Transporte público precário limita acesso à saúde e gera desigualdade

Estudo da UnB aponta que custo da tarifa e baixa qualidade do serviço restringem a mobilidade de trabalhadores, afetando especialmente a população negra.

Fonte: Pedro Rafael Vilela - Repórter da Agência Brasil - 20

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Transporte público precário limita acesso à saúde e gera desigualdade
© Marcelo Camargo/Agência Brasil

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A rotina de quem depende do transporte público nas regiões metropolitanas do Brasil revela um obstáculo persistente: a dificuldade de acesso a serviços essenciais, incluindo o atendimento médico. É o caso de Núbia Sales Veras, de 52 anos, que reside na Cidade Ocidental (GO) e trabalha em Brasília (DF). Com gastos diários de 18 reais em passagens, ela relata o impacto direto da demora e do custo elevado em seu tratamento de fibromialgia, tendo perdido consultas fundamentais pela imprevisibilidade do sistema.

Impactos desproporcionais e racismo estrutural

Um novo estudo do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), intitulado Quem pode circular? Tarifa zero, mobilidade e desigualdades raciais no acesso à cidade e aos serviços, detalha como a precariedade do transporte marcada pela superlotação e insegurança não é apenas uma questão de logística, mas de saúde pública. Segundo a pesquisa, o estresse crônico gerado por longos deslocamentos agrava quadros de ansiedade e depressão, afetando, de forma desproporcional, a população negra, que reside majoritariamente em áreas periféricas e depende exclusivamente do transporte coletivo.

O problema atinge diferentes gerações. A aposentada Helena Simão, de 72 anos, que convive com osteoporose, relata que, mesmo com a gratuidade garantida, a escassez de veículos na periferia impede o acesso regular a unidades de saúde. Os pesquisadores destacam que essa segregação urbana tem efeitos concretos: dados do DataSUS indicam, por exemplo, que mulheres negras enfrentam o dobro do risco de morte materna, fenômeno que está diretamente ligado às restrições impostas pela falta de mobilidade eficiente.

Tarifa zero como política de equidade

Diante desse cenário, os autores do estudo, entre eles o pesquisador Paíque Duques Santarém, defendem a implementação da tarifa zero universal como uma política estruturante. O objetivo é tratar o transporte como um direito universal, similar ao SUS, combatendo as barreiras econômicas que fragmentam as cidades brasileiras.

A proposta vai além do direito de ir e vir: o estudo estima que a adoção da gratuidade nas 27 capitais do país poderia injetar cerca de 60 bilhões de reais por ano na economia nacional, gerando um efeito positivo na renda das famílias comparable a programas de transferência de renda. A estratégia busca, em última análise, tensionar os padrões históricos de exclusão territorial e garantir que o direito à saúde e à cidade não seja determinado pelo CEP ou pela cor da pele do cidadão.

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