Viver sem endereço fixo, transformar a estrada em lar e fazer do Brasil um território de descobertas diárias. Essa é a realidade de Ana Clara Uchôa, convidada do Bora Ali, que contou de forma leve, profunda e inspiradora como é morar dentro de um carro e viajar pelo país acompanhada da fiel parceira, a golden retriever Isis.
Natural de São José dos Campos, no interior de São Paulo, Ana Clara explicou que sua história com a estrada começou de maneira simples e nada planejada. O desejo inicial era apenas viajar mais e não deixar a cadelinha para trás. A solução veio com a compra de um Chevrolet Celta, carinhosamente chamado de “Celtinha”, que aos poucos deixou de ser apenas um meio de transporte e virou casa, abrigo e símbolo de liberdade.
Durante a entrevista, ela arrancou sorrisos ao explicar que hoje seu “CEP” é o local onde o carro está estacionado. Uma frase que resume bem sua filosofia de vida: não pertencer a um endereço, mas aos caminhos. Segundo Ana, a primeira grande viagem foi de São Paulo ao Rio Grande do Norte. Sem estrutura, sem roteiro definido e apenas com coragem, ela dormiu pela primeira vez no carro e percebeu que ali nascia algo muito maior do que férias, nascia um novo modo de viver.
A estrada, no entanto, não trouxe apenas paisagens bonitas. Ana Clara falou com sinceridade sobre os medos, as inseguranças e os desafios de ser mulher viajando sozinha pelo Brasil e pela América do Sul. Ela relembrou a travessia pela Bolívia, marcada por receio, superação e surpresa com a receptividade das pessoas. Já o Peru representou a realização de um sonho antigo, um momento de virada emocional, que lhe trouxe a certeza de que era capaz de ir além do que imaginava.
Outro ponto central da conversa foi a experiência de viajar com um animal de estimação. Isis, sempre tranquila e presente durante o programa, não é apenas companhia, mas parte essencial da jornada. Ana destacou que viajar com um pet exige cuidados extras, adaptações e, às vezes, renúncias, mas garantiu que nunca pensou em seguir sem a cadela. Para ela, dividir a estrada com Isis dá sentido à viagem e transforma cada parada em uma experiência mais humana.
Ao falar da chegada ao Norte do Brasil, Ana Clara não escondeu o encantamento. Acre e Rondônia surgiram como territórios completamente novos em sua trajetória, cheios de sabores, culturas e paisagens inéditas. O impacto ao ver o Rio Madeira, os botos, a vegetação amazônica e, especialmente, o tamanho do pirarucu, virou um dos momentos mais marcantes do relato. “É como olhar tudo com os olhos de uma criança”, resumiu.
A passagem por Porto Velho também teve um significado especial. Além de conhecer a cidade em seu aniversário, Ana participou de passeios pelo rio e se preparou para mais um capítulo da aventura: a travessia de barco até Manaus, levando o carro sobre uma balsa pelo Rio Madeira. Uma experiência que mistura expectativa, respeito pela natureza e a certeza de que cada deslocamento também é aprendizado.
No campo profissional, Ana Clara explicou que hoje vive como criadora de conteúdo. As viagens, que começaram com economias de anos de trabalho em regime CLT, se transformaram em uma minissérie documentada nas redes sociais. Instagram e TikTok passaram a ser fontes de renda, permitindo que ela continuasse na estrada e inspirasse outras pessoas. Mais do que patrocinadores, ela prefere chamar seus apoiadores de amigos, construídos ao longo do caminho.
Ao final da entrevista, a viajante deixou uma mensagem direta para quem sonha em pegar a estrada, mas ainda hesita. Segundo ela, o medo sempre vai existir, mas é justamente ele que dá sentido à coragem. “Não é ir sem medo, é ir com medo mesmo”, destacou, reforçando que a estrada ensina em poucos meses lições que a vida comum levaria anos para apresentar.
Com novos planos no horizonte, Ana Clara revelou que o Celtinha está prestes a se aposentar após a conclusão da rota pelas capitais brasileiras. O próximo passo envolve mais conforto para seguir explorando a América do Sul e, futuramente, a América Latina. Histórias que prometem novos capítulos, sempre guiados pela mesma essência: liberdade, afeto, estrada e a certeza de que viver pode ser muito mais do que ficar parado em um só lugar.










































