O Brasil deve agir com cautela entre Estados Unidos e Irã após a ofensiva militar registrada neste sábado (28). A avaliação é de especialistas em relações internacionais ouvidos pela Agência Brasil, que apontam o delicado equilíbrio diplomático envolvendo interesses comerciais com Washington e laços estratégicos com Teerã no âmbito do Brics.
Em nota oficial, o governo brasileiro condenou a escalada militar e reafirmou a defesa do diálogo como caminho para a paz. O posicionamento foi divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores, que pediu respeito ao direito internacional e proteção de civis.
Equilíbrio diplomático
O desafio brasileiro envolve dois polos sensíveis: de um lado, os Estados Unidos, com quem o Brasil negocia tarifas comerciais; de outro, o Irã, que integra o BRICS ao lado de potências como Rússia e China.
O professor Feliciano de Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o Itamaraty precisa construir uma “posição intermediária”, evitando alinhamento automático com qualquer um dos lados.
A situação se torna ainda mais sensível diante da expectativa de um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente norte-americano Donald Trump, previsto para o fim de março.
Brics e ordem internacional
O professor aposentado Williams Gonçalves, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), destaca que o Brasil é fundador do Brics e compartilha com os membros a defesa de maior protagonismo do chamado Sul Global.
O Irã passou a integrar formalmente o grupo em 2024, ampliando o peso político do bloco. Rússia e China, aliados estratégicos de Teerã, também são membros fundadores.
Segundo Gonçalves, a tradição diplomática brasileira é pautada pelos princípios da autodeterminação dos povos e da não ingerência em assuntos internos de outros países — fundamentos que limitam qualquer apoio a iniciativas de mudança de regime.
Impactos econômicos
Embora distante geograficamente do conflito, o Brasil pode sentir reflexos indiretos, especialmente se houver alta no preço do petróleo. O aumento da commodity tende a pressionar a inflação e afetar cadeias produtivas.
Outro ponto de atenção é o comércio bilateral. Em 2025, a corrente de comércio entre Brasil e Irã somou cerca de US$ 3 bilhões. O Brasil exporta principalmente milho e soja ao país do Oriente Médio.
Para o pesquisador Leonardo Paz Neves, da Fundação Getulio Vargas (FGV), o posicionamento brasileiro deve permanecer “crítico institucional”, defendendo negociações, mas sem protagonismo direto no conflito.
Especialistas avaliam que, diante de um cenário imprevisível, o Brasil tende a reforçar sua diplomacia tradicional: condenar a violência, defender o diálogo e evitar movimentos que possam prejudicar relações estratégicas em um contexto global já marcado por instabilidade.










































