PROPOSTA
A coluna tinha conhecimento das conversações entre o governador Marcos Rocha e Expedito Júnior, presidente regional do PSD, iniciadas no fim de outubro passado, após uma reunião oficial entre ambos. Aliás, registre-se: foi o único encontro formal entre os dois em sete anos de convivência institucional, o que por si só já diz muito.
Na ocasião, Expedito Júnior apresentou a proposta: que Marcos Rocha ingressasse no PSD para disputar o Senado na chapa majoritária encabeçada por Adailton Fúria. O pacote vinha completo: presidência estadual do partido, poder para indicar o vice-governador e a garantia da vaga senatorial, caso o governador resolvesse abandonar a prudente permanência no cargo e retomar o velho sonho de Brasília. A proposta foi feita, não foi recusada e, ao contrário do que alguns apressados anunciaram, segue de pé.
BARRIGADA
Na semana passada, durante a segunda reunião entre os dois, alguém decidiu brincar de jornalismo criativo e plantou uma fake news que ganhou musculatura de manchete: a de que o acordo estaria fechado com a filiação consumada de Marcos Rocha ao PSD. A mentira correu solta, feito fagulha em rastro de pólvora, incendiando redações pouco afeitas à checagem básica. Sem ouvir os protagonistas, a barrigada ganhou ares de verdade até ser desmentida ontem (segunda-feira). O convite permanece sob análise do governador; a filiação, não.
EMBUSTE
É inquestionável que alguém do entorno do governo ou das relações pessoais do presidente do PSD vazou o encontro e soprou a ilação da filiação mal contada. Fake news não brota do nada: deixa digitais, método e intenção. Quem conhece os bastidores políticos reconhece o roteiro clássico — solta-se a informação, mede-se a reação e avalia-se o estrago. O embuste foi bem plantado, cumpriu o papel de causar polêmica e aferir o termômetro eleitoral. E quase toda a imprensa, excetuando-se quem não depende das benesses do poder, caiu como pato.
REAÇÃO
A coluna ouviu a direção estadual do PSD, que desmentiu a filiação, mas confirmou que o assunto foi tratado e segue em avaliação pelo governador. À medida que o fake se espalhou pelas redes, a reação popular deixou claro: se Marcos Rocha decidir ingressar no PSD, dificilmente será para comandar a legenda.
APÊNDICE
Como se não bastasse, a semana trouxe outra confusão ideológica: a filiação de Expedito Neto ao PT. O ex-deputado federal é filho de Expedito Júnior, presidente do PSD e articulador-mor da candidatura de Adailton Fúria ao governo. Pai à direita, filho à esquerda, ambos puxando a corda para o mesmo lado eleitoral. O eleitor fica confuso, o partido fica contaminado e o PSD passa a carregar um apêndice ideológico que, longe de agregar, estrangula.
PRÓCERES
O governador pode alegar que não recuou de nada, já que a filiação não se concretizou. Mas as conversas são reais e avançam. A possibilidade de Marcos Rocha se reunir com próceres nacionais do PSD é concreta. No bate-papo informal, Expedito Júnior acenou com encontros com os governadores Ratinho Júnior (PR) e Tarcísio de Freitas (SP). Rocha gostou. E muito.
RECUO
O problema é conhecido: Marcos Rocha é politicamente inconstante e deliberadamente lento nas decisões. No PSD, há receio de que essa característica provoque novo recuo estratégico, deixando os peessedebistas mais uma vez olhando para o nada, com o dedo na boca e o calendário eleitoral correndo.
DESGASTE
Há quem avalie que a aproximação entre Adailton Fúria e Marcos Rocha, no último ano de governo, gere desgaste suficiente para inviabilizar a candidatura do prefeito de Cacoal. Se o governo estadual perder capilaridade eleitoral, Fúria pode ir junto no ralo. Mas o inverso também é possível. São variáveis que só as pesquisas — e o humor do eleitor — dirão.
