O Conselho Presidencial de Transição do Haiti encerrou oficialmente seu mandato e deixou o comando do país nas mãos do primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé após pressão direta dos Estados Unidos, que ameaçaram intervir caso houvesse ruptura no Executivo haitiano.
A decisão foi anunciada durante cerimônia em Porto Príncipe. O presidente do conselho, Laurent Saint-Cyr, afirmou que a saída do colegiado não deixa um vazio de poder e que o Conselho de Ministros seguirá governando sob liderança do primeiro-ministro, com foco em segurança, diálogo político, eleições e estabilidade institucional.
O conselho assumiu o poder em abril de 2024, após a renúncia do então primeiro-ministro Ariel Henry, que governava desde o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021. Formado por nove representantes de diferentes setores da sociedade, o grupo tinha como missão conduzir a transição política, preparar eleições gerais e recuperar territórios dominados por gangues armadas.
Apesar de debates internos, não houve consenso para a nomeação de um presidente interino que dividisse o comando do país com o primeiro-ministro. O impasse se agravou às vésperas do fim do mandato, quando o conselho anunciou a intenção de destituir Fils-Aimé do cargo.
A movimentação provocou reação imediata do governo dos Estados Unidos. A administração do presidente Donald Trump enviou três navios de guerra à Baía de Porto Príncipe e declarou que qualquer tentativa de mudança no comando do Executivo seria vista como ameaça à estabilidade regional.
Segundo a embaixada americana no Haiti, a presença militar integra uma operação voltada a garantir segurança e continuidade institucional no país. O comunicado afirmou que Washington tomaria “medidas adequadas” diante de qualquer alteração forçada no governo haitiano.
Para o professor aposentado de relações internacionais da Universidade Federal de Santa Maria, Ricardo Seitenfus, especialista em Haiti, houve uma tentativa de golpe político dentro do próprio conselho. Segundo ele, o primeiro-ministro demonstrou capacidade de articulação e passou a incomodar setores que queriam substituí-lo antes do fim da transição.
Seitenfus, que esteve recentemente no Haiti, avalia que houve avanços na área de segurança, com a retomada gradual de bairros antes controlados por gangues. Ainda assim, destaca que a prioridade absoluta deve ser a realização de eleições, já que o país não vai às urnas desde 2016.
Desde 2021, o Haiti enfrenta uma crise profunda marcada por instabilidade política, violência armada e colapso institucional. Entre as medidas adotadas estão missões internacionais de apoio à segurança, incluindo forças policiais lideradas pelo Quênia e uma força multinacional aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU.
Com o fim do conselho de transição, o país entra em uma nova fase, sob forte vigilância internacional, pressionado a avançar na organização de eleições e na reconstrução mínima da ordem institucional.








































