Afya Summit 2026: a IA pode substituir o olhar médico?

Evento reuniu mais de 700 participantes no Axia Ibirapuera, em São Paulo, e colocou inteligência artificial, ética e humanização no centro do futuro da medicina

Publicado em

Atualizado em

Afya Summit 2026: a IA pode substituir o olhar médico?

Compartilhe esta notícia:

Nos siga no Google News

A inteligência artificial já interpreta exames, organiza informações clínicas, auxilia diagnósticos e amplia a capacidade de atendimento. Mas até onde essa tecnologia pode avançar sem comprometer o vínculo entre médico e paciente? Essa foi uma das principais reflexões levantadas durante a segunda edição do Afya Summit 2026, realizada no sábado (29), em São Paulo.

Com o lema “Viva agora a medicina do amanhã”, o encontro reuniu mais de 700 pessoas, entre estudantes, professores, jornalistas, médicos e profissionais da saúde. O auditório do Axia Ibirapuera ficou lotado durante uma programação dedicada às tecnologias exponenciais, ao uso de dados, à liderança médica, à comunicação digital, à ética e à humanização.

A equipe do News Rondônia viajou de Porto Velho para acompanhar o evento e conhecer de perto as soluções que prometem transformar a medicina nos próximos anos — algumas delas, inclusive, já presentes na rotina de profissionais e pacientes.

Inteligência artificial sem substituir o médico

Um dos momentos de maior destaque foi a palestra de Daniel Kraft, da NextMed Health/Stanford. O especialista mostrou como a inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a integrar diferentes áreas da medicina.

Entre as ferramentas apresentadas esteve o Health GPT, assistente voltado a dúvidas relacionadas à saúde. A tecnologia permite que o usuário envie perguntas, descreva sintomas ou apresente resultados de exames para receber explicações iniciais.

Apesar das possibilidades, a programação reforçou que essas ferramentas não devem ser utilizadas como substitutas da avaliação médica.

Dr. Guilherme Rodrigues – coordenador médico do Afya News

O médico oftalmologista Guilherme Rodrigues, coordenador médico do Afya News, foi direto ao abordar os limites éticos da inteligência artificial.

“A IA nunca pode ser um substituto do raciocínio clínico e do cuidado humano. A decisão clínica, o julgamento e o olho no olho serão sempre médicos.”

Segundo Rodrigues, a principal contribuição da tecnologia no consultório deve ser a ampliação da capacidade de cuidado, permitindo que o profissional dedique mais tempo ao paciente.

“O grande papel da IA na medicina é devolver tempo para o médico voltar o olhar ao cuidado do paciente. Quando falamos sobre ética médica, ela nunca deverá substituir o julgamento clínico e o acolhimento.”

O especialista também citou aplicações mais avançadas, como medicina multimodal, gêmeos digitais e diagnósticos preditivos. Para ele, o desenvolvimento dessas soluções deve caminhar ao lado da responsabilidade profissional.

Conteúdo rápido, mas com curadoria médica

Na sexta-feira (28), um dia antes do Summit, jornalistas de diferentes regiões do Brasil participaram de um workshop sobre produção de conteúdo com inteligência artificial, conduzido por Cyro Moraes e sua equipe.

Durante a atividade, os participantes acompanharam o passo a passo da aplicação de ferramentas de IA na produção jornalística e conheceram o Afya News, projeto que disponibiliza conteúdos curtos de atualização médica.

Cyro Moraes – Gerente de Conteúdo

Gerente de Conteúdo de Newsroom e Comunidades da Afya, Cyro explicou que a proposta é oferecer informações relevantes para médicos que enfrentam uma rotina marcada pela falta de tempo.

“O Afya News resolve um problema muito importante: o tempo do médico é escasso. Por isso, entrega pílulas de conteúdo de três minutos, permitindo uma atualização rápida no começo do dia.”

Guilherme Rodrigues acrescentou que os conteúdos são produzidos a partir de estudos publicados por fontes reconhecidas, como Nature e JAMA Network, sempre com avaliação profissional.

“Todos os estudos que publicamos são de fontes confiáveis e passam por curadoria e validação médica. O profissional consome o resumo rapidamente e também tem acesso ao conteúdo completo ao final do episódio.”

O workshop também possibilitou que jornalistas conhecessem novas ferramentas capazes de apoiar as rotinas das redações, desde a apuração e a organização das informações até a produção e a distribuição de conteúdos.

Dados transformam decisões clínicas

Outro eixo importante da programação foi o uso estratégico das informações de saúde. Jacson Barros, da Amazon Web Services, explicou como a interoperabilidade, a inteligência analítica e a saúde digital podem melhorar decisões clínicas e integrar diferentes sistemas.

Mateus Magon – MS

Representando o Ministério da Saúde entre os expositores, Mateus Magon destacou a importância da aproximação com médicos e estudantes e apresentou iniciativas relacionadas à transformação digital do Sistema Único de Saúde.

“A presença do Ministério é importante para mostrar o que está sendo produzido nas áreas de saúde digital, interoperabilidade, inteligência e informação.”

