Porto Rico, território caribenho com cerca de 3,2 milhões de habitantes, mantém até hoje um status político considerado ambíguo por especialistas e organismos internacionais. Embora pertença oficialmente aos Estados Unidos, a ilha não é um estado norte-americano e não possui soberania plena, situação que leva parte da comunidade acadêmica e movimentos políticos a classificá-la como uma colônia moderna.
A condição voltou ao centro do debate após a apresentação do cantor porto-riquenho Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, quando o artista exaltou a identidade latina e criticou, de forma simbólica, a relação desigual entre Porto Rico e os Estados Unidos.
Atualmente, Porto Rico é classificado oficialmente como “Estado Livre Associado”, status adotado em 1952. Na prática, isso garante autonomia administrativa limitada, com governo próprio e eleição de governador, mas sem direitos políticos plenos no sistema federal norte-americano.
Os porto-riquenhos são cidadãos dos Estados Unidos, têm livre circulação pelo território norte-americano e podem servir às Forças Armadas do país. No entanto, não votam para presidente e não possuem representantes com direito a voto no Congresso. Ao mesmo tempo, estão sujeitos às leis federais e às decisões tomadas em Washington.
Para o professor de relações internacionais Gustavo Menon, da Universidade Católica de Brasília, essa combinação de deveres sem direitos plenos caracteriza uma forma contemporânea de colonialismo. Segundo ele, apesar da autonomia administrativa, Porto Rico permanece subordinado politicamente aos Estados Unidos.
Especialistas da Organização das Nações Unidas reconhecem que Porto Rico não se enquadra no modelo clássico de colônia, já que possui governo próprio. Ainda assim, o Comitê Especial de Descolonização da ONU considera que a ilha vive uma “situação colonial”, uma vez que o Congresso dos Estados Unidos detém poder absoluto sobre temas estratégicos como defesa, relações internacionais, comércio exterior e política monetária.
Historicamente, Porto Rico foi colônia da Espanha até o fim do século 19. Em 1898, após a Guerra Hispano-Americana, a ilha passou ao controle dos Estados Unidos, junto com Cuba e as Filipinas. Em 1917, os habitantes receberam cidadania norte-americana, mas sem igualdade política plena. A mudança para Estado Livre Associado, em 1952, não alterou de forma decisiva essa relação de dependência.
Ao longo das últimas décadas, a população porto-riquenha foi consultada diversas vezes sobre o futuro político do território. Desde 1967, foram realizados sete referendos. No mais recente, em 2024, 58% dos eleitores votaram a favor da transformação de Porto Rico em estado dos Estados Unidos, enquanto 29% defenderam a livre associação e 11% optaram pela independência.
Essas consultas, porém, não têm caráter vinculante e dependem exclusivamente da aprovação do Congresso norte-americano, que nunca avançou de forma concreta em nenhuma das alternativas. Por isso, os plebiscitos são vistos mais como termômetros políticos do que como instrumentos de mudança real.
A discussão sobre identidade, soberania e futuro político da ilha também aparece com frequência na obra de Bad Bunny. O artista critica a influência norte-americana e alerta para o risco de perda cultural, citando o Havaí como exemplo de território que se tornou estado dos EUA, mas perdeu parte significativa de sua identidade original.
Enquanto o debate permanece sem solução, Porto Rico segue em uma posição singular: não é um país independente, não é um estado norte-americano e continua submetido a uma estrutura de poder que limita sua autodeterminação. Um modelo que, mais de um século após a anexação, ainda gera questionamentos sobre colonialismo, democracia e direitos políticos no século 21.










































