Em Rondônia, agricultores familiares vêm demonstrando que é possível produzir alimentos com qualidade, gerar renda e, ao mesmo tempo, preservar o meio ambiente. No interior do estado, histórias como as de Sineide da Cruz, em Alta Floresta D’Oeste, e Deigson Bento, em Cacoal, revelam como sistemas sustentáveis e o cooperativismo regeneram territórios e fortalecem economias locais.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a agricultura familiar representa mais de 80% das propriedades rurais rondonienses e responde por grande parte dos alimentos consumidos no estado. Estudos conduzidos pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA) apontam que sistemas agroflorestais e diversificados apresentam alta viabilidade econômica no longo prazo, desde que amparados por crédito, assistência técnica e políticas públicas.
Da crise do café à força do milho verde
Na linha 42, zona rural de Alta Floresta D’Oeste, Sineide transformou uma crise em oportunidade. No fim dos anos 1990, a queda brusca no preço do café levou a família a repensar o modelo produtivo. A aposta no milho verde irrigado — ainda pouco comum na região — abriu caminho para um novo negócio.
A virada definitiva veio com a produção de pamonhas artesanais, vendidas nas feiras livres do município e de cidades vizinhas. A produção passou a ser escalonada, com plantios quinzenais, organização familiar e aproveitamento integral da matéria-prima.
O impulso também contou com apoio do programa AgroFeira, política pública municipal que incentiva o consumo direto da agricultura familiar, além do suporte da cooperativa de crédito Sicredi, presente no estado desde 2005.
Café amazônico com identidade e sustentabilidade
Em Cacoal, o cenário é outro, mas o princípio é semelhante. Rondônia é hoje o segundo maior produtor de café conilon do Brasil, com cerca de 3,1 milhões de sacas beneficiadas em 2024. Mais de 85% das lavouras estão em áreas com menos de 10 hectares, conforme levantamento da Embrapa Territorial.
Na propriedade da família Bento, o café é cultivado em sistema sustentável, com manejo técnico e foco na qualidade. Parte da produção é voltada para cafés especiais, com beneficiamento próprio e venda direta para cafeterias e consumidores.
De acordo com a Embrapa, sistemas agroflorestais com café robusta na Amazônia podem capturar até 10 toneladas de CO₂ equivalente por hectare ao ano, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas.
A decisão de verticalizar a produção — beneficiando e embalando o próprio café — fortaleceu a renda da família e ampliou o acesso a novos mercados. O apoio do Sicredi foi determinante para investimentos em infraestrutura e capacitação.
Permanência, regeneração e futuro
Na Amazônia, onde o uso da terra está diretamente ligado às discussões globais sobre clima e biodiversidade, a forma de produzir é estratégica. Pesquisas acadêmicas indicam que modelos diversificados preservam o solo, reduzem a dependência de insumos químicos e criam cadeias produtivas mais resilientes.

Enquanto grandes monoculturas enfrentam desafios como degradação e esgotamento do solo, experiências como as de Sineide e Deigson mostram outro caminho: permanência no território, valorização da ancestralidade e inovação com responsabilidade ambiental.
Nesse contexto, o cooperativismo se consolida como pilar para o avanço da produção sustentável. Ao oferecer crédito, capacitação e acompanhamento técnico, fortalece pequenos produtores e cria redes locais de desenvolvimento.
Em Rondônia, a agricultura familiar demonstra que desenvolvimento econômico e preservação ambiental não são opostos — podem caminhar juntos quando há planejamento, apoio institucional e compromisso com o território.







