CRÍVEL
Cravar agora se a aproximação é boa ou ruim seria chute. As últimas pesquisas oficiais, divulgadas dentro da legislação, ainda no fim do ano passado, eram favoráveis ao governo. Isso pode mudar, inclusive por causa dessa flertação política com o PSD. A fake news, nesse sentido, serviu como teste empírico. Há levantamentos internos recentes, mas como não atendem aos critérios legais, a coluna se abstém de citá-los. Por prudência jurídica.
PODCAST
Segue repercutindo a entrevista concedida a este cabeça-chata, no podcast Resenha Política, pelo ex-comandante-geral da Polícia Militar, coronel Braguin, exonerado pelo governador Marcos Rocha na última sexta-feira. Apesar das declarações protocolares de gratidão, a mágoa escorre pelas entrelinhas. Braguin se lança pré-candidato ao governo pelo Partido Novo e diz estar pronto para a missão mais complexa da vida — o que, em política, costuma ser sinônimo de problema dobrado.
AGRESSIVO
Instado a comentar denúncias que pesam sobre sua pré-candidatura, especialmente uma acusação de agressão doméstica registrada em boletim de ocorrência e um episódio em blitz da Lei Seca, quando se recusou a soprar o bafômetro, Braguin se defendeu. Disse ser uma pessoa tranquila, respeitosa com mulheres, negou agressão à ex-esposa e classificou a denúncia como perseguição política.
BÊBADO
Sobre a blitz, realizada por policiais sob sua própria jurisdição, alegou armação para desgastá-lo. Não apontou autores, mas lembrou que dias antes havia discutido com deputados na Assembleia Legislativa, todos com trânsito entre militares. Fez questão de frisar que não estava bêbado, justificando que houve apenas multa por recusa ao bafômetro, sem medidas mais severas. Argumento frágil, mas recorrente.
RETALIAÇÃO
Segundo Braguin, sua exoneração foi fruto de capitulação do governo às pressões parlamentares e deu início a uma sequência de retaliações. Afirma que manterá a rotina, mas adotou cuidados extras por temer represálias de facções criminosas, incomodadas com sua atuação no comando da PM.
Como pré-candidato, Braguin estreia do pior modo possível: explicando-se antes mesmo de se apresentar. Em política, quem começa na defensiva costuma terminar no fim da fila.
PRECONCEITO
É deplorável que, em pleno século XXI, pessoas que se dizem de bom senso e convivem numa sociedade heterogênea, marcada por contradições de toda ordem, ainda cultivem preconceitos de raça, condição financeira ou orientação sexual. Num país em que parcela expressiva da classe política flerta sem pudor com a ilegalidade — e onde muitos confundem representante público com marginal profissional — soa ainda mais grotesco que uma parlamentar seja injuriada por uma escolha da vida privada. Amor, para alguns, vira “anomalia”, “aberração” ou “crime”. Convém inverter a régua moral: crime é usar o mandato para relações escusas; aberração é transformar o cargo público em instrumento de vantagens pessoais; anomalia é fazer do mandato um puxadinho da marginalidade. Isso, sim, merece condenação e denúncia.
PRECONCEITO II
A deputada federal Sílvia Cristina pode — e deve — ser criticada por posições políticas que endossam pautas apropriadas pelo mundo conservador para apontar o dedo acusador contra quem não professa as mesmas mesmices ideológicas. Esta coluna, inclusive, já o fez. Mas até aqui não há nada que desabone sua conduta parlamentar. O que se vê agora é a velha prática covarde: a invasão da vida familiar como atalho para o linchamento moral. Sílvia Cristina deve ser julgada nas urnas, por suas ações no Congresso Nacional, não pela forma respeitosa e digna com que decidiu viver o amor.
FORTÍSSIMA
A pré-candidatura de Sílvia Cristina ao Senado, em meio a um cardápio de marmanjos tarimbados, tem provocado inquietação e reações nada sutis. O motivo é simples: trata-se de um nome denso, competitivo e com reais chances de ocupar uma das vagas. A baixaria que tenta desqualificá-la na vida privada denuncia mais o desespero dos adversários do que qualquer fragilidade da candidata. Quando falta argumento político, sobra preconceito — e isso diz tudo sobre quem ataca.









































