Há silêncios que gritam mais alto do que qualquer sirene. O nome de Juliana de Matos Lima Santiago agora ecoa nesse silêncio pesado que fica quando a violência vence a vida. Professora, escrivã de polícia, mulher de história, de trabalho e de sonhos, Juliana foi arrancada do convívio de todos dentro de um espaço que deveria ser de aprendizado, de futuro, de construção.
No seu último dia de trabalho, Juliana fez o que sempre fez, ensinou. Em sala, promoveu um quiz com os alunos, um gesto simples, cheio de cuidado e significado. Os vencedores ganharam chocolates e versículos bíblicos, pequenas lembranças que carregavam mais do que prêmio, carregavam afeto, incentivo, humanidade. Entre os agraciados, estava justamente aquele que não aceitou ouvir um não.
É duro demais escrever isso.
Quem recebeu palavras e gestos de incentivo foi o mesmo que decretou o fim da vida de quem ensinava. De quem queria apenas ser respeitada. De quem sonhava, planejava, acreditava no poder da educação e da palavra.

Juliana foi morta por dizer não.
Um não que deveria ser simples.
Um não que deveria ser suficiente.
Um não que nunca deveria custar uma vida.
Mas o Brasil segue contando mulheres como se fossem números. Feminicídio virou palavra comum demais, repetida em manchetes, em estatísticas, em conversas que já começam com cansaço e terminam com indignação. A cada dia, mais nomes entram nessa lista que não deveria existir. Juliana agora faz parte dela, não por escolha, mas por uma brutalidade que insiste em transformar a vontade das mulheres em algo que alguns acham que podem controlar.
Não é sobre um caso isolado. Nunca foi.
É sobre uma cultura que ainda tolera a violência, que ainda relativiza a ameaça, que ainda questiona quem só exerceu o direito de dizer não. É sobre uma sociedade que chora depois, mas muitas vezes se cala antes.
Juliana tinha uma vida inteira pela frente. Tinha aulas a dar, histórias a contar, pessoas a abraçar, caminhos a percorrer. Tudo isso foi interrompido de forma cruel, deixando um vazio que não se preenche e uma revolta que não pode ser esquecida.

Que o nome de Juliana não seja apenas mais um na estatística.
Que ele vire memória, mas também alerta.
Que vire cobrança, mas também compromisso.
Até quando mulheres serão mortas por não aceitarem o desejo de alguém?
Até quando o “não” será tratado como desafio e não como limite?
Hoje, o luto é coletivo. E a dor, também.
Mas que dessa dor nasça um grito claro, firme e urgente: nenhuma vida a menos, nenhum silêncio a mais.






































