O perdão de uma dívida bilionária da Energisa caiu como um presente de Natal fora de época para a concessionária de energia em Rondônia. Porém, para a população que paga seus talões em dia e sem nenhum perdão, o “milagre” que partiu de 23 deputados estaduais da Assembleia Legislativa de Rondônia caiu como um tapa na cara do consumidor.
A curtição com o dinheiro público por parte dos parlamentares da Assembleia Legislativa não passou despercebida e acabou virando alvo de sarcasmo nas redes sociais. O humorista local Rato Andrade, conhecido como Rato Jr., um dos nomes mais afiados do humor intelectual do estado, ao contrário dos deputados de Rondônia não perdoou. Em clara ironia ao gesto de “generosidade dos parlamentares” com a empresa Energisa, que não enfrenta a realidade das contas atrasadas nem o rigor do corte de energia imposto ao cidadão comum, o humorista foi direto ao ponto: “O ponto do nosso polititrato de hoje é sobre perdão. O que é o perdão pra você? Aliás, quanto custa o perdão pra você? Porque o perdão para os nossos deputados estaduais vale R$ 2 bilhões. Dois bilhões, gente.”
O riso, nesse caso, não é leve nem inocente. É denúncia. E, como toda boa sátira, escancara aquilo que os discursos oficiais tentam maquiar. Rato Jr. vai além ao traduzir o absurdo em linguagem popular, aproximando o “perdão bilionário” da realidade de quem nunca recebe complacência. “Eu não sei nem quanto dinheiro é isso, mas eles os deputados perdoaram a Energisa, que não perdoa um talão atrasado aqui em casa”.

Enquanto o cidadão comum precisa escolher entre pagar a conta de luz ou encher a geladeira, os parlamentares demonstraram rapidez e sensibilidade… para aliviar o caixa de uma gigante do setor elétrico. O vídeo humorístico, que viralizou nas redes sociais, escancarou o contraste entre a benevolência institucional reservada a grandes grupos econômicos e o rigor imposto à população, que segue pagando tarifas elevadas e convivendo com serviços frequentemente criticados. É nesse ponto que a sátira atinge o nervo exposto. “Como é que foi, gente?”, ironiza o humorista, ao encenar a naturalização do absurdo: “A Energisa chegou lá e falou: ‘pô, tô devendo dois bilhões. Será que tem como perdoar? Aí a gente zera isso aí, vamos começar do zero. Perdoa isso aí, meu filho, dois bilhões’.”
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O humor, nesse caso, não é gratuito: funciona como denúncia. A piada traduzida pelo humorista rondoniense em linguagem popular apenas verbaliza o que muitos rondonienses já sentem: “a sensação de que a maioria do Legislativo legisla para quem nunca fica no escuro”. Chamados de “bonzinhos”, os deputados acabaram expostos como protagonistas de uma política que “socializa” o sacrifício do povo e privatiza os benefícios.
Para quem ainda não dimensiona o que significam R$ 2 bilhões, é preciso lembrar o óbvio que o debate político insiste em esconder. Fizemos as contas. Esse valor, oriundo da dívida pública da antiga Centrais Elétricas de Rondônia (Ceron), hoje administrada pela Energisa, seria mais do que suficiente para construir e manter por anos o Hospital de Urgência e Emergência de Rondônia — projeto concebido ainda no primeiro mandato do ex-governador Confúcio Moura (MDB) e empurrado adiante, sem sair do papel, ao longo dos oito anos da atual gestão de Marcos Rocha (União Brasil), ex-filiado ao Partido Liberal (PL).

A população parece esquecer ou é levada a esquecer que depende de hospital público. O João Paulo II, há muito tempo declarado incapaz de comportar a demanda do estado, sobrevive à base de improvisos e maquiagens administrativas, variando conforme o governo de plantão. Em 2011, durante visita a Rondônia, o então ministro de Assuntos Estratégicos dos governos Lula e Dilma, Roberto Mangabeira Unger, foi direto ao ponto ao conhecer a unidade: “nem em ambientes de guerra existe um hospital nas condições do João Paulo II”.
A lembrança não é retórica. Serve para escancarar prioridades. Em Rondônia, quem deveria cuidar do povo prefere perdoar dívidas bilionárias e afagar o caixa de grandes empresas. Enquanto isso, a população segue à mercê de políticas fragmentadas, favores pontuais e promessas recicladas por parlamentares que, ao que tudo indica, não demonstram compromisso nem com a própria gestão — muito menos com quem paga a conta.
É dessa maneira, entre ironia e indignação, que o humorista encerra sua crítica: “Seria maravilhoso se a gente chegasse num lugar e o atendente perguntasse: é no crédito, no débito, no Pix ou no perdão?”
E arremata, escancarando o absurdo: “Eu já vi rondoniense perdoar chifre, agora dívida bilionária… essa é nova pra gente.”
O episódio escancara uma lógica política que se repete em Rondônia: rigor máximo para o cidadão comum e complacência para grandes grupos econômicos. Enquanto o contribuinte não recebe perdão, negociação ou segunda chance, uma dívida bilionária é simplesmente apagada por decisão política. O humor, ao transformar o absurdo em sátira, apenas revelou o que o discurso oficial tenta suavizar. No fim das contas, não se trata de piada, mas de prioridade. E, desta vez, a conta não fecha para quem paga impostos, depende de serviços públicos e segue esperando que o Legislativo represente o interesse coletivo e não o caixa de quem nunca fica no escuro.
O tema, inclusive, já havia sido abordado em reportagem do jornalista Emerson Barbosa, publicada pelo News Rondônia e disponível para consulta no site.
https://newsrondonia.com.br/noticias/2026/01/29/com-apenas-um-voto-contra-ale-ro-aprova-perdao-bilionario-a-energisa-e-decisao-gera-indignacao/






































