O governo federal oficializou a criação do Assentamento Agroextrativista Elizabeth Teixeira, na zona rural dos municípios de Sobrado e Sapé, na Paraíba, encerrando o mais longo conflito de terra registrado no Brasil. A área, conhecida como Fazenda Antas, foi palco de uma disputa que atravessou mais de 60 anos e marcou a história da luta camponesa no país.
A portaria, assinada pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, garante terra e acesso a políticas públicas para 21 famílias, incluindo crédito rural e programas de apoio à agricultura familiar. O assentamento ocupa uma área de 133,4 hectares e recebeu investimento federal de aproximadamente R$ 8,3 milhões.
A região de Barra das Antas tem forte relevância histórica por ter sido o berço das Ligas Camponesas, movimento que ganhou projeção nacional a partir da atuação de João Pedro Teixeira, líder assassinado em 1962 durante a mobilização por reforma agrária. Após sua morte, a esposa, Elizabeth Teixeira, assumiu a liderança da Liga de Sapé e se tornou um dos principais símbolos da resistência camponesa.
Perseguida pela ditadura militar, Elizabeth Teixeira foi presa, teve a casa incendiada e viveu na clandestinidade por 17 anos. Sua trajetória voltou ao debate público em 1981, quando foi reencontrada durante as filmagens do documentário Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, obra que se tornou referência na memória política e social do país.
Hoje, prestes a completar 101 anos, Elizabeth vive em João Pessoa. A antiga casa da família, próxima à Fazenda Antas, foi transformada no Memorial João Pedro Teixeira, preservando a memória da luta camponesa na região.
Uma disputa que atravessou décadas
O processo de desapropriação da Fazenda Antas passou por sucessivas batalhas judiciais. Retomado no início dos anos 2000, o caso enfrentou decisões favoráveis ao antigo proprietário, incluindo pedidos de reintegração de posse e mandados de segurança que atrasaram o avanço da reforma agrária.
Em 2006, um decreto presidencial declarou a área de interesse social, mas a efetivação só ganhou força após decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2014, que manteve o decreto e afastou os recursos do fazendeiro. Mobilizações sociais, audiências públicas e ações do Incra foram determinantes para a conclusão do processo.
A criação do assentamento representa não apenas a regularização fundiária, mas também o encerramento simbólico de um dos conflitos mais emblemáticos do campo brasileiro, conectando passado, memória e políticas públicas atuais voltadas à reforma agrária.










































