O engenheiro de pesca e engenheiro de segurança do trabalho Antônio de Almeida Sobrinho foi entrevistado pelo jornalista Mauro Brisa, do News Rondônia, em uma conversa que abordou a realidade da piscicultura na região Norte, especialmente nos estados de Rondônia e Amazonas.

Colaborador do NewsRondônia há décadas, Antônio de Almeida Sobrinho é reconhecido como um profundo conhecedor da piscicultura e um dos profissionais que contribuíram para o desenvolvimento da criação de peixes em Rondônia. Durante a entrevista, ele analisou os avanços do setor, os desafios enfrentados pelos produtores e as perspectivas para o futuro da atividade.
Antônio de Almeida Sobrinho também é conhecido pelo seu perfil acadêmico e pela dedicação constante aos estudos. Nos últimos anos, tem se destacado em editais do Governo do Estado do Amazonas, conquistando posições de destaque em processos seletivos. Seu desempenho está relacionado ao amplo currículo acadêmico, composto por diversas especializações e formações na área.
Antônio de Almeida Sobrinho é graduado em Engenharia de Pesca (UFC), com Pós-Graduação em Análise Ambiental na Amazônia Brasileira (UNIR), Pós-Graduação em Tecnologia do Pescado (UFRPE/FAO/Ministério da Agricultura), Pós-Graduação Stricto Sensu em nível de Mestrado pela UNIR (RO), Pós-Graduação em Docência no Nível Superior (UCAM/PROMINAS-MG), MBA em Gestão de Cooperativas (IFRO/Porto Velho), Licenciatura Pedagógica para Graduados não Licenciados (IFRO/UAB), Pós-Graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho (PROMINAS-MG), Pós-Graduação em Tecnologias Educacionais para a Docência da Educação Profissional e Tecnológica (UEA-AM), Pós-Graduação em Gestão da Educação a Distância (EAD) e Pós-Graduação em Ciência e Produção de Alimentos (IFRO/UAB), atualmente em fase de conclusão, prevista para 2026.
Antônio de Almeida Sobrinho, você é uma referência na criação de peixes em Rondônia. Como se explica o que vem ocorrendo com Rondônia e o Amazonas quando o assunto é produção de pescado proveniente da piscicultura? Por que o estado de Rondônia produziu na safra de 2024/2025 um volume de 55.380 toneladas de pescado, enquanto o Amazonas produziu apenas 10 mil toneladas, ocupando respectivamente o 6º e o 15º lugares no ranking nacional, segundo o Anuário Brasileiro da Piscicultura publicado pela Associação Peixe BR?
Antônio de Almeida
É relativamente fácil explicar esse fenômeno. O estado de Rondônia foi colonizado por imigrantes provenientes das regiões Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil, muitos deles já com alguma experiência na criação de peixes em seus estados de origem.
Já no estado do Amazonas, a piscicultura teve início e vem sendo desenvolvida principalmente por povos da floresta, populações tradicionais, comunidades quilombolas, pescadores ribeirinhos artesanais e povos indígenas. Essas comunidades historicamente praticam a pesca de subsistência e atividades extrativistas nas margens dos rios da bacia amazônica, o que explica diferenças no modelo de produção.
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Na última safra, o estado de Rondônia sofreu uma queda brusca na produção de pescado, passando do 3º para o 6º lugar no ranking nacional. Quais são os motivos que levaram a essa redução?
Antônio de Almeida
Os motivos são claros e perceptíveis:
• Ausência de prioridade na assistência técnica voltada à piscicultura no estado;
• Falta de planejamento estratégico e de políticas de fomento voltadas aos pequenos e médios produtores e piscicultores;
• Não utilização de mão de obra qualificada, apesar de o estado dispor de profissionais formados em Engenharia de Pesca que estão fora do mercado de trabalho;
• Fragilidade no estímulo ao cooperativismo pesqueiro, que poderia fortalecer a organização produtiva e a distribuição de renda no setor;
• Elevação contínua dos custos de produção, incluindo ração, gelo, energia elétrica, alevinos, mão de obra, transporte e comercialização;
• Redução do ritmo produtivo diante do aumento dos custos, levando muitos produtores a diminuir ou interromper a produção;
• Em decorrência da relação custo-benefício desfavorável da piscicultura na conjuntura atual, muitos piscicultores vêm abandonando a atividade, enquanto outros têm optado pela plantação de café.
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Como você visualiza a atividade da piscicultura em um futuro próximo, pensando no cenário até 2030?
Antônio de Almeida
Não é preciso ter poderes mediúnicos para visualizar o futuro da piscicultura em Rondônia. A tendência é que a atividade passe a ser exercida principalmente por empresários que possuem frigoríficos, e que já demonstram sinais de fragilidade, inclusive cogitando vender suas estruturas devido à escassez de pescado para processamento.
A Universidade Federal de Rondônia (UNIR) formou, nos últimos anos, cerca de 80 engenheiros de pesca, mas o governo não contratou esses profissionais para atuar no estado e atender a demanda da piscicultura nos 52 municípios de Rondônia.
O resultado é que muitos desses jovens passaram cinco anos estudando para se graduar em Engenharia de Pesca acreditando que poderiam contribuir com assistência técnica e extensão rural, mas não tiveram oportunidade. Muitos profissionais com graduação, mestrado e até doutorado seguem sem vínculo empregatício.
Tenho um exemplo dentro da minha própria família: minha esposa se formou em Engenharia de Pesca pela UNIR em 2018 e até hoje não possui vínculo com o Estado, embora continue estudando e se qualificando.
No meu caso pessoal, atuei durante muitos anos em Rondônia junto à EMATER-RO, com passagens pela EMBRAPA, SEDAM, SUDEPE, ELETRONORTE e também como consultor autônomo. Posteriormente me aposentei pelo INSS, recebendo um benefício bastante reduzido. Para complementar a renda familiar, precisei trabalhar no estado do Amazonas por meio de editais periódicos, sacrificando inclusive o convívio familiar e minha própria segurança.
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Como você tem contribuído para o desenvolvimento da piscicultura em Rondônia?
Antônio de Almeida
Tudo que tenho feito ao longo da minha carreira busca deixar um legado para as presentes e futuras gerações. Quando decidi escrever a coluna “Espinha na Garganta”, jamais imaginei que isso pudesse resultar em um livro.
Após vários anos e centenas de artigos publicados, resolvi reunir parte desse material e lançar o livro “Aquicultura de Rondônia : Bases para o Desenvolvimento Sustentável, no Rastro do Samurai”, em parceria com o Dr. Silvio Rodrigues Persivo Cunha.
A obra nasceu da necessidade de registrar reflexões sobre os setores pesqueiro e aquícola, que muitas vezes enfrentam dificuldades e precisam de espaço para debate e reflexão.
Durante o governo de Confúcio Moura, também tive a iniciativa de elaborar um projeto propondo a criação da Secretaria de Estado da Pesca e Aquicultura, com o objetivo de equacionar problemas estruturais da pesca e da piscicultura em Rondônia. O projeto chegou a ser analisado, considerado viável, mas acabou sendo arquivado.
A prática mostra que a atividade pesqueira exige uma estrutura administrativa específica para seu desenvolvimento. Sem planejamento e sem uma gestão dedicada ao setor, os desafios tendem a se agravar.
Quando a piscicultura ainda era uma atividade embrionária em Rondônia, poucos tiveram coragem de dar os primeiros passos e implantar os primeiros viveiros de criação de peixes. Hoje, com o setor mais consolidado, muitos surgem como especialistas, mas ainda há muito trabalho a ser feito para garantir um futuro sustentável para a atividade no estado.







































