O Programa Antártico Brasileiro (Proantar) divulgou, nesta segunda-feira, 2, o estudo “Planeta em Degelo”, que revela uma aceleração sem precedentes no derretimento das calotas polares. De acordo com os dados, o planeta perdeu 9.179 gigatoneladas de gelo desde 1976, sendo que quase a totalidade desse volume (98%) chegou aos oceanos em estado líquido a partir de 1990. O dado mais alarmante indica que 41% de toda essa perda acumulada ocorreu apenas no período entre 2015 e 2024, evidenciando que o ritmo de degelo está se tornando exponencial devido aos recordes sucessivos de temperatura global.
Em entrevista concedida diretamente da Antártida, o biólogo e professor da Unifesp, Ronaldo Christofoletti, explicou que o derretimento observado nas calotas da Antártica e da Groenlândia nos últimos 20 anos já equivale ao que todas as geleiras do mundo perderam no meio século anterior. Segundo o pesquisador, o aumento do nível do mar é um processo inevitável que exigirá que as cidades costeiras brasileiras se adaptem para lidar com a erosão e a perda de áreas terrestres. O volume total de água liberado desde a década de 70 é comparável ao que o Rio Amazonas despeja no Atlântico ao longo de 470 dias.
Além da elevação do nível das águas, o estudo aponta que o degelo altera a salinidade dos oceanos, o que enfraquece as correntes marítimas responsáveis por distribuir o frio dos polos para as regiões tropicais. Para o Brasil, essa mudança na dinâmica oceânica tem impacto direto no clima, afetando o regime de chuvas, a intensidade das frentes frias e a frequência de eventos extremos. Dados do projeto ComAntar indicam que a ocorrência de desastres naturais ligados a ciclones e frentes frias na costa brasileira aumentou 19 vezes nos últimos 30 anos.
O Proantar, que completa 44 anos de atividades ininterruptas sob a coordenação da Marinha e dos ministérios da Ciência e das Relações Exteriores, reforça a urgência do cumprimento das metas estabelecidas na COP30, em Belém. Christofoletti defende a implementação do “Currículo Azul” nas escolas para promover a cultura oceânica e a transição energética global. Enquanto as emissões de gases de efeito estufa não são reduzidas, o foco imediato deve ser a infraestrutura urbana, preparando a orla das capitais para um avanço do mar que já é detectado pelos sensores polares.









































