Estudo revela por que maioria das gestantes não consegue ter parto normal

Pesquisa do Unicef mostra que medo, violência obstétrica, falta de informação e fatores estruturais influenciam a alta taxa de cesarianas no país, muito acima do recomendado pela OMS.

Fonte: Francisco Rodrigo

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Estudo revela por que maioria das gestantes não consegue ter parto normal
© Agencia Brasil/Tânia Rêgo

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A pesquisa “Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes”, realizada pelo Unicef, buscou entender por que muitas mulheres que desejam inicialmente o parto normal acabam passando por uma cesariana.

O levantamento entrevistou 94 gestantes e puérperas, além de 37 profissionais de saúde, em São Paulo e Belém, contemplando tanto o Sistema Único de Saúde (SUS) quanto a rede privada.

Segundo o estudo, a decisão pelo tipo de parto é influenciada por uma combinação de fatores emocionais, culturais, econômicos e pela própria organização dos serviços de saúde.

Brasil está entre os países com maior número de cesarianas

A Organização Mundial da Saúde recomenda que apenas até 15% dos nascimentos ocorram por cesariana, procedimento indicado principalmente em situações de risco para mãe ou bebê.

Entretanto, dados oficiais mostram que:

mais de 60% dos partos brasileiros são cesarianas;
na rede privada, esse percentual se aproxima de 90%;
o Brasil figura entre os três países com maiores índices de cesarianas no mundo.

O medo da dor ainda pesa na decisão

Entre os principais fatores psicológicos identificados pela pesquisa está o medo da dor do parto normal.

Ao mesmo tempo, mulheres que optam pelo parto vaginal destacam como principal vantagem a recuperação mais rápida após o nascimento do bebê.

Segundo o Unicef, muitos receios são alimentados por relatos traumáticos de familiares e amigas, frequentemente relacionados a experiências de violência obstétrica.

Esses relatos incluem situações como:

Violência obstétrica ainda influencia escolhas
intervenções desnecessárias;
episiotomias sem indicação clínica;
induções de parto sem necessidade;
falta de acolhimento durante o trabalho de parto;
desrespeito às escolhas da gestante.

De acordo com Stephanie Amaral, especialista em Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, essas experiências negativas permanecem presentes no imaginário das mulheres e acabam influenciando novas gerações.

Diferenças entre SUS e rede privada

O estudo também identificou diferenças importantes entre mulheres atendidas pelo SUS e aquelas acompanhadas pela rede privada.

Entre usuárias do SUS, a recuperação rápida do parto normal aparece como necessidade prática, principalmente pela ausência de rede de apoio para cuidar do recém-nascido, dos outros filhos e das tarefas domésticas.

Já entre mulheres da rede privada, a escolha pelo parto normal costuma estar mais relacionada ao conhecimento sobre seus benefícios e à possibilidade de contratar equipes especializadas, incluindo obstetras, enfermeiras obstétricas e doulas.

Falta de informação durante o pré-natal

Outro problema apontado pela pesquisa é a deficiência das orientações recebidas durante o pré-natal.

Muitas entrevistadas afirmaram não receber informações suficientes sobre:

trabalho de parto;
métodos para alívio da dor;
plano de parto;
direitos da gestante;
possibilidades de parto humanizado.

No SUS, diversas mulheres relataram sentir que a decisão final sobre o tipo de parto acaba ficando exclusivamente nas mãos da equipe médica.

Analgesia ainda é limitada

O acesso à analgesia durante o parto também foi apontado como uma das principais desigualdades entre os sistemas público e privado. Enquanto hospitais particulares oferecem esse recurso com maior frequência, sua disponibilidade ainda é restrita em boa parte das maternidades públicas. Segundo o Unicef, ampliar esse acesso representa uma medida importante para garantir dignidade e reduzir o medo associado ao parto normal.

Recomendações do Unicef

Entre as principais propostas apresentadas pela organização estão:

Melhorar o atendimento às gestantes
ampliar informações durante o pré-natal;
fortalecer o uso do Plano de Parto;
garantir acesso à analgesia;
expandir Centros de Parto Normal;
incentivar métodos não farmacológicos para controle da dor;
qualificar profissionais para um atendimento humanizado;
fortalecer políticas públicas voltadas ao planejamento reprodutivo;
rever modelos de financiamento que possam favorecer cesarianas sem indicação clínica.

O estudo também recomenda maior participação de acompanhantes e doulas durante todo o processo gestacional.

Campanha incentiva escolha informada

Junto com a divulgação da pesquisa, o Unicef lançou a campanha “Parto normal. Uma escolha que merece respeito”, que busca estimular uma decisão baseada em informação, evidências científicas e respeito à autonomia das mulheres.

Segundo a organização, o objetivo não é incentivar um tipo específico de parto, mas garantir que cada gestante possa fazer uma escolha consciente, segura e respeitada.

FAQ

O que a pesquisa do Unicef concluiu?

Que a alta taxa de cesarianas no Brasil resulta de fatores psicológicos, sociais e estruturais, e não apenas da escolha individual das gestantes.

Qual é a taxa recomendada pela OMS?

A Organização Mundial da Saúde recomenda que até 15% dos partos sejam realizados por cesariana.

Qual é a taxa brasileira?

Mais de 60% dos nascimentos ocorrem por cesariana, chegando perto de 90% na rede privada.

Quais fatores mais influenciam essa decisão?

Medo da dor, experiências negativas relatadas por familiares, violência obstétrica, falta de informação durante o pré-natal e limitações estruturais dos serviços de saúde.

O que o Unicef propõe?

Mais informação, fortalecimento do parto humanizado, ampliação da analgesia, qualificação das equipes e garantia do direito à escolha informada da gestante.

 

Com informações de Tâmara Freire – repórter da Agência Brasil

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