A reunião extraordinária do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA), realizada nesta terça-feira (6), evidenciou a profunda divisão política no continente americano diante da ação militar dos Estados Unidos na Venezuela e do sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores.
O encontro, realizado em Washington (DC), não resultou em negociações formais, resoluções ou documentos oficiais. Representantes dos países-membros e Estados observadores limitaram-se a manifestações individuais, que deixaram clara a polarização em torno da crise venezuelana.
Países alinhados aos EUA defendem intervenção
Governos como Argentina, Equador, Paraguai e El Salvador, alinhados à política externa dos Estados Unidos, manifestaram apoio explícito à ofensiva em Caracas.
O embaixador da Argentina, Carlos Bernardo Cherniak, elogiou a postura do governo norte-americano e afirmou confiar que a ação represente um avanço contra o que chamou de “narcoterrorismo” na região. Já a embaixadora do Equador, Mónica Palencia, declarou solidariedade às vítimas do regime venezuelano e defendeu ações “decididas e concretas” para pôr fim à ditadura no país.
Brasil e aliados defendem soberania e diplomacia
Em sentido oposto, Brasil, Chile, Colômbia, México e Honduras condenaram a ação militar, defendendo a soberania dos Estados, o direito internacional e a busca de soluções diplomáticas e multilaterais para a crise.
O embaixador do Brasil na OEA, Benoni Belli, classificou os bombardeios e o sequestro do presidente venezuelano como uma “afronta gravíssima” à soberania nacional e alertou para o precedente perigoso que tais atos podem gerar na comunidade internacional.
O representante do México, Alejandro Encinas, também condenou a ofensiva, classificando-a como agressão unilateral e defendendo uma reflexão hemisférica baseada na democracia, na paz e na estabilidade regional.
Venezuela segue sem voz na OEA
Apesar de ainda constar como membro da organização, a Venezuela não teve direito a manifestação oficial durante a reunião. O país vive um limbo institucional dentro da OEA desde 2017, quando o governo de Maduro anunciou sua saída do organismo.
Após as eleições presidenciais de 2018, contestadas internacionalmente, a OEA deixou de reconhecer o mandato de Maduro e passou a aceitar um representante indicado por Juan Guaidó, então líder da oposição. Com o enfraquecimento político de Guaidó, nenhum novo representante venezuelano foi reconhecido, mantendo o país afastado dos debates formais.
Discurso cauteloso do secretário-geral
O secretário-geral da OEA, Albert Ramdin, evitou se posicionar diretamente sobre a ação dos Estados Unidos. Em discurso equilibrado, elogiou as manifestações dos países e ressaltou a importância do multilateralismo, do respeito à soberania e à ordem constitucional.
Ao mesmo tempo, defendeu a necessidade de uma transição democrática na Venezuela, afirmando que um país estável e democrático é benéfico para todo o hemisfério.
China e EUA trocam acusações
A reunião também evidenciou a disputa geopolítica entre Estados Unidos e China por influência na região. O embaixador norte-americano Leandro Rizzuto acusou Pequim de tentar ampliar sua presença estratégica na Venezuela, citando interesses em recursos naturais.
A representante chinesa rebateu as declarações, classificando-as como falsas e injustificadas. Segundo ela, a ação militar dos EUA viola o direito internacional e ameaça a paz regional, enquanto a cooperação entre China e Venezuela ocorre entre Estados soberanos, dentro das normas legais.
Polarização sem consenso
O encontro reforçou o cenário de fragmentação política nas Américas, sem consenso sobre os caminhos para a crise venezuelana. A ausência de decisões concretas na OEA evidencia as dificuldades do organismo em mediar conflitos de alta complexidade em um ambiente marcado por disputas ideológicas e geopolíticas.









































