O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, abriu o Conselho de Direitos Humanos em Genebra, nesta segunda-feira, 23, com um diagnóstico alarmante sobre a conjuntura global. Segundo Guterres, os direitos humanos sofrem ataques deliberados e estratégicos em diversas frentes, com o desrespeito generalizado ao direito internacional. O diplomata destacou que o “Estado de Força” tem prevalecido sobre o Estado de Direito, resultando em sofrimento civil extremo em regiões como Gaza, Sudão e Ucrânia.
A crise política é agravada por um colapso financeiro sem precedentes na instituição. Volker Turk, chefe de Direitos Humanos da ONU, afirmou que o órgão opera em “modo de sobrevivência”. O principal entrave é a retenção de verbas pelos Estados Unidos, maior doador da organização, que quitou apenas US$ 160 milhões de uma dívida superior a US$ 4 bilhões. Essa asfixia financeira já paralisou investigações sobre crimes de guerra na República Democrática do Congo e abusos no Afeganistão.
Guterres dedicou parte de seu discurso à situação nos territórios palestinos, afirmando que a viabilidade de um futuro Estado palestino está sob risco imediato. Ele condenou as recentes medidas do gabinete de Israel para ampliar o controle sobre a Cisjordânia, classificando-as como uma ameaça à solução de dois Estados. Para o secretário-geral, a comunidade internacional assiste a uma “anexação de fato” que não pode ser tolerada sob o risco de desmoronamento da ordem global.
Além dos conflitos no Oriente Médio e na Europa, a ONU demonstrou profunda preocupação com a escalada de violência em Mianmar e a competição global por recursos, que Turk descreveu como a mais intensa desde a Segunda Guerra Mundial. O apelo conjunto das lideranças da ONU é por um cessar-fogo nos abusos e pela restauração do apoio financeiro e político aos mecanismos de proteção humanitária, fundamentais para evitar um colapso ainda maior.
A pressão sobre os especialistas da ONU e o desligamento estratégico de potências globais de acordos multilaterais sinalizam um período de incertezas para a diplomacia. Guterres reforçou que, enquanto as necessidades humanitárias explodem em zonas de guerra e fome, a estrutura internacional criada para conter esses danos nunca esteve tão fragilizada e desassistida.



































