Commodities são produtos básicos, geralmente matérias-primas com baixo valor agregado, produzidos em alta escala e amplamente comercializados. A carne bovina brasileira é uma commodity, e ao exportar, transferimos para os mercados compradores quantidades enormes de empregos, lucros e riqueza.
Temos o maior rebanho bovino do mundo que produz carne, com cerca de 235 milhões de cabeças. Também somos os maiores produtores e exportadores de carne bovina do mundo e abastecemos mais de 150 países, mas o nosso mercado interno consome cerca de 80% da produção. Se com 20% do que produzimos somos os maiores exportadores, tem alguma coisa nessa conta que não está certa. É o que você vai ler aqui.
Um alerta: isso não fica somente na carne bovina. Também somos o maior produtor de café do mundo e também os maiores produtores de soja, açúcar, suco de laranja e celulose. E disputamos o topo da cadeia de produção do mundo em milho, algodão, maracujá, carne de frango etc.
Enfim, somos o celeiro do mundo e contribuímos para alimentar cerca de um 1,5 bilhão de pessoas ou quase 20% da humanidade. Mas, apesar da imensa escala de produção que temos, nossos produtos são exportados majoritariamente como commodity, ou seja, produtos primários ou com baixo grau de industrialização.
Isso gera impactos negativos significativos para o Brasil – e a maioria das pessoas ignora – porque exportamos maciçamente empregos para outros países e que vão gerar muito dinheiro e riqueza. Para eles. Sim, ao exportar uma matéria-prima alimentar, ela precisa ser processada para ser consumida e, além disso, uma gigantesca cadeia comercial que envolve distribuidores, atacadistas, supermercados e lojas físicas ou digitais.
Um exemplo muito claro e contundente: para cada dólar de café em grão que exportamos para os Estados Unidos, lá ele vira US$ 43.00 no final das cadeias de processamento e distribuição! Isso significa que dos US$ 4,4 bilhões de café que exportamos para os americanos em 2024, eles foram transformados em US$ 190 bilhões (!!!) através da agregação de valor no processo de transformação (torrar, moer, empacotar), distribuição e comercialização, inclusive para outros países!
O que isso significa exatamente? Que somos muito bons em produzir matérias-primas para serem processadas por outros países. São eles que ficam com a enorme riqueza gerada pelo processamento industrial e comercial do que vendemos como commodities. Eles ficam com praticamente todo o lucro que nossos produtos podem gerar em toda a cadeia de consumo que, no caso do café nos Estados Unidos, gera quase dois milhões de empregos!
Commodities têm pouca margem e, historicamente, somos o maior produtor de commodities do mundo há séculos. Começamos com o pau brasil, depois ouro e pedras preciosas, cana-de-açúcar, café, borracha e não paramos mais. Temos enorme competência para produzir matérias-primas em alta escala, e generosa incompetência em criar produtos acabados.
O que isso exigiria? De um lado uma política de estado, industrial, séria. E isso não vai acontecer. De outro, empreendedores com visões de negócio mais profundas e estratégicas, estruturadas e orientadas para agregar valor, mas o imediatismo e a falta de cultura empresarial e de integração internacional, estacionamos. Sim, somos um nanico no comércio internacional, ainda que existam narrativas ufanistas falando o contrário.
Historicamente somos uma economia fechada, protegida por interesses de grupos que, há séculos, são mantidos com privilégios de políticas públicas que envolvem subsídios e proteção da competição internacional, através de sobretaxas de importação. Nesse cenário em que não existe exposição à competição, ficar à sombra do estado é um ótimo negócio para tais grupos, mas é péssimo para o país porque nada prospera. Nada.
É diante destes fatos que a gigantesca indústria de carne bovina do Brasil navega. Um oligopólio com meia dúzia de players domina todo o negócio através de uma equação simples: quem tem a demanda tem o mercado. No Brasil ou no exterior.
E o que dá escala e rapidez é vender commodity, carne bovina in natura para o mercado nacional e congelada para exportação, sem qualquer tipo de processamento. São traseiros e dianteiros inteiros ou desossados, com baixo processamento. Basicamente nossa carne é exportada para produção de hambúrguer, salsicha e outros processamentos para fast food, ou seja, volumes imensos de matéria-prima exportada para gerar empregos e riqueza lá fora.
Em 2024 exportamos cerca de 3 milhões de toneladas de carne bovina, e consumimos internamente cerca de 7 milhões de toneladas. Desse volume para o mercado interno, cerca de 500 mil toneladas são de carne prime, um mercado que cresce cerca de 20% ao ano, o que indica claramente mudanças de hábitos e maior exigência para cortes selecionados, tanto para a alta gastronomia quanto food service urbano.
Estes dados indicam claramente que temos demanda reprimida e demanda latente para carnes prime no Brasil, que custam de 2 a 5 vezes mais que as carnes tradicionais. Tanto pecuaristas quanto frigoríficos não estão dando a devida atenção à essa demanda diferenciada, de variados nichos, o que significa enorme desperdício de oportunidades.
No mundo, o mercado para carnes prime/premium é de cerca de US$ 35 bilhões. É um mercado exigente que paga de 50% a 200% ou mais por cortes selecionados. Nós temos potencial para abocanhar parte desse mercado, mas, de forma geral, nossos pecuaristas não querem realizar as mudanças e o trabalho que esse mercado exige.
Há ainda mercados de nicho totalmente inexplorados ou desconhecidos da maioria dos produtores e frigoríficos, no Brasil e no exterior. Um exemplo: as rações de carnes para forças armadas em todo o mundo, um mercado de carnes enlatadas com volumes de 200 mil toneladas e valor estimado em US$ 1,2 bilhão.
Vivemos um misto de hipermetropia (dificuldade de enxergar perto) e miopia (dificuldade de enxergar longe). De outro lado, os pecuaristas em sua esmagadora maioria, pratica a pecuária tradicional, de baixo desempenho, com abate de bois de 30 a 48 meses ou mais, quando os mercados mais competitivos e atrativos estão realizando o abate de novilhos de 18 a 24 meses, com expressivo avanço do mercado de novilhos precoces com abate aos 15 a 18 meses.
No Brasil, os mercados que pagam mais e exigem maior valor agregado, são atendidos majoritariamente com animais de cruzamento industrial (nelore x angus) ou raças européias criadas especialmente no sul do país. Mas também há muitos pecuaristas e produtores criando animais nelore com a aplicação de técnicas de manejo que melhoram substancialmente os resultados.
A essência do processo para aumentar ou melhorar resultados financeiros na pecuária é uma só: GESTÃO PROFISSIONAL. Este é o ponto fraco da nossa pecuária, que mantém os pecuaristas reféns de si próprios há muitas décadas, produzindo commodity em milhões de toneladas, e transferindo lucro e riqueza para os oligopólios e importadores. É por isso que um profundo estudo da Embrapa em 2020, apontou que até 2040 cerca de 50% dos pecuaristas podem deixar a atividade.
Serão excluídos porque não vão conseguir competir e atender às exigências e mudanças dos mercados, tanto no Brasil quanto no exterior. Hoje, nosso maior mercado importador é a China, e por pressões internas políticas e comerciais, já anunciou que deve adotar exigências de qualidade, sustentabilidade e controle sanitário. Quando isso ocorrer, a esmagadora maioria dos pecuaristas do Brasil não poderá atender.
É o seu caso?