Artigo de opinião | Emerson Barbosa
A tragédia ainda nem esfriou e já surgem os carniceiros da internet. Civis, influenciadores e políticos que se alimentam da dor alheia para posar de “honestos”, de intérpretes morais de uma sociedade ferida. A morte da professora Juliana Matos, de 41 anos, expõe múltiplos fatores, mas talvez o mais grave seja a irresponsabilidade de quem transforma violência em palanque e sofrimento em espetáculo. Pessoas que assumem o papel de “psicólogos da sociedade”, ignorando que palavras também ferem sobretudo quando ecoam de púlpitos e tribunas.
Vivemos em uma sociedade adoecida, na qual a agressão física deixou de ser exceção e passou a anteceder o assassinato. O crime cometido contra a docente da Fimca, em Porto Velho, não é um fato isolado. E talvez esteja muito além dos 0,5 ponto apontados como explicação imediata e simplista para um crime que, cedo ou tarde, encontraria outra justificativa para acontecer.
Há, no cotidiano da docência, uma pressão constante. Professores trabalham sob exigências institucionais, muitas vezes forçados a cumprir metas e protocolos impostos por coordenações pedagógicas na tentativa de atender às determinações do Ministério da Educação (MEC). O ambiente se torna tenso. No ensino básico, a avaliação contínua já é uma realidade consolidada; no ensino superior, a cobrança também é permanente. O fato é que a morte de Juliana seguiu um enredo construído pelo próprio criminoso, que mais cedo ou mais tarde colocaria seu plano em prática.
O crime revela o cidadão em seus atos cotidianos, os valores ensinados, ou negligenciados dentro de casa e a crença equivocada de pais que transferem à escola uma responsabilidade que nunca deixou de ser familiar. Há quem não esteja emocionalmente preparado para educar, mas ainda assim o faça, empurrando para a sociedade as consequências dessa omissão.
Na noite do ocorrido, o gestor da instituição e político Maurício Carvalho divulgou nota afirmando que nenhuma professora deveria sair de casa para trabalhar e não retornar por ter sido morta em seu ambiente de trabalho. A declaração é correta, mas insuficiente. O episódio se soma a uma série de situações vividas diariamente por docentes em todo o país, que atuam sob pressão, medo e, muitas vezes, reféns de jovens que confundem direitos com licença para a violência.
Em Porto Velho, escolas têm se tornado palco de interferências políticas indevidas. Parlamentares tentam impor narrativas, atacar instituições e criar inimigos imaginários. O episódio envolvendo a Escola João Vicente Rondon é emblemático: acusações sem base foram feitas e posteriormente desmentidas. Discursos agressivos não são inofensivos. Eles legitimam comportamentos que naturalizam a humilhação, a violência e, no limite, o assassinato de mulheres.
Após a tragédia, discursos ensaiados e vídeos de ocasião não resolvem. A lógica é simples e antiga: toda ação gera uma reação. Rondônia vem sendo atravessada por gestos e palavras violentas. Há violência quando políticos desrespeitam a coisa pública, tratando bens coletivos como moeda de troca, como ocorreu na Assembleia Legislativa em benefício da concessionária Energisa.
A vida em Rondônia vem sendo banalizada. Enquanto responsabilidades continuarem sendo substituídas por discursos, a exceção seguirá se tornando regra. Quanto à vida da professora Juliana, que saiu de casa para ministrar mais uma aula, o desfecho foi abrupto e cruel. O luto oficial de três dias se encerra na segunda-feira, dia 9, quando a engrenagem humana é simplesmente substituída por outra. Assim caminha esta humanidade adoecida, em que lecionar passou a ser, cada vez mais, um ato de coragem.










































