Professor Eliel de Oliveira explica por que espanhol exige mais do que adaptar o português

Pesquisador e professor de idiomas destaca influência da língua portuguesa na pronúncia, importância da escuta e cuidados com os chamados falsos cognatos durante entrevista ao Prosa & Pesquisa.

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Professor Eliel de Oliveira explica por que espanhol exige mais do que adaptar o português

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Para brasileiros, algumas palavras em espanhol parecem imediatamente familiares. A semelhança, porém, pode levar à falsa impressão de que basta adaptar a pronúncia do português para dominar o idioma. Para o professor e pesquisador Eliel de Oliveira, esse é justamente um dos principais obstáculos enfrentados por quem começa a estudar a língua.

“O espanhol não é o português com sotaque”, afirmou durante participação no programa Prosa & Pesquisa, ao discutir os desafios de aprender uma segunda língua.

Professor de espanhol e inglês e pesquisador da área de Letras, Eliel desenvolve pesquisa de mestrado relacionada à maneira como falantes brasileiros produzem sons vocálicos do espanhol. Durante a entrevista, ele explicou que a língua materna influencia naturalmente a pronúncia de um segundo idioma e defendeu que a escuta seja tratada como parte fundamental do aprendizado.

Semelhança entre português e espanhol pode enganar

Português e espanhol possuem proximidade histórica e linguística, o que permite encontrar inúmeras palavras semelhantes.

Para Eliel, entretanto, essa característica exige atenção.

O professor compara os dois idiomas a “gêmeos bivitelinos”: possuem origem próxima e diversas características em comum, mas desenvolveram estruturas próprias.

Algumas palavras apresentam escrita e significado semelhantes nos dois idiomas. Outras, apesar da aparência familiar, significam coisas completamente diferentes.

É justamente nesse segundo grupo que aparecem os chamados heterossemânticos, também conhecidos como falsos cognatos ou falsos amigos.

Falsos cognatos estão entre as armadilhas

Um dos exemplos utilizados durante a entrevista foi a palavra espanhola “apellido”.

Um brasileiro que esteja iniciando os estudos pode relacioná-la imediatamente a “apelido”. Em espanhol, entretanto, a palavra corresponde a sobrenome.

Essas semelhanças podem gerar situações de confusão em uma conversa cotidiana.

Para Eliel, conhecer esse tipo de diferença é importante justamente porque a proximidade entre as línguas leva o estudante a confiar excessivamente na intuição construída a partir do português.

O mesmo problema pode ocorrer na pronúncia.

Pronúncia é um dos desafios para brasileiros

A forma como brasileiros pronunciam as vogais espanholas é o centro da pesquisa acadêmica desenvolvida pelo professor.

Segundo Eliel, padrões já consolidados na língua portuguesa tendem a aparecer quando o estudante começa a falar espanhol.

O processo ocorre porque o português funciona como língua materna e, portanto, como estrutura linguística já internalizada pelo falante.

“Como o espanhol não é o português com sotaque, eu vou ver isso na prática”, explicou.

O estudante precisa, portanto, perceber as características próprias dos sons do novo idioma em vez de simplesmente transferir para o espanhol as regras de pronúncia que utiliza em português.

Escutar é uma das principais ferramentas para aprender espanhol

Entre as orientações apresentadas pelo professor, uma delas apareceu repetidamente durante a entrevista: ouvir antes de tentar reproduzir os sons.

Eliel argumenta que o próprio desenvolvimento da linguagem humana começa pela escuta.

Por isso, recomenda que estudantes tenham contato frequente com a pronúncia correta.

Músicas, podcasts, séries, diálogos e outros conteúdos em espanhol podem fazer parte dessa rotina.

Para aumentar a concentração, o professor sugere inclusive momentos em que o estudante feche os olhos e concentre a atenção exclusivamente no áudio.

“Eu só vou conseguir falar bem se eu ouço bem”, resumiu.

Por que ler espanhol parece mais fácil do que falar?

A semelhança gráfica entre português e espanhol permite que muitos brasileiros compreendam textos antes de desenvolver segurança para conversar.

O problema surge quando é necessário transformar aquela palavra reconhecida visualmente em som.

Nesse momento, os hábitos fonéticos do português podem interferir.

Eliel explicou que determinadas vogais do espanhol apresentam comportamento diferente daquele encontrado no português brasileiro. Se o aluno não perceber essas características, tende a reproduzir automaticamente os padrões de sua língua materna.

Por isso, a leitura, embora importante, não substitui o contato constante com a língua falada.

Ter sotaque não significa necessariamente falar errado

Outro ponto discutido foi a presença do sotaque no aprendizado de uma segunda língua.

Para Eliel, todo idioma possui uma espécie de musicalidade, e essas características podem variar inclusive entre países que falam a mesma língua.

