Nos dias 28 e 29 de março de 2026, Porto Velho será palco de um Tribunal Popular que pretende colocar o latifúndio no banco dos réus. A iniciativa, organizada por diversas entidades e movimentos sociais, busca dar visibilidade a décadas de conflitos agrários em Rondônia, marcados por assassinatos, despejos ilegais, ameaças e perseguições contra camponeses sem-terra, posseiros, indígenas, extrativistas, ribeirinhos e quilombolas.
O julgamento simbólico ocorre em meio a um cenário de crescente tensão no campo. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) indicam que, embora 2024 tenha registrado leve queda nos assassinatos diretos, o número de conflitos por terra atingiu 1.768 ocorrências, consolidando-se como um dos períodos mais críticos da última década. Já em 2025, a situação se agravou: o total de mortes em disputas agrárias dobrou, passando de 13 para 26 casos, com Rondônia entre os estados mais violentos do país nesse tipo de conflito.
Segundo as organizações envolvidas, a violência vai além das disputas territoriais. Há denúncias de atuação de grupos armados e até de ações institucionais que, na avaliação dos movimentos, estariam contribuindo para a criminalização de famílias e advogados populares que atuam na defesa de direitos no campo. Diante desse contexto, entidades como ABRAPO, CEBRASPO, CPT, MAB e LCP articulam o Tribunal Popular como um espaço de denúncia pública e mobilização social.
O julgamento será presidido pelo jurista Jorge Moreno, juiz aposentado do Tribunal de Justiça do Maranhão e vice-presidente da ABRAPO. O corpo de jurados reúne especialistas de diferentes regiões do país, incluindo pesquisadores de universidades federais, jornalistas, lideranças sindicais e representantes de movimentos sociais. Entre os nomes confirmados estão a professora Helena Angélica de Mesquita, estudiosa do Massacre de Corumbiara, o desembargador aposentado Siro Darlan e a líder seringueira Dercy Teles, referência histórica na luta dos trabalhadores rurais na Amazônia.
Durante o Tribunal, também serão ouvidas testemunhas de acusação, como lideranças indígenas, camponesas e representantes de comunidades tradicionais que vivenciam diretamente os conflitos por terra. A cobertura será realizada por veículos da chamada imprensa independente, ampliando o alcance nacional das denúncias.
O Tribunal Popular Contra Crimes do Latifúndio será realizado no auditório do Sintero, localizado na Rua Rui Barbosa, nº 713, bairro Arigolândia. As atividades começam às 8h do sábado (28) e seguem até o domingo (29), quando serão apresentadas as alegações finais, a deliberação do júri e a leitura da sentença simbólica. As inscrições serão feitas no próprio local.
Mais do que um julgamento formal, o evento se propõe a ser um espaço de memória, denúncia e pressão social. Para os organizadores, a iniciativa busca não apenas responsabilizar simbolicamente os envolvidos, mas também chamar atenção para a urgência de políticas públicas que enfrentem a violência no campo e garantam direitos às populações tradicionais e trabalhadores rurais em Rondônia.








































