A escrita acadêmica costuma ser um daqueles desafios silenciosos que muita gente carrega por dentro. Não é falta de inteligência, nem falta de conteúdo. É medo. Medo da página em branco, medo de não ser bom o suficiente, medo de ouvir críticas, medo de se expor. Foi com essa realidade, tão comum entre estudantes de graduação, pós-graduação, mestrado e doutorado, que o programa Prosa & Pesquisa abriu o episódio “Do medo ao método”, trazendo uma conversa direta, acolhedora e cheia de caminhos práticos.
A convidada foi Thalyta Karina Correia Chediak, mestre em Educação, mestranda em Direito e Justiça Social, professora e pesquisadora com atuação em áreas como educação, direito, políticas públicas, gênero e retórica. Ao longo do programa, ela não tratou o medo como fraqueza, mas como parte do processo de quem escreve com responsabilidade e propósito.
“Travar faz parte”, ela reforça, e às vezes a trava é até um sinal de que o pensamento está maturando. O problema, segundo a professora, é quando a trava vira prisão e a pessoa desiste antes mesmo de tentar. Nesse ponto, o episódio vira quase um respiro para quem já se sentiu pequeno diante de um artigo, um TCC ou uma pesquisa.
A conversa toca em uma dor muito atual, a síndrome do impostor, aquela sensação de que todo mundo é mais capaz, mais preparado, mais “acadêmico” do que você. Thalyta lembra que a ciência não é lugar de buscar concordância, é lugar de compartilhar conhecimento e dialogar. E, sim, haverá críticas, mas elas não são sobre quem você é, são sobre o trabalho que você apresentou naquele momento. Separar uma coisa da outra, segundo ela, muda tudo.
Quando o programa entra nas dicas práticas, o conteúdo vira aula, daquelas que fazem diferença. Para quem pergunta “por onde começo?”, ela responde com um conselho simples e poderoso, comece pelo problema. Todo mundo enxerga problemas no mundo, mas o pesquisador precisa olhar com vontade de responder, de construir solução, de transformar curiosidade em pergunta norteadora. Essa pergunta vira bússola, o ponto para o qual você volta sempre que se perder no caminho.
Um dos trechos mais úteis do episódio é quando ela explica a ideia de “fechamento”, uma espécie de arquivo pessoal de recortes, trechos, citações e referências, organizado para ser reutilizado em produções futuras. Na prática, é como montar uma caixa de ferramentas da sua pesquisa. Você guarda o que leu, o que achou relevante, e isso diminui o desespero da página em branco, porque você já tem base, já tem material, já tem direção.
E falando em página em branco, Thalyta descreve aquele looping que quase todo estudante conhece, escreve, apaga, escreve, apaga, e no fim passam horas e nada anda. A dica dela é mudar a lógica, não tente começar escrevendo parágrafos perfeitos. Comece por tópicos. Anote ideias, pontos, conceitos, exemplos, autores, e só depois transforme isso em texto corrido. Essa estratégia, além de reduzir ansiedade, ajuda a organizar o raciocínio e a dar fluidez ao trabalho.
O episódio também traz um debate necessário sobre inteligência artificial. Ela se declara entusiasta, mas alerta para o risco da desumanização da ciência quando a ferramenta substitui a reflexão. Para Thalyta, a IA pode ajudar na busca de referências, no levantamento de dados e na organização inicial, mas não deve ser usada cegamente para produzir o conteúdo, porque pode errar, atribuir autoria incorreta e oferecer análises superficiais. Ela reforça que a pesquisa científica precisa de crítica, profundidade e posicionamento, algo que não pode ser terceirizado.
No fim, o programa ganha um tom ainda mais humano quando a professora conta que já recebeu mensagem de uma pessoa tocada por um artigo antigo seu, sobre violência contra a mulher. A história mostra, de forma delicada, que publicar não é vaidade, é impacto. É dar visibilidade a uma reflexão que pode atravessar tempo, alcançar gente desconhecida e, em alguns casos, se transformar em memória, reconhecimento e até uma forma de justiça.
Em um momento de comoção vivido em Rondônia, a conversa também se conecta ao debate sobre violência contra a mulher e à dor quando a violência invade o espaço do saber. Thalyta reforça que a sala de aula precisa ser lugar de proteção, acolhimento e resistência, e que o conhecimento não pode ser tratado como campo de guerra entre professor e aluno, mas como construção coletiva.
A última orientação dela resume o espírito do episódio, comece sem estar pronto. Porque o “estar pronto” não chega, e quem espera a perfeição, engaveta projetos, adia sonhos e perde tempo. Publicar é um ato de coragem e responsabilidade. E escrever, no fim das contas, é também um ato de ousadia.









































