A presença de moscas hematófagas e “moscas de incômodo” em bovinos não é apenas um desconforto visível no pasto. O ataque constante altera comportamento, reduz tempo de pastejo e ruminação, piora a conversão alimentar e abre portas para infecções secundárias em pele e feridas. Em um país com 238,2 milhões de cabeças de bovinos (dado mais recente da Pesquisa da Pecuária Municipal), a escala do problema transforma pequenas perdas individuais em um impacto relevante para a rentabilidade.
Do ponto de vista prático, o desafio de 2026 não está só em “matar a mosca”, mas em controlar a infestação com estratégia, evitando o ciclo de aplicações repetidas que aceleram a resistência a inseticidas e elevam custos. O controle eficiente começa ao reconhecer a espécie predominante, o nível de infestação e o momento certo de intervir.
A mosca-dos-chifres e outras moscas relevantes no rebanho
No campo, a principal referência costuma ser a mosca-dos-chifres (Haematobia irritans), parasita hematófago que permanece grande parte do tempo sobre o animal, alimentando-se várias vezes ao dia. Além do estresse, a picada frequente aumenta a agitação e leva a movimentos defensivos (abanar de cauda, bater de patas, agrupamento), com gasto energético e redução do desempenho.
Há ainda a mosca doméstica (Musca domestica) e espécies associadas a ambientes com maior acúmulo de matéria orgânica, além de moscas que se beneficiam de feridas e lesões. Em sistemas com confinamento, semiconfinamento ou alta lotação em cochos e saleiros, o componente ambiental tende a ganhar peso e exige ações complementares ao tratamento direto nos animais.
Danos produtivos e sinais de alerta no manejo
A infestação não precisa ser “extrema” para causar prejuízo. Publicações técnicas brasileiras usadas em extensão rural apontam um parâmetro didático: um bovino com cerca de 500 moscas pode apresentar, ao longo de um ano, perda aproximada de 40 kg de peso vivo e cerca de 2,5 litros de sangue, além de queda de produção em vacas em lactação em situações de alta pressão parasitária.
No manejo diário, alguns sinais ajudam a definir prioridade:
- Aglomeração de animais em áreas de sombra ou água em horários incomuns, buscando alívio;
- Inquietação persistente no pastejo, com redução do tempo de bocados;
- Lesões de pele, dermatites e piora do aspecto do pelame;
- Diferenças de desempenho entre lotes semelhantes (idade, raça, categoria), especialmente no período de maior desafio climático.
Em 2026, também ganhou força, na imprensa agro, a discussão sobre retorno econômico de intervenções pontuais: reportagens repercutiram estimativas técnicas de que investimentos baixos por animal em medidas de controle, quando bem posicionados, podem se traduzir em ganho de peso adicional no ciclo produtivo. O ponto central, porém, é que o “barato” deixa de ser barato quando a fazenda entra em espiral de reaplicações e falhas por resistência.
Resistência a inseticidas como risco sanitário e financeiro
A resistência não é uma hipótese abstrata; é um fenômeno documentado no Brasil. Um estudo de abrangência nacional publicado na Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária (SciELO) descreveu resistência generalizada a piretróides em populações de mosca-dos-chifres, indicando que decisões de manejo baseadas apenas em “trocar a marca” sem estratégia podem manter o problema.
Na prática, o uso repetitivo do mesmo princípio ativo, subdosagens, intervalos inadequados e aplicação fora do momento de maior suscetibilidade populacional selecionam sobreviventes e reduzem a vida útil das moléculas. O resultado costuma aparecer como:
- queda rápida de eficácia percebida;
- encurtamento do intervalo entre tratamentos;
- aumento do custo por cabeça;
- maior pressão de moscas no período crítico.
Controle integrado na fazenda: combinação de medidas, não um único produto
Controle integrado significa organizar o manejo para reduzir a pressão de moscas com múltiplas barreiras, diminuindo a dependência de uma única tecnologia. Essa abordagem costuma ser mais estável e sustentável ao longo dos ciclos.
Critérios de decisão: quando tratar e quando monitorar
O tratamento não precisa ser contínuo. Ele precisa ser oportuno. Publicações técnicas e experiências de campo indicam que decisões baseadas em monitoramento evitam desperdício e reduzem seleção de resistência. Para isso, é útil:
- Estimar infestação por observação padronizada (mesmo horário, mesmo ponto do corpo, amostra de animais do lote);
- Registrar data, produto e resposta, para identificar padrão de falha;
- Priorizar categorias mais sensíveis, como animais em recria/engorda e vacas em lactação, conforme objetivo do sistema.