O sotaque faz parte desse processo.

O objetivo do estudo da pronúncia não precisa ser simplesmente apagar toda marca da origem do falante. O aspecto central é compreender como os sons do idioma são produzidos para evitar que a influência da língua materna prejudique a comunicação ou modifique indevidamente as palavras.

Pesquisa analisa influência do português

No mestrado em Letras pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Eliel estuda justamente a produção de vogais espanholas por falantes brasileiros.

Entre os fenômenos observados estão alterações relacionadas à nasalização e à redução vocálica.

A intenção é compreender como características naturais do português brasileiro aparecem na fala de quem está aprendendo espanhol.

Segundo o pesquisador, identificar esses padrões pode ajudar a entender dificuldades recorrentes e contribuir para estratégias de ensino voltadas à pronúncia.

Eliel também defendeu maior presença de conhecimentos de fonética e fonologia na formação escolar.

Fonética e fonologia ajudam a entender os sons

Durante a entrevista, o professor explicou de maneira simplificada a diferença entre essas duas áreas.

A fonética observa, entre outros aspectos, como os sons efetivamente são produzidos pelo aparelho fonador.

Já a fonologia analisa como esses sons se organizam e funcionam dentro de determinado sistema linguístico.

Para quem aprende uma segunda língua, compreender essas diferenças pode ajudar a perceber por que um som aparentemente simples exige movimentos e padrões diferentes daqueles utilizados no português.

Quem estuda sozinho também pode avançar

Para pessoas que não conseguem frequentar aulas presenciais, Eliel considera possível iniciar uma trajetória autodidata.

A recomendação novamente começa pela escuta.

O estudante pode estabelecer contato regular com músicas, séries, podcasts e conversas em espanhol e, paralelamente, utilizar livros e aulas disponíveis em meios digitais.

Depois de ouvir, deve tentar reproduzir palavras e estruturas.

O professor também recomenda começar pelo básico e avançar progressivamente, evitando a ideia de que a semelhança com o português permite pular etapas.

Quanto tempo leva para aprender espanhol?

Não existe um prazo único, segundo o professor.

O resultado depende da dedicação, da frequência de contato com o idioma e do nível que o estudante pretende alcançar.

Como referência, Eliel afirmou que uma pessoa começando do zero e estudando cerca de uma hora, três vezes por semana, pode perceber avanços importantes em aproximadamente seis meses.

Nesse período, segundo sua avaliação, já seria possível desenvolver leitura e uma pronúncia razoável.

O prazo apresentado pelo professor é uma estimativa e pode variar conforme as características, método e dedicação de cada estudante.

Interesse do aluno também desafia professores

A conversa avançou ainda para os desafios encontrados dentro das escolas.

Com experiência tanto no ensino superior quanto na educação básica, Eliel apontou o desinteresse de parte dos estudantes como uma das dificuldades enfrentadas pelos professores.

Para ele, preparar uma aula, pesquisar e buscar novas formas de ensinar exige envolvimento do docente, mas o resultado também depende da participação do aluno.

A experiência em sala de aula começou cedo. Eliel contou que começou a ensinar espanhol por volta dos 19 anos, em aulas gratuitas.

Antes disso, aos 15, havia iniciado seus próprios estudos do idioma com a intenção inicial de cursar Medicina na Bolívia.

O projeto de estudar Medicina não avançou, mas o espanhol permaneceu.

Professores influenciaram escolha profissional

Eliel atribui parte de sua paixão pelo idioma a professores que fizeram parte de sua formação.

Um deles, colombiano, utilizava poemas como instrumento de aprendizagem. Os estudantes precisavam memorizar os textos, ampliando vocabulário e exercitando a pronúncia.

A experiência marcou tanto o aluno que posteriormente se tornou professor.

Décadas depois, Eliel afirmou que ainda utiliza estratégias semelhantes em suas próprias aulas.

A trajetória também passou pela Universidade Federal de Rondônia, onde atuou como professor e enfrentou o desafio de ministrar disciplinas que exigiram novos períodos de estudo e preparação.

Aprender uma língua exige atenção e constância

Ao longo da entrevista, Eliel desconstruiu uma das ideias mais comuns sobre o espanhol: a de que o idioma seria automaticamente fácil para brasileiros.

A proximidade com o português pode representar vantagem na compreensão inicial, mas também pode favorecer pronúncias inadequadas, interpretações equivocadas e excesso de confiança.

Para reduzir essas interferências, o professor recomenda três atitudes centrais: atenção às diferenças entre os idiomas, contato frequente com a língua falada e disposição para estudar de forma contínua.

A orientação vale tanto para quem frequenta aulas quanto para quem pretende aprender sozinho.

No caso do espanhol, a principal mudança talvez seja justamente abandonar a ideia de que já se conhece o idioma apenas porque muitas palavras parecem familiares.

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