A hipocrisia das bets e dos “influencers”

Influenciadores que promoviam bets criticam decisão do governo em lives, enquanto o debate expõe os impactos das apostas na vida financeira dos brasileiros.

Publicado em

Atualizado em

A hipocrisia das bets e dos “influencers”
© Antônio Cruz -Agência Brasil

Compartilhe esta notícia:

Nos siga no Google News

São os chamados “influencers” que, de influência positiva, muitas vezes oferecem pouco. Em vez de orientar, informar ou contribuir para que seus seguidores tomem decisões conscientes, parte deles passou a estimular as apostas e a obter vantagens financeiras com essa divulgação.

Estamos diante de uma sociedade em que parece ter sido acionado o “botão do dane-se para a vida do próximo”. O que importa é o “eu”. Nesse mercado, influenciadores recebem pela publicidade e plataformas faturam com a atividade. Na outra ponta, há brasileiros que apostam, perdem dinheiro e acabam endividados.

E quando a dívida chega, a responsabilidade é frequentemente colocada apenas sobre o indivíduo: “não soube se controlar”. Mas onde estava o discurso sobre autocontrole quando essas mesmas pessoas eram constantemente estimuladas a apostar?

É justamente aí que aparece a contradição.

Quem utiliza a própria audiência para promover apostas também deveria assumir o compromisso de alertar sobre os riscos, divulgar caminhos de acolhimento e orientar seguidores a buscar ajuda quando o jogo compromete suas finanças e relações pessoais.

No fim, fica uma pergunta: influenciar é ajudar alguém a tomar uma decisão consciente ou ganhar dinheiro estimulando essa pessoa a correr riscos?

Os números ajudam a dimensionar esse debate. Segundo estimativa do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado, a saída líquida de recursos das famílias brasileiras atribuída às bets alcançou R$ 62,5 bilhões em 2025.

O mesmo estudo estimou em R$ 350,97 bilhões o volume adicional de transferências via Pix associado às plataformas naquele ano. Os cálculos utilizam dados do Banco Central e modelagem estatística. Portanto, são estimativas: o volume movimentado não equivale ao lucro das empresas nem ao prejuízo líquido dos apostadores.

O impacto também ultrapassa o orçamento doméstico. Estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), citado pelo Ministério da Saúde, estima em pelo menos R$ 38,8 bilhões anuais os custos sociais associados ao jogo problemático.

Desse montante, R$ 30,6 bilhões estão relacionados a danos à saúde, incluindo tratamentos e perdas de qualidade e duração de vida. São custos diretos e indiretos estimados, e não apenas despesas realizadas pelos serviços de saúde. O próprio instituto ressalta que associação não significa comprovação de que todos esses danos tenham sido causados diretamente pelo jogo.

A dimensão do problema aparece também no ambiente escolar. Pesquisa da Frente Parlamentar Mista da Educação, em parceria com o Equidade.info, ouviu 1.912 estudantes de 191 escolas brasileiras. Entre os entrevistados dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio, 20,4% disseram já ter feito apostas online.

Entre os meninos do 3º ano do ensino médio, o percentual chegou a 49,7%. A exposição ocorre cedo: 9,5% dos estudantes de 11 anos ouvidos no levantamento afirmaram já ter apostado.

O fenômeno também alcança as mulheres. Levantamento divulgado pela Agência Brasil aponta que 42% das mulheres pesquisadas apostam ou já apostaram em plataformas online. Considerando o conjunto das entrevistadas, 20% afirmaram apostar atualmente e 22% disseram ter apostado anteriormente, mas abandonado a prática.

Os relatos apresentados na pesquisa incluem conflitos familiares, perda de confiança, desgaste emocional e mudanças na qualidade de vida. Os efeitos das apostas podem alcançar tanto quem joga quanto as pessoas que convivem com o apostador.

Diante desse cenário, a discussão sobre as bets não pode ser reduzida ao dinheiro perdido em uma aposta. Os levantamentos abordam dimensões diferentes de um fenômeno que envolve orçamento familiar, saúde, relações pessoais e exposição de estudantes. Seus valores não devem ser somados como se representassem uma única conta.

Quando um mercado movimenta cifras dessa magnitude e está associado a consequências que chegam às famílias e às escolas, o debate passa a envolver a responsabilidade de quem opera, divulga e lucra com essa atividade.

A liberdade de escolha merece ser discutida junto com a qualidade da informação oferecida ao público. Quem anuncia ganhos e facilidades precisa dar a mesma visibilidade aos riscos de perda, ao endividamento e à possibilidade de desenvolver uma relação problemática com o jogo.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior contradição: quando o apostador perde, a responsabilidade é atribuída exclusivamente a ele. Mas qual responsabilidade cabe a quem recebeu para convencê-lo a apostar?

Artigo de opinião. Com informações da Agência Brasil, do Comsefaz/Cicef, do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, do Ministério da Saúde e da Frente Parlamentar Mista da Educação.

NEWS QUE VOCÊ VAI QUERER LER

DESTAQUE NEWS

EMPREGOS E CONCURSOS

POLÍTICA

POLÍCIA

ÚLTIMAS NOTÍCIAS