Um estudo conduzido por pesquisadoras da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) revela que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres, majoritariamente filhas (68%), esposas (21%) e netas. Os dados, baseados em entrevistas e estatísticas do IBGE, mostram que as mulheres dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais do que os homens em tarefas domésticas e cuidados, totalizando mais de mil horas anuais de trabalho não remunerado e socialmente invisível.
A pesquisa traça o perfil dessas cuidadoras: a média de idade é de 48 anos, mas há uma presença significativa de idosas (37%) que dedicam seu tempo de descanso para cuidar de maridos ou filhos. Segundo a pesquisadora Valquiria Elita Renk, uma das autoras do trabalho, a sobrecarga atinge especialmente a “Geração Sanduíche” — mulheres que equilibram o emprego formal com a gestão da casa e o cuidado simultâneo com filhos e pais idosos. Das entrevistadas, 61% afirmaram que precisaram abandonar o trabalho formal para se dedicar ao cuidado em tempo integral.
O Peso da “Obrigação” e a Saúde Mental
O estudo destaca que o cuidado no Brasil é visto como um “cunho cultural” e uma “ética da responsabilidade” internalizada. Ao serem questionadas sobre o motivo de exercerem a função, muitas mulheres responderam que o fazem por ser sua “obrigação”. Esse cenário de dedicação exclusiva e ininterrupta (muitas vezes 24 horas por dia) resulta em quadros frequentes de exaustão, solidão e depressão, já que essas mulheres raramente dispõem de tempo para o próprio autocuidado ou lazer.
Políticas Públicas e Educação
Diferente de países como Finlândia, Dinamarca e Uruguai — que possuem sistemas de compensação financeira ou facilidades na aposentadoria para cuidadores —, o Brasil ainda engatinha no setor. A Política Nacional do Cuidado, instituída no final de 2024, ainda está em fase de implementação. Para as pesquisadoras, a solução depende de dois pilares:
Reconhecimento Estatal: Criação de auxílios financeiros e contagem do tempo de cuidado para fins previdenciários.
Mudança Educacional: Educação igualitária para meninos e meninas sobre a divisão das tarefas domésticas para romper com a naturalização da mulher como única responsável pelo zelo familiar.
As autoras concluem que o trabalho do cuidado é a engrenagem que mantém a sociedade funcionando, mas que, sem o devido amparo institucional e divisão equitativa de tarefas, continuará penalizando a trajetória profissional e o bem-estar das mulheres brasileiras.










































