A Human Rights Watch alertou para o avanço do autoritarismo e o enfraquecimento da democracia em mais de 100 países, segundo relatório anual divulgado em Nova York. O documento aponta que o cenário global de direitos humanos enfrenta um dos momentos mais críticos das últimas décadas, com destaque para o papel desempenhado pelos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump.
De acordo com a organização não governamental, as salvaguardas internacionais de direitos humanos vêm sendo sistematicamente corroídas por governos autoritários e por democracias que passaram a adotar práticas de exceção. O relatório afirma que a atuação do governo norte-americano tem contribuído de forma decisiva para esse processo, ao enfraquecer o Estado de Direito e relativizar normas internacionais.
O diretor executivo da Human Rights Watch, Philippe Bolopion, classificou o atual cenário como “o desafio de uma geração”. Segundo ele, o sistema global de direitos humanos está sob forte pressão, não apenas pelos Estados Unidos, mas também por China e Rússia, que há anos atuam para minar a ordem internacional baseada em regras.
O relatório destaca que, nos Estados Unidos, o governo Trump promoveu ataques à independência do Judiciário, desrespeitou decisões judiciais e reduziu mecanismos de responsabilização do poder público. Também são citados cortes em programas de ajuda alimentar e saúde, retrocessos nos direitos das mulheres, restrições ao acesso ao aborto e a retirada de proteções legais de pessoas trans e intersexo.
Além disso, a Human Rights Watch afirma que o governo norte-americano tem usado instituições estatais para intimidar adversários políticos, meios de comunicação, universidades, organizações da sociedade civil e profissionais do entretenimento. A ONG avalia que esse comportamento contribui para normalizar práticas autoritárias em outras partes do mundo.
Na política externa, o relatório critica a postura dos Estados Unidos em relação à imigração e às relações internacionais. As ações do Serviço de Imigração e Alfândega, o ICE, são descritas como abusivas, com uso excessivo da força, detenções indevidas e episódios de mortes consideradas injustificadas. Para a ONG, essas práticas reforçam uma lógica em que o poder se sobrepõe aos direitos humanos.
A Human Rights Watch também aponta impactos diretos da política externa norte-americana em conflitos internacionais. No caso da guerra na Ucrânia, o relatório afirma que os esforços diplomáticos de Trump minimizaram a responsabilidade da Rússia por violações graves, enquanto pressionaram o governo ucraniano a aceitar concessões territoriais e acordos considerados desvantajosos.
O documento observa ainda que o enfraquecimento do compromisso dos Estados Unidos com os direitos humanos abriu espaço para uma “recessão democrática” global. Segundo dados citados pela ONG, cerca de 72% da população mundial vive atualmente sob regimes autoritários, nível semelhante ao registrado em meados da década de 1980.
Apesar do cenário adverso, a Human Rights Watch defende que países comprometidos com a democracia e os direitos humanos formem uma aliança estratégica. A organização sustenta que a união desses Estados pode criar um bloco político e econômico capaz de conter o avanço do autoritarismo e preservar normas internacionais fundamentais.










































