Hamilton Teixeira relembra trajetória na medicina e defende atendimento mais humanizado

Médico formado em 1975 e um dos profissionais ligados à consolidação da Medicina do Trabalho em Rondônia, Hamilton Ferreira Teixeira também falou sobre literatura, evolução tecnológica e os desafios da saúde durante entrevista ao Conexão RH.

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Hamilton Teixeira relembra trajetória na medicina e defende atendimento mais humanizado

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Uma trajetória profissional iniciada na medicina há mais de 50 anos e construída entre consultórios, hospitais, empresas, salas de aula e diferentes regiões do Brasil tornou-se também matéria-prima para a literatura. O médico e escritor Hamilton Ferreira Teixeira reuniu parte dessas experiências no livro Medicina Diálogos — O Lado Não Contado, obra em que apresenta situações e reflexões que, segundo ele, normalmente ficam fora dos livros técnicos.

Durante participação no programa Conexão RH, Hamilton falou sobre sua formação, a chegada a Rondônia, a atuação pioneira na Medicina do Trabalho no estado e as transformações observadas na assistência médica ao longo das últimas décadas.

Formado em Medicina em 1975, ele também é bacharel em Direito e autor de três livros. Para Hamilton, apesar dos avanços tecnológicos que transformaram diagnósticos e tratamentos, um princípio continua indispensável: a capacidade de enxergar a pessoa que está por trás do paciente.

Medicina do Trabalho ganhou espaço em Rondônia a partir dos anos 1980

Hamilton relatou que fez formação em Medicina do Trabalho na década de 1970 e chegou a Rondônia em 1986.

Inicialmente, atuou no interior do estado, incluindo Jaru. Segundo o médico, naquele período as práticas relacionadas à saúde ocupacional ainda eram pouco estruturadas nas empresas rondonienses.

A mudança começou a ganhar força com a aplicação mais rigorosa das normas relacionadas à saúde e segurança dos trabalhadores.

Hamilton contou que foi incentivado por um auditor fiscal a começar a desenvolver programas específicos de Medicina do Trabalho. A partir daí, montou um consultório e posteriormente uma clínica dedicada ao segmento.

Segundo seu relato, também esteve entre os primeiros profissionais no estado a buscar formalmente o título de especialista na área.

Questionado se seria possível considerar Jaru um dos locais de origem desse movimento em Rondônia, Hamilton ponderou que outros profissionais também atuaram no período, mas reconheceu sua participação nesse processo.

Prevenção não deve ser vista apenas como custo pelas empresas

Décadas depois, Hamilton considera que ainda existe espaço para ampliar a compreensão sobre a importância da Medicina do Trabalho.

Para ele, algumas empresas continuam tratando as obrigações de saúde ocupacional principalmente como despesas.

O médico argumenta, porém, que a prevenção pode reduzir acidentes, doenças relacionadas ao trabalho e problemas jurídicos, além de contribuir para ambientes profissionais mais seguros.

“Ela previne realmente acidentes, doenças, pendengas jurídicas e uma série de coisas, bem aplicada”, afirmou.

Na avaliação de Hamilton, a evolução depende também da conscientização dos dois lados da relação profissional.

“Precisamos de uma maior conscientização de empregados e dos empregadores”, disse.

Tecnologia transformou a medicina em cinco décadas

Comparar a medicina praticada na década de 1970 com a atual significa observar duas realidades bastante diferentes.

Hamilton recordou uma formação realizada em uma época na qual recursos hoje considerados básicos ainda estavam em estágio inicial de desenvolvimento ou não eram amplamente disponíveis.

O ultrassom foi um dos exemplos utilizados pelo médico para demonstrar essa transformação.

Sem a disponibilidade atual de exames de imagem e equipamentos de monitoramento, o diagnóstico dependia ainda mais da anamnese, do exame físico e da experiência acumulada pelo profissional.

Segundo Hamilton, médicos precisavam desenvolver grande capacidade de observação e sensibilidade durante os exames.

Hoje, reconhece, a tecnologia ampliou significativamente as possibilidades de diagnóstico, acompanhamento e tratamento.

Avanço tecnológico não substitui humanização

A evolução dos equipamentos, entretanto, não resolve sozinha todos os desafios da assistência médica.

Para Hamilton, a humanização precisa permanecer no centro da relação entre profissionais de saúde e pacientes.

“É preciso humanizar a equipe. Porque nada é mais importante do que a humanização profissional”, afirmou.

O médico destacou que uma pessoa normalmente chega a um hospital ou consultório já fragilizada por uma doença, pela incerteza sobre um diagnóstico ou pelo sofrimento de alguém da família.

Por isso, considera que médicos e demais profissionais precisam desenvolver capacidade de ouvir, explicar e lidar com situações emocionalmente difíceis.

Hamilton também ressaltou que essa responsabilidade não pode ser analisada sem considerar as condições de trabalho das equipes.

Sobrecarga dos profissionais interfere na qualidade do atendimento

Durante a entrevista, Hamilton chamou atenção para a pressão exercida sobre trabalhadores da saúde.