Ele citou plataformas como o SUS Digital e o SUS Digital Profissional, desenvolvidas para apoiar o atendimento, melhorar a tomada de decisões e garantir maior continuidade ao cuidado dos pacientes.

“Queremos proporcionar mais acesso ao atendimento e aos especialistas, além de fazer com que essas soluções sejam incorporadas ao cotidiano da população.”

Tecnologia já começa a chegar ao paciente

Embaixador do Afya Summit, o nutricionista Daniel Cady afirmou que o evento apresentou tendências que ainda são pouco conhecidas até mesmo por profissionais da saúde.

“A palestra de Daniel Kraft me impactou muito, porque percebi que aquilo que eu conhecia representava talvez 20% do que realmente está acontecendo.”

Para ele, a tecnologia pode aumentar a precisão dos diagnósticos, reduzir custos e permitir tratamentos mais personalizados.

“É impressionante como a tecnologia está ajudando os profissionais a personalizar melhor o tratamento e a fazer prescrições mais assertivas e individualizadas.”

Cady também relatou uma experiência familiar com o uso de óculos de realidade virtual no tratamento de estrabismo da filha. O exemplo mostrou que algumas das inovações debatidas no palco já começam a alcançar o consumidor final.

“Não acredito que essas tecnologias demorarão para chegar. Já conseguimos ver resultados impressionantes, mas esse avanço precisa estar sempre ligado à humanização.”

Novas lideranças para uma nova medicina

A formação dos profissionais que conduzirão a medicina do futuro também ganhou espaço durante o encontro.

Gustavo Meirelles, vice-presidente médico e de Relações Institucionais da Afya e presidente do Instituto Afya; Sergio Ricardo Santos, da Valor e Saúde/Galileu; Giovanni Guido Cerri, do INRAD/InovaHC; e Linamara Battistella, da FMUSP, debateram as competências, a mentalidade e as responsabilidades exigidas das novas lideranças médicas.

A discussão mostrou que o domínio técnico, embora indispensável, já não é suficiente. Os profissionais também precisam compreender dados, acompanhar o desenvolvimento tecnológico, comunicar-se com clareza e tomar decisões que preservem a segurança e a dignidade dos pacientes.

Em outra palestra, Guilherme Rodrigues, Dayanna Quintanilha e Eduardo Lapa, da Afya, apresentaram aplicações reais da inteligência artificial na saúde, destacando benefícios, riscos, limites e a necessidade de uso responsável.

Comunicação médica exige responsabilidade

A presença dos profissionais da saúde no ambiente digital foi abordada por Rafael Kiso, da mLabs, e Isabela Dupin, da Afya.

Os palestrantes discutiram estratégias para construir presença, autoridade e reputação na internet. Também ressaltaram que a comunicação médica precisa preservar a ética, a clareza e a responsabilidade, especialmente em um ambiente marcado pela rápida circulação de conteúdos e pela desinformação.

Rafael Kiso, da mLabs, e Isabela Dupin, da Afya

O debate reforçou que as redes sociais podem aproximar médicos e pacientes, democratizar informações e promover educação em saúde. Entretanto, seu uso exige cuidado para evitar promessas, informações sem comprovação e conteúdos capazes de induzir o público ao erro.

O futuro da medicina também será humano

Ao longo do dia, diferentes especialistas alertaram que inovação não significa apenas máquinas, algoritmos e automação.

Brian Solis, da ServiceNow, defendeu que a próxima grande revolução da medicina será humana, marcada pela empatia, pelas relações e pela capacidade de compreender as necessidades do paciente.

Brian Solis, da ServiceNow

A mesma preocupação apareceu na palestra do médico e escritor Drauzio Varella, que analisou os efeitos da aceleração tecnológica e chamou a atenção para a necessidade de uma reflexão ética sobre limites, responsabilidades e consequências.

Dr. Drauzio Varella e Dra. Ana Claudia Quintana Arantes

Encerrando a programação, a médica e escritora Ana Claudia Quintana Arantes apresentou uma provocação: existe medicina sem humanização? Em sua abordagem, ela destacou que o cuidado humano é uma das tecnologias clínicas mais antigas e essenciais, mas também uma das mais negligenciadas.

O Afya Summit terminou deixando uma certeza e várias perguntas. A inteligência artificial já faz parte da medicina e deverá ocupar um espaço cada vez maior no diagnóstico, na prevenção e no acompanhamento dos pacientes. O desafio será garantir que esse avanço seja acessível, confiável e eticamente responsável.

A tecnologia pode processar dados, identificar padrões e sugerir caminhos. Entretanto, como reforçaram os especialistas durante o evento, ainda caberá ao médico uma tarefa que nenhum algoritmo deve assumir sozinho: olhar para o paciente como ser humano.

NEWS QUE VOCÊ VAI QUERER LER

DESTAQUE NEWS

EMPREGOS E CONCURSOS

POLÍTICA

POLÍCIA

ÚLTIMAS NOTÍCIAS