O Brasil contabilizou 84.760 registros de pessoas desaparecidas em 2025, número que representa uma média de 232 desaparecimentos por dia e um aumento de 4,1% em relação ao ano anterior. Os dados são do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública e reforçam que o desaparecimento continua sendo um desafio estrutural, mesmo após a criação da Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, instituída em 2019.
A legislação foi criada para articular ações integradas entre órgãos de segurança, saúde e assistência social, com o objetivo de agilizar localizações. Ainda assim, o total anual segue em alta desde 2015, com exceção de 2020 e 2021, período marcado pela pandemia, quando especialistas apontam que houve queda artificial devido às restrições e à dificuldade de registrar ocorrências em delegacias.
Segundo a coordenadora do Observatório de Desaparecimento de Pessoas no Brasil, da Universidade de Brasília, Simone Rodrigues, existe consenso de que a redução registrada durante a covid-19 foi momentânea e ligada ao isolamento social, não a uma melhora real do cenário.
Apesar do crescimento dos desaparecimentos, o número de pessoas localizadas também aumentou. Em 2025, 56.688 pessoas reapareceram ou foram encontradas, alta de 51% desde 2020. Para especialistas, esse avanço reflete tanto o aumento de casos quanto o aprimoramento das estratégias de busca, especialmente na interoperabilidade de dados e na comunicação entre instituições federais, estaduais e municipais.
Simone Rodrigues alerta, no entanto, que os números oficiais não conseguem traduzir toda a complexidade do problema. Muitos desaparecimentos estão ligados a crimes graves ainda não esclarecidos, como feminicídio, tráfico de pessoas, trabalho análogo à escravidão, LGBTQfobia e ocultação de cadáveres. Além disso, há situações em que familiares não registram boletim de ocorrência por medo, ausência de acesso ou preconceito institucional, o que contribui para a subnotificação.
Outro ponto crítico é que a Política Nacional de Busca ainda avança de forma lenta. O Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, considerado o coração da política, só foi criado em 2025 e conta com adesão parcial dos estados. Atualmente, apenas 12 unidades da federação estão integradas ao sistema, entre elas Rondônia, Bahia, Amazonas e Tocantins, o que dificulta o cruzamento nacional de informações.
Especialistas também destacam que ainda persiste o mito de que seria necessário esperar 24 ou 48 horas para registrar um desaparecimento, erro que pode atrasar investigações e reduzir chances de localização rápida, especialmente em casos envolvendo crianças e adolescentes.
Em 2025, 28% dos desaparecidos tinham menos de 18 anos. Os casos envolvendo esse público cresceram 8% em um ano, e entre crianças e adolescentes, a maioria das ocorrências envolve meninas. Para Simone, muitas dessas situações estão relacionadas a contextos de violência familiar, o que exige sensibilidade do Estado para proteger as vítimas sem reforçar estereótipos.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública reconheceu que há subnotificação e ponderou que o aumento percentual não significa necessariamente crescimento real, mas também reflexo de melhorias nos registros. A pasta afirma que trabalha para estruturar os pilares da política nacional, com capacitação de policiais civis, campanhas de coleta de DNA de familiares e ampliação do cadastro, com expectativa de integrar os demais estados ainda no primeiro semestre de 2026.
O cenário revela que o desaparecimento no Brasil segue como uma questão urgente de segurança pública e direitos humanos, exigindo respostas mais rápidas, sistemas integrados e políticas que alcancem toda a população, especialmente os grupos mais vulneráveis.











































