Vivemos um momento de comoção legítima. A perda brutal de uma docente, assassinada no exercício de sua profissão, expôs não apenas a fragilidade da segurança nas instituições de ensino, mas sobretudo a superficialidade das respostas políticas diante de um problema estrutural. É nesse contexto que surge a proposta de implantação de detectores de metal em escolas e faculdades. A medida, embora possa parecer imediata e simbólica, revela mais sobre a falta de profundidade do debate do que sobre uma real preocupação com a educação.
Cabe uma pergunta básica: as pessoas sentadas à mesa que discutem esse projeto conhecem, de fato, a realidade dentro e fora dos muros das escolas? Sabem o que enfrentam professores, alunos e trabalhadores da educação todos os dias?
O detector de metal, que agora surge como proposta de Projeto de Lei na Assembleia Legislativa de Rondônia (Alero), pode até ser bem-vindo como ferramenta auxiliar. Mas ele não detecta caráter. Não identifica índole. A violência que hoje invade os espaços educativos não nasce do nada, nem entra apenas pelos portões. Ela é fruto de uma sociedade adoecida, moldada por discursos que normalizaram o ódio, exaltaram o armamento e transformaram o conflito em método político.
Nas faculdades privadas locais, a maior preocupação da segurança não é com a integridade das pessoas, mas com a mensalidade em dia. As catracas não funcionam para barrar desconhecidos; servem para impedir a entrada dos inadimplentes. A conta é simples e fecha, justamente na cara de quem tenta apenas melhorar de vida.
Enquanto isso, as leis aprovadas na nossa chamada “Casa de Leis” garantem ao setor privado verbas bilionárias que poderiam ser investidas na educação pública: em melhores condições de salas de aula, em políticas de permanência estudantil e, sobretudo, em uma segurança pública visivelmente defasada, inclusive no número de policiais.
Em Rondônia, a ocasião tem feito o esperto. Muitos talvez não se lembrem, mas houve um tempo em que se dizia: “aconteceu, virou manchete”. Hoje, há quem transforme a tragédia alheia em capital político, fortalecendo perfis nas redes sociais, acumulando likes e posando de defensor(a) da moral quando, na prática, ajudou a construir o ambiente de violência que agora finge combater.
A própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) é clara ao afirmar que a formação humana é resultado de um conjunto de vivências que envolve escola, família e sociedade. Quando esses pilares falham, ou são atacados deliberadamente, o resultado é o colapso que hoje testemunhamos.
Rondônia não está isolada desse processo. O estado, assim como o Brasil, transformou-se em palco de agressões políticas sistemáticas. O embate deixou de ser democrático e passou a ser violento. Muitos dos parlamentares que hoje ocupam cadeiras na Assembleia Legislativa chegaram ao poder impulsionados por discursos de ódio e pela defesa irrestrita do armamento. A sociedade ouviu e os criminosos também. Quando autoridades legitimam a violência, não se pode fingir surpresa diante de suas consequências.
A internet, por sua vez, não esquece. Os discursos estão registrados, os posicionamentos são públicos, e os passados políticos podem ser facilmente revisitados. Não há como reescrever a própria história.
Comparar a realidade de uma faculdade com a de uma escola pública chega a ser ofensivo. As escolas públicas de Rondônia tornaram-se reféns de um abandono histórico. Muros cada vez mais altos substituíram políticas de cuidado. Pergunta-se: por que tantas escolas precisaram ser cercadas como fortalezas? Talvez porque, até pouco tempo atrás, muitas sequer contavam com vigilância adequada.
O problema central é que boa parte da classe política legisla pensando em si mesma, não na sociedade. Fala-se muito em violência, mas pouco ou nada se faz para enfrentá-la em suas raízes. Basta questionar: quais projetos efetivos foram apresentados para proteger as mulheres em um estado que lidera os índices de feminicídio na Região Norte? O silêncio é ensurdecedor.
Detector de metal não substitui política pública. Não substitui investimento em educação, saúde mental, assistência social e formação cidadã. Sem isso, qualquer medida será apenas um remendo em uma ferida aberta.
A política em Rondônia tem sido, infelizmente, inerte diante dos interesses reais do povo. E enquanto isso não mudar, continuaremos tratando tragédias como eventos isolados quando, na verdade, são sintomas de um projeto de sociedade que falhou.











































