Um novo livro lançado no Rio de Janeiro propõe uma leitura da escravidão nos Estados Unidos a partir do ponto de vista dos próprios escravizados. A obra Autobiografias de escravizados: Frederick Douglass, William Grimes e abolicionismo nos Estados Unidos, do jornalista e pesquisador Rafael de Carvalho Cardoso, analisa relatos em primeira pessoa como fontes centrais para compreender o sistema escravista norte-americano.
O livro é resultado do mestrado em História concluído pelo autor na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Diferente de abordagens tradicionais nas ciências sociais, a pesquisa parte do olhar de um estudioso brasileiro sobre a história dos Estados Unidos, com foco nas narrativas produzidas por pessoas que viveram a escravidão.
A publicação se baseia nas autobiografias de Frederick Douglass e William Grimes, dois homens negros escravizados que conseguiram fugir e registrar suas trajetórias em livros publicados no século 19. Esses relatos permitem observar aspectos do cotidiano, das relações familiares, das formas de resistência e do contexto político do período abolicionista norte-americano.
Segundo Rafael Cardoso, um dos principais contrastes entre Brasil e Estados Unidos está justamente na existência desse tipo de documentação. Enquanto nos EUA há centenas de autobiografias escritas por ex-escravizados, no Brasil a história dessas pessoas precisou ser reconstruída a partir de registros oficiais, como documentos de cartório, batismos e arquivos administrativos, já que a maioria era analfabeta.
O autor destaca como exceção brasileira a autobiografia de Mahommah Gardo Baquaqua, africano escravizado em Pernambuco e no Rio de Janeiro, que conseguiu a liberdade nos Estados Unidos e deixou um raro testemunho em primeira pessoa sobre a escravidão no Brasil.
Ao analisar duas autobiografias de cada personagem, publicadas em períodos diferentes, o livro também permite observar transformações sociais ocorridas ao longo de cerca de 30 anos nos Estados Unidos escravista. Para o autor, as experiências individuais revelam como fatores econômicos, sociais e políticos influenciam diretamente as possibilidades de vida e as escolhas de cada sujeito.
Rafael Cardoso afirma que o estudo da história amplia a capacidade crítica e analítica sobre a realidade contemporânea, algo que também impacta sua atuação como repórter dedicado a pautas sociais e ambientais. A obra contribui para o debate sobre memória, escravidão e racismo ao valorizar a narrativa daqueles que por muito tempo tiveram sua voz silenciada.






































