Projetos urbanos desenvolvidos no Brasil estão sendo apresentados pela Organização das Nações Unidas (ONU) como referência para países do chamado Sul Global — nações em desenvolvimento que enfrentam desafios semelhantes em áreas como sustentabilidade, planejamento urbano e inclusão social. A seleção reúne experiências que já demonstraram impacto concreto em comunidades locais e que podem ser adaptadas a outras realidades.
Um dos destaques é o projeto Planos de Bairro, executado na Ilha de Maré, em Salvador. A iniciativa beneficiou cerca de 4 mil moradores distribuídos em 12 comunidades, seis delas reconhecidas como quilombolas. O trabalho integrou lideranças comunitárias, poder público, universidades e organizações locais em um processo de diagnóstico participativo e planejamento territorial.
Para a pescadora quilombola Marizélia Lopes, a proposta fortaleceu a relação entre preservação ambiental e geração de renda. Segundo ela, natureza e modo de vida estão interligados, o que exige soluções que respeitem o território e a cultura local.
Outro projeto selecionado vem do Recife, com os Jardins Filtrantes do Parque do Caiara, uma solução baseada na natureza para tratamento de água. Implantado na foz do Riacho do Cavouco, o sistema ocupa cerca de 7 mil metros quadrados e utiliza 7,5 mil plantas aquáticas nativas para filtragem antes da água chegar ao Rio Capibaribe. Além dos ganhos ambientais, a intervenção valorizou o espaço urbano e ampliou o uso comunitário do parque.
A seleção faz parte do programa Simetria Urbana, criado em 2023 em parceria entre o governo brasileiro — representado pela Agência Brasileira de Cooperação do Ministério das Relações Exteriores — e o ONU-Habitat. A chamada pública reuniu iniciativas de governos locais, instituições públicas, organizações civis e comunidades, alinhadas ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11, que trata de cidades e comunidades sustentáveis.
Entre as experiências escolhidas está também o programa Marias na Construção, de Salvador, voltado à capacitação profissional de mulheres em situação de vulnerabilidade social, incluindo vítimas de violência doméstica. Em dois anos, mais de 600 mulheres concluíram cursos que ampliam oportunidades de inserção no mercado de trabalho.
De acordo com a arquiteta urbanista Laura Lacastagneratte de Figueiredo, analista do ONU-Habitat, a proposta é transformar boas práticas brasileiras em instrumentos de cooperação internacional. A sistematização dessas experiências permite que outros países adaptem políticas públicas com base em soluções já testadas.
O conjunto inclui ainda iniciativas como formação socioambiental de jovens no Ceará, centros comunitários em áreas vulneráveis do Recife, projetos de habitação social em Niterói e o desenvolvimento de ônibus híbrido elétrico-hidrogênio em Maricá. A expectativa é que o intercâmbio fortaleça capacidades locais e acelere ações de desenvolvimento urbano sustentável em diferentes contextos.










































