Os ataques dos Estados Unidos à Venezuela representam riscos diretos à ordem multilateral construída após a Segunda Guerra Mundial e acendem um alerta para a estabilidade da América Latina. A avaliação é de pesquisadores ouvidos pela Agência Brasil, que veem na ação uma ruptura grave com os princípios do direito internacional.
No sábado, forças militares norte-americanas realizaram uma incursão em território venezuelano, retirando à força o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores. A operação provocou confrontos armados, mortes de integrantes das forças de segurança e explosões em Caracas. Maduro foi levado para Nova York, onde, segundo o governo dos EUA, responderá a acusações relacionadas ao tráfico internacional de drogas.
Para o cientista político Bruno Lima Rocha, professor de relações internacionais, a ação configura um ataque direto à soberania de um Estado. Segundo ele, não existe respaldo legal para que os Estados Unidos atuem como “polícia do mundo”, tampouco autorização da ONU ou de qualquer organismo internacional para capturar um chefe de Estado em exercício.
Na análise do pesquisador, mesmo que houvesse acusações contra Maduro, a via correta seria institucional. A operação, afirma, rompe com regras básicas do sistema internacional e abre precedentes perigosos, especialmente para países que detêm grandes reservas de recursos naturais estratégicos, como petróleo e minerais críticos.
Outro ponto de preocupação levantado por especialistas é o impacto regional. Para Rocha, países sul-americanos com riquezas minerais de interesse global passam a correr riscos maiores, dependendo de suas escolhas políticas e econômicas. O Brasil, embora visto hoje como menos vulnerável, poderia enfrentar tensões caso adotasse políticas mais restritivas sobre exploração de recursos ou fortalecesse alianças fora do eixo tradicional.
O professor Gustavo Menon, da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Católica de Brasília (UCB), avalia que o Brasil se encontra em uma posição diplomática delicada. Segundo ele, a tendência do governo brasileiro é reforçar a defesa da diplomacia, da não intervenção e da solução pacífica dos conflitos, mantendo coerência com sua tradição internacional.
Menon destaca que a intervenção armada em solo sul-americano quebra o entendimento histórico da região como zona de paz. Para ele, a ação dos EUA viola tanto normas do direito internacional quanto regras internas do próprio sistema político norte-americano, já que não houve autorização formal do Congresso dos Estados Unidos.
Do ponto de vista global, os especialistas apontam que o episódio fragiliza ainda mais as instituições multilaterais criadas no pós-guerra, como a Organização das Nações Unidas. A percepção é de que o sistema internacional baseado em regras sofre um abalo profundo, ao ser desconsiderado por uma das principais potências mundiais.
A preocupação agora se volta aos próximos passos dos Estados Unidos na região. A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do planeta e integra a Amazônia, fatores que ampliam seu peso geopolítico. Para os pesquisadores, a mensagem enviada ao mundo é clara: a disputa por recursos naturais tende a se intensificar, com riscos crescentes para a soberania dos países latino-americanos.






































