O tempo de espera por um transplante de córnea no Brasil mais que dobrou em dez anos. De acordo com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), a média, que era de 174 dias em 2015, subiu para 374 dias em 2024. A entidade alertou que a tendência é de crescimento, já que nos primeiros seis meses de 2025, o indicador estava em 369 dias. Os dados foram divulgados durante o 69º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, em Curitiba.
Para o CBO, a situação se deve a fatores como o congelamento dos repasses para os procedimentos, o impacto da pandemia de covid-19 e o aumento das exigências para os bancos de olhos, cujos custos de insumos são cotados em dólar. As dificuldades financeiras e o represamento de pacientes causados pela pandemia contribuíram significativamente para o problema.
O levantamento também aponta a necessidade de adequação às novas exigências de gestão de qualidade e produção das córneas, que encarecem o processo para os bancos de olhos. “Essas causas alinhadas geram uma fatura que não fecha para o banco de olhos, que recebe a mesma coisa que há uma década, quando não existiam tantos requerimentos na legislação”, ressaltou o CBO.
Filas e desempenho por estado
A fila por transplante de córnea varia muito entre os estados brasileiros. Enquanto Acre, Alagoas e Rio Grande do Norte registraram mais de mil dias de espera em 2024, estados como Ceará (58 dias), Santa Catarina (164 dias) e São Paulo (247 dias) apresentaram desempenho mais favorável. O Rio de Janeiro teve a maior espera, chegando a 1.424 dias.
Atualmente, 31.240 pessoas estão na fila nacional. São Paulo concentra o maior número de pacientes (6.617), seguido por Rio de Janeiro (5.141) e Minas Gerais (4.346). O público mais afetado é o de mulheres (55,7%) e pessoas com mais de 65 anos (47%), refletindo o envelhecimento populacional e o aumento de doenças degenerativas da córnea.
Apesar da preocupação com o aumento do tempo de espera, o CBO enfatiza que o Brasil mantém um bom desempenho em nível internacional, comparável a países como Canadá e Austrália. Entre janeiro de 2015 e julho de 2025, foram realizadas mais de 150 mil cirurgias no país, com destaque para São Paulo, que realizou 52.913 procedimentos no período.