Em meio à expansão recente do setor editorial e livreiro no Brasil, profissionais que atuam nos bastidores dos livros destacam o propósito, o amor pela literatura e também as dificuldades financeiras e estruturais enfrentadas ao longo da carreira. Relatos de editores e tradutores ouvidos pela Agência Brasil revelam trajetórias marcadas por dedicação, jornadas extensas e vínculos profundos com as obras que ajudaram a construir.
Editor autônomo e publisher, Hugo Maciel de Carvalho iniciou a carreira no Direito, mas encontrou no universo dos livros um caminho definitivo. Ele afirma que perdeu a conta de quantos títulos já tiveram seu nome nos créditos, mas ressalta que o maior valor está no impacto simbólico do trabalho.
Para Hugo, participar da construção de uma obra que pode marcar a vida de alguém é o que dá sentido à profissão. Entre os livros mais importantes de sua trajetória, ele destaca “A Terra Árida”, de T.S. Eliot, em tradução de Gilmar Leal Santos, primeiro título publicado por seu selo editorial.
O editor também cita obras que ajudam a refletir sobre o presente e o futuro, como “Autonorama”, de Peter Norton, e “Estrada para Lugar Nenhum”, de Paris Marx, que analisam escolhas políticas, infraestrutura urbana e concentração de poder. Outro projeto marcante, ainda inédito, é “A Escada de Jacó”, da escritora russa Liudmila Ulítskaia, romance que atravessa gerações da história russa ao longo do século 20.
Leitura como herança afetiva
A relação de Hugo com os livros também é familiar. Ele lê diariamente para o filho desde o nascimento e mantém visitas semanais a bibliotecas públicas. O hábito, segundo ele, fortalece a memória afetiva e o vínculo entre gerações.
Foi o avô quem despertou seu interesse pela edição, ao confiar a ele, ainda adolescente, a leitura crítica de um manuscrito mantido em segredo. O trabalho conjunto resultou na publicação do livro e em outros quatro projetos antes da morte do avô. Hugo afirma que ainda pretende publicar as obras completas dele.
Apesar do afeto, o editor relata que o trabalho exige foco extremo, releituras constantes e longas madrugadas de dedicação. Ele também destaca a baixa remuneração e a irregularidade da demanda, realidade comum para revisores e editores independentes.
Editoras independentes como espaço de sentido
Para Florencia Ferrari, sócia da editora Ubu, muitas editoras independentes nascem do desejo de publicar obras admiradas pelos próprios editores. Ela define a Ubu como uma plataforma de projetos, pautada por colaboração, aprendizado e um ambiente de trabalho saudável.
Florencia afirma que o trabalho editorial vai além da geração de renda e envolve uma postura ética e política, marcada pela atitude crítica e pelo compromisso com o pensamento e a cultura, sem necessariamente assumir um caráter militante.
Mais de 500 livros traduzidos
Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e tradutor, Adail Sobral soma mais de 500 livros traduzidos e já integrou o júri do Prêmio Jabuti em diversas edições. Ele iniciou na tradução de forma acadêmica, ainda na pós-graduação, e acabou se apaixonando pela atividade.
Entre os trabalhos mais marcantes, Adail cita “O Herói de Mil Faces”, de Joseph Campbell, além de “A Troca Simbólica e a Morte”, de Jean Baudrillard, e as obras completas de Santa Teresa de Jesus, um projeto que exigiu um ano inteiro de dedicação intensa.
Apesar da realização pessoal, o tradutor relembra períodos de exaustão, com jornadas de até 14 horas diárias, e aponta a desvalorização profissional como um problema persistente no setor. Segundo ele, grandes editoras impõem valores baixos, enquanto as menores têm pouca margem de negociação.
Adail observa que traduções técnicas e trabalhos para clientes estrangeiros costumam oferecer melhor remuneração, mas reforça que, mesmo diante das dificuldades, a literatura segue sendo o principal elo que mantém os profissionais no ofício.









































