As imagens, apesar de mostrarem um Brasil mais próspero, bem diferente daquele de 37 anos atrás e, ao mesmo tempo, numa tentativa de se aproximar do que havia deixado no passado — como a recente saída da ditadura militar e a entrada na redemocratização —, criam na abertura atual uma espécie de “saudosismo” dos problemas fatídicos já vividos.
O descerramento de Vale Tudo revela um Brasil de nuances e rostos, onde a diversidade religiosa e cultural se estabelece como resposta àquela parcela de brasileiros que insiste em atentar contra o que o país traz intimamente de berço, com a vontade de ser livre.
Na abertura da novela mais “brasileira” de todos os tempos, as cenas revelam os novos rostos e ideais de conquista de um Brasil que desafiou o temor do golpe militar por intensos 20 anos até a consolidação da democracia. Mas é preciso reconhecer o esforço da conquista pelo povo brasileiro, que vem ressurgindo das cinzas desde o redescobrimento até a libertação com a conquista da democracia.
“O Brasil atual não pode negar suas raízes; melhorou muito graças às lutas passadas, só precisa ser atento e respeitar essas conquistas em vez de denegrir a imagem do país dando voz ao primeiro ‘louco’ que aparece na ânsia de voltar ao passado”, reflete o estudante de Letras que prefere não se identificar.
A abertura de Vale Tudo também traz à tona os programas sociais dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), revelando uma feroz crítica ao Brasil do passado. Minuciosamente, cenas da seca no Norte fazem um contraste com as mãos que, desta vez, seguram um prato de comida cheio.
“De certo, o Brasil atual também se mostra nos programas sociais implantados, principalmente pelos governos de Lula e Dilma Rousseff, ambos do Partido dos Trabalhadores (PT). Quando a imagem da terra seca se sucede a cenas com um prato de comida, desta vez cheio. Vale lembrar que, na época da primeira versão, o Brasil atravessava uma grande crise de governo, recém-saído da ditadura militar, onde o pobre, realmente, mendigava”, pontua o estudante de Arqueologia Anderfábio, que na primeira versão de Vale Tudo estava na barriga da mãe.
Ainda segundo o estudante, é preciso reconhecer os feitos, bem como respeitar os episódios que levaram a essa conquista, para que o passado não se repita.
“É preciso reconhecer o esforço da conquista pelo povo brasileiro, que vem ressurgindo das cinzas do redescobrimento até a libertação na conquista da democracia após a ditadura militar. O Brasil atual não pode negar suas raízes; melhorou muito graças às lutas passadas e atuais, e só precisa ser atento e respeitar essas conquistas.”
O homem e a mulher amazônida na abertura do remake de Vale Tudo, novela de grande sucesso dos anos 1980 da TV Globo. O Norte se enxerga na abertura do folhetim, mas também critica a pouca visibilidade da cultura retratada na chamada do folhetim.
“Início com cortes bem feitos, mostrando as belezas do Brasil, como o meio ambiente e o Rio de Janeiro, de onde são a maioria das imagens. Em vez de apenas feijão, por que não representar também o Norte com o açaí? Faltou, como sempre, a representação do Norte do Brasil; ele é esquecido. Por que não incluir as danças do Boi-Bumbá de Parintins?”, lamenta a artista plástica Gleyciane Prata.
De Rondônia, a imagem do mototaxista com quem não conseguimos contato revela a existência de um povo e suas raízes “beradeiras”. Na cena, o homem surge nas margens do rio Madeira, mostrando como cenário de fundo a margem esquerda em direção à usina hidrelétrica localizada na capital, Porto Velho. As cenas fazem parte de um trabalho produzido por profissionais da afiliada.
E, como não poderia faltar, a Globo faz uma crítica ao governo de Jair Bolsonaro na imagem de um relógio e um colar, simbolizando o Rolex e o cordão de diamantes que Bolsonaro teria vendido. A cena também traz um homem tentando reaver as joias, simulando o famoso caso, negado por agentes da Receita Federal.
“Só faltaram as imagens do vandalismo de 8 de janeiro, quando a sede dos Três Poderes foi destruída por simpatizantes do bolsonarismo. Aquilo foi o Brasil atual”, finaliza o estudante.