A Polícia Civil de Rondônia realizou uma coletiva de imprensa para esclarecer o andamento das investigações sobre a morte da professora e escrivã de polícia Juliana de Matos Lima Santiago, assassinada na última sexta-feira dentro de uma faculdade em Porto Velho. O caso, que gerou comoção local e repercussão nacional, foi classificado pela delegada Leisaloma Carvalho como um crime de extrema gravidade, tanto pela brutalidade quanto pelo local em que ocorreu, um ambiente dedicado ao ensino e à formação profissional.
Segundo a delegada, as investigações começaram imediatamente após a comunicação do crime. O suspeito foi preso ainda no mesmo dia, nas dependências da faculdade, logo após os fatos. No momento da prisão, ele teria mencionado que manteve um relacionamento amoroso com a vítima e que teria cometido o crime. No entanto, já na Central de Flagrantes, durante o interrogatório formal, o investigado optou por permanecer em silêncio, exercendo seu direito constitucional, e estava acompanhado por advogado.
Apesar disso, policiais e testemunhas que presenciaram a prisão relataram de forma consistente o que foi dito pelo suspeito naquele momento. Essas informações passaram a integrar o inquérito e estão sendo analisadas junto com outras provas técnicas reunidas pela equipe de investigação.
A delegada foi enfática ao afirmar que a Polícia Civil não trabalha com suposições. “Nós trabalhamos com provas”, destacou. E, com base nos elementos colhidos até agora, a principal conclusão é que Juliana não manteve qualquer relacionamento amoroso com o suspeito. Ao contrário, ficou demonstrado nos autos que a professora sempre impôs limites claros à postura do aluno, deixando evidente que qualquer tentativa de ultrapassar a relação profissional entre professor e estudante era inaceitável e poderia, inclusive, gerar consequências administrativas dentro da instituição de ensino.
De acordo com a investigação, o suspeito tentou por diversas vezes se aproximar da professora de forma inadequada. Há registros de que Juliana chegou a alertá-lo de que esse tipo de conduta era proibido pelas normas da faculdade e poderia resultar até em demissão, já que relações íntimas entre alunos e professores são vedadas pelos regimentos internos.
Mesmo diante dessas negativas, a polícia apurou que o investigado demonstrou inconformismo quando a professora publicou em suas redes sociais uma foto ao lado do namorado. Segundo a delegada, ele chegou a enviar mensagens à vítima demonstrando ciúmes e afirmando que teria “perdido para a concorrência”. Para a Polícia Civil, os elementos reunidos até o momento indicam que o crime foi motivado por frustração e pela não aceitação da rejeição.
Durante a coletiva, Leisaloma Carvalho também fez questão de descartar uma versão que circulou nas redes sociais, a de que o crime teria sido motivado por uma suposta reprovação ou nota baixa. A polícia já anexou ao inquérito o boletim do aluno, que comprova que ele não tinha desempenho que justificasse reprovação ou qualquer prejuízo causado pela professora em relação às notas. Essa hipótese, segundo a delegada, está completamente afastada da investigação.
A delegada explicou ainda que, para a caracterização do crime de feminicídio, não é necessário que exista ou tenha existido um relacionamento amoroso entre vítima e agressor. Basta que haja o sentimento de posse, menosprezo ou discriminação pelo fato de a vítima ser mulher, elementos que podem estar presentes mesmo sem vínculo afetivo. No entendimento da polícia, a dinâmica do caso aponta para esse tipo de motivação.
O ataque, conforme detalhado, foi de extrema violência. Juliana sofreu uma lesão grave no coração, o que provocou uma hemorragia interna intensa e levou a um choque hipovolêmico. Ela morreu antes mesmo de conseguir chegar ao hospital para receber atendimento médico. A delegada classificou o fato como profundamente lamentável, não apenas por se tratar de mais uma mulher vítima de violência, mas também por Juliana ser policial civil, integrante da própria instituição.
Leisaloma Carvalho destacou que, por mais treinadas que sejam, nem mesmo mulheres policiais estão imunes a esse tipo de violência. “Todas são mulheres e acabam passando por isso como qualquer outra”, afirmou, reforçando o caráter estrutural do problema e a necessidade de enfrentamento firme a esse tipo de crime.
As investigações seguem em ritmo intenso. A Polícia Civil informou que está trabalhando de forma praticamente ininterrupta, realizando oitivas, analisando provas técnicas e reunindo todos os elementos necessários para encaminhar ao Ministério Público um inquérito robusto, capaz de fundamentar a denúncia e uma futura condenação do suspeito.
Segundo a delegada, também está em andamento a análise de imagens de câmeras de segurança da região da faculdade, para reconstruir o trajeto do investigado, desde a entrada até a saída do local. Embora não haja câmeras dentro da sala de aula, o material externo pode ajudar a esclarecer a dinâmica dos fatos e eventuais indícios de premeditação, hipótese que não está descartada pela polícia.
Outro ponto esclarecido foi sobre a aula do dia do crime. Testemunhas relataram que a aula transcorreu de forma normal, com participação dos alunos. Juliana teria realizado uma dinâmica em sala, distribuindo pequenos chocolates aos estudantes que acertavam perguntas, incluindo o próprio investigado. Não há, no inquérito, qualquer prova de que a professora tenha levado faca ou qualquer objeto semelhante para a sala. Inclusive, pessoas próximas à vítima afirmaram que a faca utilizada no crime não pertencia a ela e nunca fez parte de seus objetos pessoais.
A polícia também informou que o celular do investigado não foi apreendido no momento da prisão, pois ele não estava de posse do aparelho naquela ocasião. Mesmo assim, o levantamento da vida pregressa do suspeito está sendo feito, incluindo antecedentes criminais e possíveis ocorrências anteriores, dados que só serão detalhados ao final do inquérito.
O inquérito policial tem prazo legal de dez dias para ser concluído. O suspeito foi autuado em flagrante e, na audiência de custódia, o juiz converteu a prisão em preventiva, após representação da autoridade policial. Até lá, a Polícia Civil segue trabalhando para reunir o máximo de provas possível e esclarecer todos os contornos do crime.
Ao final da coletiva, a delegada deixou uma mensagem direcionada às mulheres, ressaltando que casos como esse não podem ser naturalizados nem repetidos. Ela afirmou que a polícia aplica a lei e espera que a punição seja a mais severa possível, como forma de resposta da sociedade a crimes tão graves e para que tragédias como a que vitimou Juliana não voltem a se repetir.









































