Ainda de madrugada, quando muita gente está dormindo, José Antonio da Silva, o Casa Grande, já está de pé. A cena se repete há décadas e virou referência para quem mora por perto: ele prepara canteiro, observa as plantas, corre atrás de muda, calcula custo, pensa na próxima entrega e segue o ciclo que alimenta a cidade com cheiro verde fresquinho.
No episódio do Momento Agro, a conversa vira uma aula prática sobre o que existe por trás de um maço de cebolinha comprado no mercado. Casa Grande não romantiza. Ele mostra que a horta é sensível, exige preparo, tempo, mão de obra, organização e uma conta que precisa fechar, mesmo quando o preço final para o consumidor parece baixo.
Mais de 40 anos na horta e a escolha pelo que dá retorno
Casa Grande conta que entrou de vez nesse caminho quando percebeu que, para quem vive em pequenas áreas, plantar arroz, milho e feijão não garantia o mesmo retorno que a horta podia trazer. Foi assim que começou a vender no Mercado 1, aprendendo na prática o ritmo de produção e a lógica da cidade.
Ele lembra que no início era tudo mais devagar, mas o desafio sempre foi o mesmo: fazer a produção acontecer em uma terra considerada fraca, que precisa ser corrigida e cuidada para entregar resultado.
O que falta para o pequeno produtor, calcário, adubo e máquina
No programa, Casa Grande toca em um ponto que ecoa em várias comunidades rurais e periurbanas: sem apoio, o trabalho pesa no braço. Ele cita o que faria diferença real no dia a dia de quem vive da horta, calcário, adubo, maquinário e orientação técnica.
A fala vem acompanhada de um raciocínio direto: não adianta só entregar o insumo se o produtor não tem como aplicar corretamente nem quem oriente a medida certa. Colocar pouco é desperdiçar, colocar demais pode prejudicar o solo e a planta. Para ele, incentivo de verdade é aquele que chega com estrutura e acompanhamento.
A dinâmica que quase ninguém vê, colhe, limpa, empacota, entrega
A rotina descrita por Casa Grande parece uma maratona semanal. Ele colhe quatro vezes por semana, leva para casa, limpa e prepara tudo para ficar no ponto de venda. Depois, ainda de madrugada, entre três e meia e quatro horas, carrega o carro e segue para o mercado.
É aí que entra um ponto sensível para muitos pequenos produtores: a diferença entre vender para o atravessador e vender direto para o mercado.
Segundo ele, o atravessador paga na hora. Já o mercado, muitas vezes, quer pagar em 30 dias e ainda transfere para o produtor a responsabilidade por eventuais perdas. Para quem precisa pagar diária de trabalhador e manter o giro da produção, esperar pode travar a horta. No relato, a escolha por quem paga à vista é questão de sobrevivência.
CEASA em Porto Velho, venda com nota e aposentadoria do produtor
O debate avança quando surge a ideia de um centro de distribuição mais estruturado, como um CEASA. Casa Grande aponta uma vantagem que vai além do preço: a entrega com nota ajuda a vida do produtor, principalmente de quem ainda vai se aposentar.
Ele explica que o trabalhador rural precisa comprovar tempo de atividade e que guardar documentos, notas e registros vira uma forma de proteção para o futuro. O recado é claro: quem vive da roça não pode descartar papéis, porque isso pode fazer falta lá na frente.
A aula da cebolinha, canteiro, calcário e economia no plantio
Quando o assunto entra na técnica, o programa ganha cara de oficina. Casa Grande detalha o processo da cebolinha, começando pelo canteiro bem feito, o risco em linha e a aplicação de calcário e esterco orgânico.

Ele explica que usa uma lógica de economia: como não tem esterco à vontade para espalhar no canteiro inteiro, concentra o orgânico na linha para render mais e manter uma produção bonita.
Também comenta a importância da muda correta. Ele separa canteiros para muda madura, faz cortes para reduzir doenças e acelerar o rebrote. É aquele tipo de detalhe que só aparece quando alguém mostra com a mão na terra.
Chuva e verão, quando dá mais trabalho e quando dá mais retorno
Casa Grande descreve a diferença entre plantar na chuva e no verão. Na chuva, a produção pode sofrer com excesso de umidade e com o chamado “olho de sol quente”, que enfraquece e amarela as pontas. No verão, a irrigação vira peça central, mas o mercado pode ficar mais cheio de oferta, derrubando o valor.
Na prática, ele resume com a experiência de quem vive disso: quando todo mundo tem, vender é mais difícil, quando falta, quem manteve produção ganha um pouco mais.
Maxixe, coentro e salsinha, mercado manda, produtor adapta
Além da cebolinha, Casa Grande mostra como mantém a horta sempre girando com outras culturas. O maxixe aparece como exemplo de planejamento: ele faz muda em copinhos, adianta o ciclo e ganha tempo em comparação ao plantio direto por semente. Isso, segundo ele, pode reduzir semanas até a colheita.
Quando chega ao coentro, ele traz um argumento bem regional: o consumo acompanha o perfil da população, e onde há muitos nordestinos, o coentro costuma ter forte demanda. Já a salsinha demora mais para nascer, exige mais paciência e técnica para não “abafar” a semente, por isso muita gente acaba desistindo.
Um recado final, apoio, visita e respeito a quem produz
No encerramento, a mensagem do Momento Agro não fica só na história bonita. Casa Grande pede o básico: visita, presença, técnico, orientação e incentivo real. Ele quer que autoridades e sociedade enxerguem a produção local de perto, entendam a dificuldade e valorizem quem faz a comida chegar à mesa.
No fim, fica uma lição simples: a horta não é só plantio. É planejamento, conta, logística, saúde, resistência e um trabalho que começa quando a cidade ainda está acordando.









