Na avaliação dele, aumentar continuamente a quantidade de atendimentos sem ampliar proporcionalmente as equipes reduz o tempo disponível para cada paciente.

O problema, segundo o médico, não se limita a uma categoria profissional.

Hamilton mencionou médicos e outros trabalhadores da saúde e defendeu melhores condições de trabalho, ampliação das equipes e aumento da capacidade de atendimento.

Ele também demonstrou ressalvas à ideia de que a terceirização, isoladamente, possa resolver as dificuldades enfrentadas pelo sistema.

Para o médico, uma política de saúde eficiente precisa cuidar de quem recebe o atendimento e também de quem presta o serviço.

“Para beneficiar a população, tem que beneficiar o pessoal que trabalha”, afirmou.

Hospital de Amor é citado como referência de acolhimento

Ao tratar de humanização, Hamilton citou o atendimento prestado pelo Hospital de Amor como exemplo positivo.

Segundo ele, pacientes e familiares relatam uma experiência de acolhimento que envolve diferentes etapas, desde a recepção até os procedimentos médicos.

Hamilton ressaltou que pacientes oncológicos frequentemente enfrentam momentos de grande fragilidade física e emocional, o que torna o cuidado na comunicação ainda mais importante.

“Quando o paciente procura o hospital, ele já está fragilizado. Então, não adianta você atendê-lo mal”, afirmou.

Para o médico, acolhimento e habilidade para lidar com pacientes e familiares precisam fazer parte da preparação de toda a equipe de saúde.

Experiências da medicina viraram livro

Parte das situações vividas ao longo da carreira está presente em Medicina Diálogos — O Lado Não Contado.

Segundo Hamilton, a obra percorre diferentes momentos da profissão, desde a vocação e a graduação até internato, residência médica e trabalho em consultórios e hospitais.

A intenção é abordar aspectos da formação e da rotina profissional que nem sempre aparecem nos conteúdos acadêmicos tradicionais.

“É uma história que todo médico passa. Mas poucos médicos contam”, resumiu.

Entre os assuntos abordados está justamente a humanização da medicina, tema que ocupa o capítulo final e que o autor considera um dos pontos mais importantes da obra.

Escrita começou antes da carreira médica

Embora tenha construído sua vida profissional principalmente na saúde, Hamilton contou que sua relação com a escrita é ainda mais antiga.

Desde criança, mantinha o hábito de ler, escrever e registrar assuntos que despertavam sua atenção.

Ao longo dos anos, essas anotações foram sendo guardadas. Depois da aposentadoria, o médico reuniu o material e começou a transformá-lo em livros.

“Eu sempre digo que nós não escolhemos o que escrever. O assunto é que nos atrai”, afirmou.

Hamilton considera que sua formação literária também contribuiu para sua própria atuação profissional, especialmente pela possibilidade de observar histórias, comportamentos e experiências humanas.

Autor já publicou três obras

O primeiro livro apresentado pelo escritor foi Apenas Tudo Isto, construído a partir de histórias que percorrem diferentes fases da vida.

A obra reúne referências à infância, juventude, formação profissional, relações pessoais e às diferentes regiões pelas quais Hamilton passou.

Depois veio Lágrimas do Cárcere, inspirado na história de uma mulher que teve envolvimento com drogas e passou pelo sistema prisional.

Segundo Hamilton, o livro acompanha acontecimentos anteriores, durante e posteriores ao período de prisão e também apresenta explicações relacionadas ao Direito em linguagem acessível.

A terceira obra é Medicina Diálogos — O Lado Não Contado, centrada nas experiências e reflexões relacionadas à profissão médica.

Poesias devem originar próximo livro

A produção literária de Hamilton não deve parar nas três obras já apresentadas.

Durante o programa, ele revelou possuir um conjunto de poesias pronto para publicação.

Segundo o escritor, os textos foram produzidos em diferentes momentos da vida e abordam temas variados. A intenção agora é selecionar e encaminhar o material para diagramação.

Hamilton relacionou parte dessa influência literária às suas raízes maranhenses e à tradição da poesia popular nordestina.

O projeto deverá se tornar seu próximo livro.

“Dedique-se à vida”

Ao final da entrevista, Hamilton foi convidado a resumir em uma mensagem o aprendizado acumulado durante décadas como médico, professor e escritor.

A resposta voltou ao elemento humano que atravessou grande parte da conversa.

“Nunca desista de viver, primeiramente”, afirmou.

Para Hamilton, objetivos profissionais e conquistas pessoais devem estar associados à possibilidade de viver em paz e cultivar relações com familiares e amigos.

“Dedique-se à vida. É isso. A vida é curta e passa logo”, concluiu.

A trajetória apresentada no Conexão RH mostra como medicina e literatura se encontraram na experiência de Hamilton Ferreira Teixeira: uma dedicada ao cuidado das pessoas e a outra ao registro das histórias acumuladas durante esse caminho.

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