, em Porto Velho.

A experiência pessoal de ter buscado formação musical ainda jovem influencia sua atuação como professor.

Sua trajetória reúne diferentes dimensões da profissão: compositor, instrumentista, integrante de orquestra, músico de banda e educador.

Mais de duas décadas depois de chegar a Rondônia, Hercílio vê Porto Velho não apenas como o lugar onde desenvolveu sua carreira, mas como parte da própria identidade artística.

A Naviola sintetiza esse percurso.

Ao colocar a viola caipira em diálogo com guitarras, distorções, rock e referências regionais brasileiras, o músico transforma um instrumento ligado a séculos de tradição em ponto de partida para novas experiências sonoras.

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