No mês que marca o Dia Internacional das Mulheres, não faltam motivos para combater a violência de gênero em Rondônia. Estamos na vergonhosa colocação de segundo lugar entre os estados brasileiros que mais matam mulheres e estupram vulneráveis do país.
No mês passado, mais um caso assombroso veio à tona em Porto Velho. Uma adolescente de 16 anos foi encontrada morta na Capital com sinais de tortura e maus tratos. A jovem, que comia restos de comida que eram dados aos animais, dormia no chão, amarrada com fios na cama para não sair do quarto, era mantida em cárcere privado e sofria torturas dentro da casa onde morava com o pai e a madrasta.
Marta foi encontrada desnutrida, com os ossos expostos, ferimentos cheios de larvas, em um ambiente completamente insalubre, com marcas indicando que ela passou dias imobilizada. A madrasta, que também participava das agressões, cortava o cabelo da vítima de forma bem curta e demonstrava ciúmes.
Me pergunto que tipo de ira ou satisfação estimulou essas pessoas ao ponto de descontar dessa maneira nesta menina. E quem mais realizou, consentiu ou não tomou partido da dor dessa garota? Se os avós sabiam e o restante da família? E os vizinhos? Ninguém nunca exigiu ver a adolescente depois do sumiço? E a Secretaria de Educação? Por que não exigiu o comprovante de matrícula da outra escola quando o pai retirou a menina do colégio e alegou que seria transferida? São tantas camadas, vários erros, diversos culpados pela morte de Marta.
Estamos perdendo a humanidade, precisamos recuperar os laços comunitários, essa aversão ao convívio social e romantização da antissociabilidade tem feito com que deixamos de nos preocupar com o outro.
O caso Marta e tantos outros têm sido noticiados diariamente por aqui. São homens de confiança dentro de casa que acham que a vida de mulheres não é tão importante quanto a deles.
É importante lembrar que o feminicídio não é um crime novo, ele sempre existiu dentro de um sistema que violenta e silencia mulheres. A misoginia também não é de agora. Acontece que estamos presenciando um crescimento de grupos masculinistas e ideologias como a Red Pill, que pregam submissão feminina e papéis tradicionais de gênero, que violenta e silencia mulheres. Esses discursos ganharam força dentro e fora das redes sociais, alimentando e encorajando comportamentos que colocam a vida de mulheres em risco. Esse retrocesso tem ajudado a aumentar os casos de violência contra a mulher, pois reforçam que a nossa vida vale menos.
Existem alguns avanços, como a aprovação do Senado para a inclusão da misoginia entre os crimes de preconceito ou discriminação, com pena de dois a cinco anos de prisão e multa. Também tem a aplicação imediata de tornozeleiras eletrônicas para agressores que colocarem em risco a vida de mulheres e crianças, em casos de violência doméstica.
Porém, existe apenas uma casa de abrigo em Rondônia para acolher mulheres e crianças em casos de violência doméstica. As delegacias de atendimento à Mulher (DEADMs) ainda não funcionam 24h. O estado que se recusou a assinar o Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio, ainda não tem uma Secretaria Estadual de Políticas Públicas para mulheres. Ou seja, não temos orçamento nem estrutura, porque nossa vida não é prioridade.
O pai e a madrastra da adolescente serão indiciados por feminicídio, cárcere privado, maus tratos, emissão de socorro e tortura com resultado morte. Mas nada disso vai trazer a vida de Marta de volta. A jovem que gostava de cantar na igreja e sonhava em terminar os estudos virou mais uma estatística no estado onde a falta de consciência sobre o tamanho do problema de saúde pública persiste.




































