
Na Revista Piauí, por Marcos Nobre
O sistema político foi destroçado na eleição. A perda de parâmetros na política oficial tem produzido angústia e intranquilidade generalizadas na sociedade. Mas não se vê a mesma angústia e intranquilidade no sistema político.
Mesmo destroçado, o sistema saiu da eleição com algumas firmes convicções. A primeira delas é que o governo Bolsonaro será no mínimo muito precário e no máximo caótico. Apesar disso, mesmo que os discursos públicos sejam de preocupação, ninguém no sistema político de fato considera que a democracia esteja em risco. Daí que quase todas as forças políticas estejam se mexendo em função de cálculos eleitorais para 2020 e 2022, já se preparando para o naufrágio do próximo governo, quando quer que ele venha a ocorrer.

Acreditam que o primeiro rombo no casco do governo virá da precariedade de sua equipe de governo, que não está à altura da grave crise fiscal e do ambiente econômico internacional provavelmente hostil que encontrará. Essa deficiência se agrava ainda mais porque Bolsonaro venceu sem fazer nenhum pacto concreto com o eleitorado. Isso dá o direito a cada pessoa de sonhar com o que quiser, desde segurança na rua até um emprego decente, passando pela eliminação completa da corrupção. E torna impossível que o governo consiga corresponder às expectativas que criou.
Dentro da equipe de governo, haverá uma luta de morte entre pelo menos três vetores. E o desfecho é imprevisível, já que o presidente eleito não demonstrou até hoje qualquer capacidade ou habilidade para arbitrar conflitos. O vetor da relação com o Congresso é representado por Onyx Lorenzoni. É um deputado sem nenhuma capacidade demonstrada de liderança parlamentar e que já entrou em choque direto com a área econômica, representada pelo economista Paulo Guedes, que tem no vice-presidente eleito, general Hamilton Mourão, um aliado de peso.
Esses dois vetores, por sua vez, entrarão em choque com a equipe militar, a mais numerosa, organizada e preparada, e a única que dispõe de algo remotamente próximo de um plano de coordenação de governo. Pensando na hierarquia de patentes, vai querer necessariamente dirigir todo o governo. É uma equipe liderada pelo general Augusto Heleno, que deve ocupar o Ministério da Defesa porque lhe coube a tarefa adicional e decisiva de controlar a tropa.
A segunda fragilidade grave será a incapacidade de reorganizar o sistema político em torno do governo e de seu presidente. Não se trata de dizer que o governo Bolsonaro não terá maioria no Congresso. Trata-se apenas de lembrar que há uma diferença abissal entre ter maioria parlamentar e conseguir vertebrar o sistema político, como fizeram a seu tempo e à sua maneira PT e PSDB.
Para conseguir governar não basta conseguir os votos necessários para aprovar pautas e projetos. É preciso que as forças políticas se deixem também dirigir de alguma maneira e em algum grau pelos polos aglutinadores do governo, de um lado, e da oposição, de outro. O sistema está destroçado justamente porque não tem mais esses polos aglutinadores.
E, no entanto, Bolsonaro entende que essa é justamente a grande vantagem de seu governo. Foi eleito sem fazer concessões ou alianças de nenhum tipo e considera que não terá de se dobrar à lógica de megacoalizões de governo instalada depois do impeachment de Collor. Considera que não terá de ceder àquele pemedebismo a que se dobrou Lula depois do mensalão, em 2005. O mesmo pemedebismo que derrubou Dilma Rousseff e assumiu diretamente o poder na parlamentada de 2016.
De fato, o Centrão, a figura mais recente do pemedebismo, perdeu muito em força e em organização. Mas, mesmo que o pemedebismo não seja mais aquele, permanece a diferença crucial entre entregar votos e aceitar a liderança de quem recebe esses votos. As duas coisas estiveram juntas nos governos FHC e Lula e começaram a se separar já no primeiro governo de Dilma Rousseff.
É preciso ter claro e levar a sério que Bolsonaro se entende como o líder de uma revolução conservadora. Especialmente depois de ter sobrevivido ao atentado que sofreu. E essa será uma fonte de instabilidade e de tensão permanente.
No entanto, não existe nem existirá algo parecido com um “bolsonarismo”, essa não é uma opção para sair do impasse em que se encontra o futuro governo. Não foi um pretenso bolsonarismo que o levou ao poder, mas uma confluência de movimentos e grupos que encontraram nele um ponto focal, mas não um líder, muito menos um catalisador. Bolsonaro foi capaz de produzir muita mobilização, mas não foi capaz de produzir organização. Não se trata de um movimento, mas de vários. Movimentos diferentes, heterogêneos, incompatíveis entre si.
Toda a campanha eleitoral de Bolsonaro impede que ele se entregue ao Centrão. Ao mesmo tempo, o fato de não ter capacidade de dirigir o sistema político ou de criar algo como um bolsonarismo vai produzir um governo acuado. É a pior coisa que pode acontecer a um governo. Especialmente no caso de um governo liderado por um presidente que elogia ditaduras e um vice-presidente que acha natural invocar a hipótese de um autogolpe.
Esse é basicamente o quadro que o sistema político traçou do futuro do governo Bolsonaro. De um lado, o Centrão aguardará pacientemente a rendição do capitão-presidente. Dentro do mesmo campo, Luciano Huck já deu início a sua campanha presidencial. Vai tentar aglutinar a centro-direita longe do governo Bolsonaro, dando início a uma mobilização nas redes que tenha também contrapartida em figuras e forças do sistema político, mas sem se confundir com elas.
Do outro lado, a oposição já está em guerra aberta para recolher os destroços do naufrágio que considera certo. Ciro Gomes se convenceu de que é impossível qualquer composição com o PT. E está tentando convencer também outras forças (PSB, PCdoB, além de figuras do PSDB, da Rede e mesmo do MDB) a formar um polo capaz de competir abertamente com o PT pela liderança da centro-esquerda.

Se esses cálculos todos do sistema político estiverem certos, a sociedade vai ficar espremida entre um governo acuado, a caminho do naufrágio ou da saída autoritária, e uma oposição em guerra, cada grupo lutando para se estabelecer como os novos polos do sistema, à margem do governo. Uma vez mais, a sociedade fica refém dos cálculos eleitorais do sistema político. Acontece que, desta vez, os riscos são proibitivos e a instabilidade, permanente.
Dado seu alto grau de mobilização, é possível que a sociedade tenha força suficiente para resistir aos riscos e à instabilidade sozinha, mesmo sem poder contar com o apoio de um sistema político que continua pensando apenas em termos de cálculos eleitorais. Mas a miopia da política oficial para a urgente necessidade da criação formal de uma amplíssima frente de defesa da democracia pode custar muito caro. Bem mais caro do que o sistema político pode calcular.
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