Os excessos à mesa são quase uma tradição nas festividades de fim de ano, mas a combinação de comida pesada e bebidas alcoólicas em curto espaço de tempo pode causar reações mais intensas do que muitas pessoas imaginam. A nutricionista e docente da Afya São Lucas em Porto Velho, Kaymann Scheidd Skroch, explica que o organismo entra em um verdadeiro estado de esforço diante do grande volume de alimentos ricos em gordura, açúcar e sal, somado ao álcool, que sobrecarrega o fígado e exige prioridade metabólica imediata.
Segundo a especialista, o estômago precisa se dilatar além do normal para comportar a refeição, o que deixa a digestão mais lenta e favorece refluxo, azia e sensação de peso. “Quando exageramos, o corpo tenta dar conta de várias demandas ao mesmo tempo. O estômago trabalha mais, o pâncreas libera mais insulina e o fígado desvia energia de outras funções para metabolizar álcool e gordura”, explica.
Entre os sinais físicos de sobrecarga mais comuns estão estufamento, dor abdominal, cansaço acentuado, dor de cabeça, aumento da sede, inchaço e alterações intestinais nas horas seguintes. O conjunto de sintomas indica que o sistema digestório está acima do limite. “É o corpo pedindo pausa. Esses desconfortos mostram que o metabolismo tenta restabelecer o equilíbrio o mais rápido possível”, observa Skroch.
A recuperação geralmente leva entre 24 e 72 horas, podendo chegar a quatro dias quando há grande ingestão de álcool. Nesse período, o fígado precisa reorganizar o metabolismo e eliminar toxinas acumuladas. Além do mal-estar, episódios de exagero podem desencadear refluxo intenso, picos glicêmicos, crises de enxaqueca e até esteatorreia (diarreia causada por excesso de gordura). Pessoas com doenças crônicas, como diabetes, gastrite e síndrome do intestino irritável, tendem a apresentar impactos mais fortes.
As combinações de alimentos típicas das festas também potencializam sintomas. Gorduras seguidas de açúcar tornam a digestão mais lenta, enquanto carboidratos simples associados ao álcool elevam o pico glicêmico e intensificam a desidratação. “Às vezes não é apenas o volume, mas a combinação. Churrasco pesado, doces e bebida formam um trio perfeito para sobrecarregar o fígado e prolongar o desconforto”, afirma.
Para amenizar os efeitos, a nutricionista recomenda priorizar hidratação com água, água de coco e chás de hortelã ou gengibre, além de frutas ricas em água e potássio, como melancia, melão e banana. Proteínas leves, verduras cozidas e alimentos com ação anti-inflamatória, como cúrcuma e gengibre, também auxiliam. Probióticos podem ajudar nos casos de desconforto intestinal. “O foco deve ser recuperar o equilíbrio: nada de jejum extremo ou alimentos pesados no dia seguinte. O corpo precisa de apoio, não de mais estresse metabólico”, reforça.
O álcool, rapidamente absorvido, é transformado em acetaldeído, substância responsável por dor de cabeça e náuseas. Em grandes quantidades, circula no sangue e afeta coordenação motora, pressão arterial e respiração, podendo levar à intoxicação alcoólica. Sinais como vômitos repetidos, confusão mental, respiração lenta, palidez, convulsões ou baixa resposta a estímulos exigem atendimento médico imediato.
Beber água ajuda, mas não impede a intoxicação. “A hidratação reduz os efeitos da ressaca, mas não impede que o álcool sobrecarregue o fígado. É um apoio, não uma proteção”, orienta a docente.
A recuperação também envolve sono adequado, caminhadas leves, refeições equilibradas e evitar frituras e doces por pelo menos 48 horas. “A melhor estratégia é não repetir o excesso e permitir que o corpo se reorganize”, destaca.
Sobre detox, jejuns e suplementos, a nutricionista esclarece que jejuns prolongados podem piorar os sintomas. Sucos detox ajudam na hidratação, mas não “limpam” o corpo; e suplementos só devem ser usados com orientação profissional. “Festas fazem parte da vida. O importante é evitar o ciclo de exagero e compensação. Menos intervenção e mais equilíbrio sempre será o caminho mais seguro”, finaliza.










































