A proliferação de intervenções estruturais para conter o avanço do mar nas costas brasileiras tem colocado pesquisadores e gestores públicos em rota de colisão. Obras como o alargamento artificial de faixas de areia, construção de molhes e muros de contenção, embora populares em destinos turísticos, trazem efeitos colaterais que podem alterar permanentemente a dinâmica das ondas e a salubridade das águas. Na última semana, o Ibama multou o governo do Paraná em R$ 2,5 milhões devido ao uso inadequado de sacos plásticos em Matinhos, evidenciando como medidas emergenciais podem agravar a fragilidade ambiental da zona costeira.
Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina destacam que o aumento artificial da orla modifica os padrões de circulação hídrica, o que pode deteriorar a balneabilidade e elevar o risco de afogamentos em áreas onde o relevo submarino foi alterado. O professor Alexander Turra, da USP, ressalta que essas barreiras rígidas frequentemente transferem o problema erosivo para praias vizinhas, criando um ciclo de dependência de novas obras. Esse fenômeno é intensificado pela ocupação histórica de áreas de dunas e restingas, ecossistemas que originalmente funcionavam como escudos naturais contra a força das marés.
Como alternativa ao uso de concreto e intervenções invasivas, cientistas propõem o fortalecimento de defesas naturais. Ambientes como manguezais, recifes de coral e vegetação nativa de orla são capazes de absorver a energia oceânica de forma dinâmica, mantendo a estabilidade dos sedimentos. De acordo com a bióloga Janaína Bumbeer, esses ecossistemas oferecem proteção robusta e benefícios econômicos, como a sustentação de grande parte das espécies pesqueiras comerciais do país. No Nordeste, os corais protegem a infraestrutura litorânea de danos estimados em bilhões de reais ao funcionarem como amortecedores de tempestades.
Diante do cenário de mudanças climáticas, a preservação dessas áreas torna-se uma prioridade estratégica. Diferente das estruturas estáticas feitas pelo homem, ecossistemas saudáveis possuem a capacidade de se adaptar e acompanhar o crescimento do nível das águas. Para a comunidade científica, o ordenamento do litoral deve ser pautado em evidências técnicas que assegurem a longevidade das praias como um patrimônio público. Priorizar o restauro ambiental sobre o interesse imobiliário imediato é visto como o único caminho para garantir segurança e lazer para as gerações futuras.







