Manejo ambiental e redução de criadouros
Em áreas de maior permanência do gado (curral, cocho, bebedouro), matéria orgânica úmida e acúmulo de esterco aumentam a disponibilidade de substrato para desenvolvimento de moscas não parasíticas. Medidas simples, quando executadas de forma rotineira, reduzem a pressão:
- limpeza e drenagem de áreas encharcadas;
- manejo de restos de ração e acúmulo de esterco em pontos críticos;
- ajuste de lotação e distribuição de cochos para evitar concentração.
Em sistemas intensivos, esse componente é tão importante quanto o “tratamento no animal”, porque diminui a população emergente que reinfesta o lote.
Rotação de princípios ativos e aplicação correta
Quando a escolha inclui inseticidas, a lógica mais segura envolve:
- rotação de classes químicas (não apenas de marcas), conforme orientação técnica;
- respeito a dose, via e intervalo do rótulo;
- atenção a período de carência e exigências de destino (leite/carne);
- avaliação de eficácia pós-tratamento para identificar suspeita de resistência.
É nesse ponto que a seleção de soluções confiáveis e o suporte técnico fazem diferença para evitar “tentativa e erro” com o rebanho.
Opções de tratamento e como escolher uma estratégia segura
As ferramentas disponíveis incluem produtos de ação tópica, sistêmica e dispositivos de liberação controlada. A escolha depende de categoria animal, sistema de produção, grau de infestação e histórico de uso na propriedade.
Antes de definir um protocolo, é recomendado alinhar três perguntas operacionais:
- Qual espécie/complexo de moscas predomina e em qual época do ano?
- Qual foi a classe química mais usada nas últimas estações?
- O objetivo é redução imediata (surto) ou controle estratégico ao longo da estação?
Nesse contexto, materiais técnicos e páginas de orientação que consolidam opções ajudam a reduzir erro de escolha e a melhorar a execução no campo. Em um plano de manejo sanitário, a consulta a um guia específico sobre remédio para mosca no gado contribui para organizar alternativas por tipo de produto, entender indicações e reforçar cuidados de uso, o que tende a melhorar a eficácia real e diminuir reaplicações desnecessárias. A coerência entre estratégia, classe química e aplicação correta costuma ser o divisor de águas entre “alívio por poucos dias” e controle sustentado.
O papel do bem-estar animal e da produtividade no resultado
O controle de moscas não se resume a estética do lote. Ele se conecta a bem-estar, comportamento alimentar e regularidade de ganho de peso. Quando a pressão é reduzida, o animal tende a expressar melhor seu potencial genético e a fazenda ganha previsibilidade, inclusive na programação de manejo (pesagens, apartações, protocolos sanitários).
Ao mesmo tempo, o controle sem critério aumenta risco de resíduos, falhas e resistência. Por isso, a recomendação mais consistente é tratar a mosca como um tema de manejo integrado, com monitoramento, execução disciplinada e revisão anual do histórico da propriedade.
Em 2026, o controle de moscas no gado é uma pauta de produtividade, bem-estar e gestão de risco. A combinação de monitoramento, medidas ambientais, uso correto e rotação racional de princípios ativos reduz perdas e protege a eficácia das ferramentas disponíveis. Em um rebanho nacional de centenas de milhões de cabeças, decisões pequenas, repetidas com método, sustentam resultado grande ao longo da safra.
Referências:
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Valor da produção da pecuária e da aquicultura chega a R$ 132,8 bilhões em 2024; efetivo bovino atinge 238,2 milhões de cabeças. 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/44534-valor-da-producao-da-pecuaria-e-da-aquicultura-chega-a-r-132-8-bilhoes-em-2024-com-recorde-nas-producoes-de-leite-ovos-de-galinha-e-mel.
EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA (EMBRAPA). Mosca-dos chifres: como identificar e controlar. (Infoteca-e, art013). s.d. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/564845/1/art013.pdf.
EMPRESA DE ASSISTÊNCIA TÉCNICA E EXTENSÃO RURAL DO ESTADO DE MINAS GERAIS (EMATER-MG). Controle de mosca dos chifres em bovinos. 2024. Disponível em: https://www.emater.mg.gov.br/download.do?id=89446.
BARROS, A. T. M. et al. Susceptibility of the horn fly, Haematobia irritans irritans (Diptera: Muscidae), to insecticides in Brazil. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbpv/a/Lzqpmw7NTB9x5XWyFVYVQdy/?lang=en&format=pdf.
REDEPRESS. Com investimento de aproximadamente R$ 7 contra a mosca-dos-chifres, rebanho bovino pode ganhar até 15,8 quilos adicionais em peso. 2026. Disponível em: https://redepress.com.br/noticias/2026/01/com-investimento-de-aproximadamente-r-7-contra-a-mosca-dos-chifres-rebanho-bovino-pode-ganhar-ate-158-quilos-adicionais-em-peso/.









































